Opinião

Comunicação e Comunicabilidade

Manuel Rui

O ser humano pela evolução chegou ao conhecimento, aos traços pintados nas cavernas, aos desenhos de animais e caçadores até à consciência de se conhecer por conviver com os outros. Foi a comunicabilidade entre as pessoas que as levou a organizarem-se para melhor resistirem aos mistérios que, afinal, era quase tudo mistério desde o trovão, o raio, a água, as árvores e os animais selvagens. Imaginemos hoje os dias em que o homem começou a domesticar galinhas, patos, cães, bois ou cavalos. E por cada mistério, aparecia outro. E a ideia ou necessidade de Deus?

A comunicação implicava a comunicabilidade, as pessoas eram como vasos comunicantes e os saberes faziam aproximar mais cada um dos elementos de uma comunidade.
Ao longo de milénios o homem foi aperfeiçoando as formas de comunicação com o ponto alto da descoberta de símbolos até chegar à escrita.
Demorou a que a escrita passasse a ser dominada por elites que escreviam as ideias dos que mandavam, demorou muito mais até se chegar às escolas para ensinar as pessoas a ler ainda na infância. Demorou a chegar à electricidade e luz eléctrica.
Apareceu a imprensa, os livros de ciência e a literatura, a poesia cantada.
Quando se chegou aos jornais, à rádio e à televisão, atingia-se uma síntese de longas e penosas investigações de técnica e ciência. Os mistérios caiam sucessivamente. O raio e o trovão, por exemplo, já não eram mais mistérios divinos mas fenómenos da natureza. No entanto continuava o mistério maior sobre a travessia da vida para a morte.
As notícias começaram a correr com grande velocidade e durante as duas guerras mundiais, ter um rádio para ouvir notícias era tão importante como surpreendente, muito mais tarde mas no mesmo séc. XX, a televisão transmitir a primeira chegada de um homem à lua.
Por vezes, a comunicação pode situar o cidadão a par de muitos acontecimentos e opiniões e, ao mesmo tempo, isolar-se nessa solidão de conhecer. Antigamente, na cidade colonial, as pessoas passeavam à noite pela avenida marginal, tagarelando ou sentavam-se às mesas para beber cerveja ou um refresco. As pessoas conversavam. Havia comunicabilidade.
Os acontecimentos que antecedem a independência, a guerra em que nos envolvemos para cenário da guerra fria, fenómenos subsequentes como o recolher obrigatório, o “olhar silencioso de Lenine,” a movimentação de pessoas do interior para as cidades, levou-nos para uma sociedade descaracterizada, do salve-se quem poder, com medo do medo e poluída pela pólvora.
Nem o novo ”Carnaval da Vitória” reconquistou a comunicabilidade depois agravada na boa intenção de alojar as pessoas em casas dignas, optar-se pela vertical. Os arranha-céus apareceram por causa do espaço. Aqui, com tanto espaço, para fazer o quintal com árvores, fizeram-se prédios na vertical onde os do primeiro andar não conhecem os do sétimo. Mas tem os arranha-céus de Talatona em que não se conhecem mesmo sendo comum a piscina.
E não se conseguiu voltar à marginal, andar de um lado para o outro, conversar, enfim, sair dessa que se diz, “a malta só se encontra nos funerais e nos óbitos!”
Com a era da informática, cada um pode obter na tela do seu computador um manancial quase infinito de conhecimentos, inclusivé copiar uma tese de doutoramento, que antigamente, diga-se de passagem, também se podia comprar. A informática mudou hábitos, costumes e formas de trabalhar em empresas ou trabalhar em casa para uma empresa. Foi um salto enorme e que nos ultrapassa de tal forma que apareceram os vírus e os antivírus. O mundo debate-se em descobrir uma forma de controlar esta ferramenta que pode ser contaminada, pode destruir a formação de uma criança, pode fazer passar notícias falsas e, pelas redes sociais, inventar invisíveis malhas para multidões encherem as ruas para protestar sem qualquer chefia, produzindo estragos como no caso dos “coletes amarelos” em França ou actos de terrorismo. A força da informática fez também cair mais mistérios mas o da vida e da morte continua.
Aqui, em Angola, principalmente nas cidades, precisamos de mais clubes recreativos de bairro, mais associações culturais e mesmo as humanitárias. Para sermos vasos comunicantes como ainda são as pessoas que vivem no mato, não lhe chega lá o jornal mas ouvem rádio com discos pedidos na língua regional e vêem televisão, pela manhã, também em línguas regionais. Aí há comunicabilidade e um jango para festas e reuniões. A informatização da sociedade não implica a desumanização. A quitandeira que me telefona por celular, fala da mesma maneira de comunicabilidade carinhosa tratando-me por “tio”, “padrinho” ou “papá…”
Estou a escrever num computador. Depois, envio uma “metrónica” (mensagem electrónica, e-mail) para o jornal e a crónica não passou por máquina de escrever nem pelas impressoras onde se colocava caracter por caracter.
Felizmente, verifico que estão a fazer casas com quintal em vez de edifícios fantasmas com makas de elevador e botijas de gaz a rolar estragando os degraus…

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