Opinião

Comunicação política e a garantia de valores

Altino Matos |

A comunicação política estabelece em que princípios as acções do Estado e todas as suas articulações sectoriais dentro do território nacional e no exterior devem assentar, conformando-se, a partir daí, o tipo de regime político, que pode ser aberto ou fechado: assim se conhecem os Estados democráticos e de direito de carácter totalitário ou os Estados democráticos de direito de carácter aberto.

Existem ainda os de matriz religiosa, mas o que nos interessa, por ora, são os modelos acima referidos.
Nos Estados democráticos de direito com regime político aberto, as coisas acontecem com grande naturalidade e as informações circulam com muita fluidez; apenas raras vezes são empatadas por obstáculos jurídicos ou outros, que venham a perturbar a liberdade de expressão, de criação e de pensamento. E mesmo quando surgem obstáculos, são de imediato baixadas medidas técnicas, políticas ou jurídicas para dirimir equívocos e desfazer barreiras à sua boa funcionalidade.         
Este caminho foi assumido pelo Governo angolano, aliás. A Presidência da República tem dado mostras de tudo fazer para que nada atrapalhe a concretização deste regime político aberto, “lançado” pelo Chefe de Estado no momento da sua investidura, a 26 de Setembro deste ano. João Lourenço anunciou uma reforma profunda na Comunicação Social e pediu a todos os angolanos, principalmente àqueles com funções governativas ou com responsabilidades políticas, para aceitarem a contrariedade, através do debate de ideias e de opinião, e que aprendessem a conviver com a crítica.
Ficou dito nas entrelinhas das palavras do Presidente da República que todos têm o direito de manifestar livremente o seu pensamento, quer em forma de opinião quer noutra forma de criação discursiva, desde que, ao fazê-lo, não perturbe a ordem nem destrua a harmonia cívica das pessoas e das instituições. João Lourenço posicionou o Estado quanto ao tipo de regime político: estamos, claramente, em presença de um Estado democrático e de direito aberto.
Este tipo de regime transmite uma mensagem muito forte ao seu povo, nomeadamente a de que só existe com ele e que sem ele está condenado a ser um Estado falhado. Então, as instituições, a partir da Presidência da República, têm que estar alinhadas a uma só voz. “A uma só voz?”, coloca-se a pergunta óbvia. Na verdade, meus senhores, estamos a falar de comunicação e não de um soneto.
Em comunicação, a expressão a uma só voz, significa, principalmente no campo político, que acções e discursos não devem estar em sobreposição, o que pressupõe a existência de um caminho comum, capaz de congregar diferenças, mas nunca dissonâncias. Ou seja, entre Governo e governados deve existir, por exemplo, uma aproximação que permita a filtragem de tudo o que prejudique a consolidação do Estado, reservando-se, oportunamente, o espaço para discordância de ideias ou de programas políticos.
Naturalmente que ainda é muito cedo para se tirar ilações sobre a forma como a Presidência da República está a conduzir esse processo no campo da comunicação política, mas sempre é possível fazer a leitura dos sinais, diria antes dos poucos. Pelo que temos até agora, nota-se uma grande preocupação de aproximação do Governo e de, a partir daí, dar-se credibilidade às instituições, o que poderá determinar, nos próximos meses, a criação de um quadro de estabilidade social favorável à concretização dos seus programas.
A partir da Presidência, deve-se estabelecer todos os mecanismos de comunicação governamental, consolidados através de desenhos a nível de cada um dos seus sectores e indicados para a persuasão. É fundamental vincar a união do Governo e a sua solidariedade institucional em obediência, claro, à própria Presidência da República. Existem disposições técnicas e fundamentos teóricos nas Ciências da Comunicação para ajudar a gizar estratégias gerais ou operacionais, para tornar não apenas possível mas funcional a máquina e com condições reais de alcançar os objectivos.
Porém, por falar em estratégia, somos obrigados por imperativo de avaliação técnica a olhar para a prestação do MPLA, enquanto partido que dá suporte ao Governo e à Presidência da República. Fica a ideia, em termos de comunicação política, que o MPLA não tem a sua estratégia operacional afinada com a comunicação governamental, o que tem estado a prejudicar a sua imagem.
O partido dos camaradas parece não estar à vontade com a sua filosofia de trabalho, assente no método bicéfalo, com um Presidente da República que é o vice-presidente do MPLA. E se o MPLA está à vontade perante esse quadro, então está a enviar sinais contrários, pelo que deve corrigir os seus métodos de comunicação.
O primeiro sinal negativo da sua comunicação tem a ver com a existência de um claro afastamento do Governo, mostrando que o MPLA é uma coisa e o seu Governo é outra, quando sabemos que é o suporte do Executivo. É um erro crasso pensar que as pessoas não estão a ver ou que isto é bom para o MPLA. Não. Não é bom nem para o MPLA, nem para o Governo, considerando que os titulares de cargos no Governo podem ficar baralhados em termos de mando, sobretudo quando são feitos apelos sucessivos à disciplina partidária.
O MPLA é conhecido como um partido politicamente forte, com qualidades de adaptação excepcionais, razão mais que suficiente para desfazer eventuais equívocos à volta do seu alinhamento com o Governo e do seu apoio à Presidência da República. O MPLA, ao fazer entrar na sala de trabalho os dois líderes ao mesmo tempo, enviou um sinal de grande significado político e sossegou os mais inquietos quanto ao que parecia ser uma “subalternização negativa” do Presidente da República nas esferas do partido. Assim, José Eduardo dos Santos e João Lourenço devem ser recebidos juntos, doravante, pela “assembleia de quadros”, como sinal de valorização de um militante que desempenha altas funções no Estado, primeiro, e, segundo, em respeito aos seus militantes e ao povo angolano. Em termos de comunicação política, o MPLA consegue, a ser assim, anular determinadas especulações.
A demonstração de apoio a João Lourenço, mais do que um sinal, deve ser uma prática do partido e de todos os seus militantes, para que, no âmbito da comunicação política, sejam reforçados valores como a união e a solidariedade, sem os quais o exercício de poder passa a ser praticado sem “alma”. O Governo tem de focar-se exclusivamente nas preocupações das pessoas e das instituições e, para que tal seja possível, deve sentir que os militantes do MPLA, a todos os seus níveis, estão alinhados com os mesmos interesses políticos, económicos e sociais.
 A máquina de comunicação governamental deve incluir o sector da Comunicação Social em toda a sua extensão- quer dizer com órgãos públicos e privados-, para que os conteúdos encontrem maior facilidade de circulação e toquem todas as pessoas centradas no crescimento e desenvolvimento do país.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia