Opinião

Como entender a guerra no "coração" do Islão

Santos Vilola |

Nunca foi tão fácil entender a guerra no mundo árabe, sobretudo no "coração do Islão", no Médio Oriente. Para mim, um documentário impressionante na televisão feito pela BBC sobre o assunto superou noites em claro a ler livros sobre o assunto.

E a explicação é simples. O Islão tem duas correntes principais: xiitas e sunitas.
A diferença entre ambas as correntes? Está no detalhe. Por exemplo, para ser imã (líder religioso), um xiita precisa de estudar 25 anos num colégio islamita, enquanto um sunita faz pouco menos de metade do que isso. Outra diferença: os xiitas consideram-se a classe aristocrática, o que também os distingue dos sunitas é o cordão preto, símbolo desta aristocracia, que usam sobre o turbante na cabeça.
As duas correntes coabitam em todos os países árabes, ou seja, em cada país árabe há xiitas e sunitas. Num determinado país, a maioria pode ser xiita e noutro sunita. O normal é haver mais xiitas. Os xiitas são apoiados pelo Irão, ou seja, é o Irão quem lidera o mundo xiita, e os sunitas pela Arábia Saudita. Duas grandes potências do mundo árabe.
E porque lutam? Um, em minoria, sempre quer evitar o domínio do outro sobre si num mesmo território.
O Irão, persa, mas governado por xiitas, quer expandir o seu domínio aos demais países árabes, e no vizinho Iraque, depois da queda de Saddam Hussein, da minoria sunita que governava o país e com a consequente chegada dos xiitas ao poder, exerce a sua influência, apoiando uma vingança contra os sunitas no Iraque.
Com a chegada ao poder dos xiitas no Iraque, surge um bloco desta corrente no centro do mundo árabe. Com Saddam Hussein, já havia rivalidade entre as duas correntes, porque este reprimia a maioria xiita e chegou até a matar o seu líder Mohamed al Sadr. Mas foi a chegada dos norte-americanos ao Iraque que acentuou o ódio entre as duas correntes do Islão. Os americanos colocaram no poder os xiitas, com Nuri al Malik a primeiro-ministro. E a vingança contra os sunitas começou.
Depois do Irão e Iraque, a Síria é outro território governado por xiitas. Bashar al-Assad é alawita, uma corrente minoritária xiita. Os três - Irão, Iraque e Síria - formam assim o chamado “crescente xiita” (em formato de uma lua na fase de quarto crescente) na parte alta do mapa do mundo árabe.
No Líbano, outro país estratégico do mundo árabe, a convivência pacífica entre xiitas e sunitas durou cerca de duas décadas até os xiitas da vizinha Síria dispararem um míssil a partir da fronteira, causando vítimas mortais entre as quais crianças libanesas sunitas.
Neste país, o sul é dominado por xiitas. O Hezbolla é xiita e é financiado pelo Irão. Os inimigos preferenciais deste grupo são os Estados Unidos da América e o Estado de Israel. Os sunitas do Líbano recebem apoio da Arábia Saudita, a poderosa nação árabe que se juntou à luta contra os xiitas no Líbano. Já agora, Bin Laden era o mais conhecido e radical dos sunitas.
Na Palestina, são os sunitas quem mandam e contam com o apoio do Qatar, outra nação árabe poderosa, rival da Arábia Saudita e declaradamente anti-sionita, cujo maior líder religioso é um imã, “estrela” da televisão Al Jazeera, onde prega uma nova versão do holocausto. Este imã do Qatar está no centro do corte das relações diplomáticas com a Arábia Saudita. Na Palestina, Gaza, a pequena cidade estratégica entre Israel e o mar é dominada pelos sunitas.
Para contrapor o “crescente xiita”, os sunitas da Arábia Saudita, Qatar e da Palestina pretendem também formar o “crescente sunita”, por baixo do “crescente xiita” do Irão, Iraque e Síria, para fechar o arco. No Médio Oriente, o coração do Islão, a guerra entre as duas correntes, xiitas e sunitas, está apenas a começar, segundo o documentário, e pode durar para sempre.

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