Opinião

Conchiglia fotografa Neto

Adriano Mixinge

Como muitas pessoas, eu também vi a publicidade que, ao longo das últimas semanas, a Televisão Pública de Angola (TPA) foi passando, a anunciar a apresentação do livro/álbum “Augusta Conchiglia “fotografa” Agostinho Neto – da guerrilha aos primeiros anos da independência”, publicado na colecção Novo Rumo, pela Fundação António Agostinho Neto (FAAN), com a coordenação editorial de Maria Eugénia Neto e Irene Neto.


A apresentação do livro realizou-se, na sexta-feira, no hall do Memorial António Agostinho Neto (MAAN), numa cerimónia bastante concorrida, emotiva, espontânea e de genuína camaradagem entre aqueles que viveram e sobreviveram os anos de luta pela libertação de Angola e os primeiros anos depois da Independência, com alguns dos seus familiares, membros do partido MPLA, mas também da Frelimo, do PAIGC e público interessado com perfil etário e social diversificado.
Quem presenciou o evento sabe que a ocasião foi, também, uma oportunidade para alguns reverem compagnons de route, os velhos maquisards e as antigas pioneiras das bases do MPLA, para todos reviverem a época mais gloriosa da luta de libertação nacional e os primeiros anos depois da Independência de Angola.
A cerimónia foi uma maravilhosa ocasião para ajustar, de maneira serena, contas com o passado, a primeira delas, fazendo justiça e colocando a autora do livro no lugar que lhe é devido: sim, foi Augusta Conchiglia quem fez as fotografias que aparecem, em 1977, na primeira emissão das notas dos kwanzas!
Um olhar rápido às páginas do livro permite-nos confirmar que a fotógrafa soube captar o lado mais lindo, elevado e puro da vida dos retratados, que se encontravam em circunstâncias duríssimas, “de sangue, suor e lágrimas”.
A descontração dos retratados, principalmente as crianças e adolescentes, as imagens da alfabetização e dos trabalhos nas lavras nas zonas libertadas do MPLA, a solidariedade entre as famílias, a firmeza dos quadros do Movimento e, no geral, a epopeia colectiva que desembocou na Independência Nacional, sempre sob a estratégia de Agostinho Neto, são momentos únicos que o livro mostra.
No entanto, já mais tranquilos, durante o fim-de-semana pusemos calmamente os olhos nas páginas de “Augusta Conchiglia fotografa Agostinho Neto – da guerrilha aos primeiros anos da independência” e demo-nos conta de que temos em mãos um belo, terno e profundo livro contendo duzentas e setenta e cinco fotografias, subdividido em oito capítulos, separados por uma página amarela situando o lugar, o tema principal, o momento e o período a que as fotografias se referem.
Mas, o que terminou surpreendendo-nos no livro foi que, afinal, ele é muito mais do que um livro de fotografias: na simbiose entre o texto fotográfico e a transcrição de vários depoimentos de Agostinho Neto, - que ela publicou, em 1979, na revista Afrique Asie -, Maria Eugénia Neto, Maria da Silva Neto, incluindo um artigo de José Luis Mendonça com uma biografia da autora e os escritos que ao longo dos anos ela foi escrevendo como observadora atenta da realidade política, social, económica e cultural de Angola, é aí que reside o seu interesse histórico, afectivo, estético e documental.
Entretanto, “Augusta Conchiglia fotografa Agostinho Neto: - da guerrilha aos primeiros anos da Independência” é muito mais do que um livro de fotografias por outras razões, dentre as que destacaria: a autora subermergeu-se profundamente na realidade da luta de libertação de Angola contra o jugo colonial português e tratou de forma tão directa com os guerrilheiros, o que possibilitou que compreendesse a justiça da causa dos revolucionários, conhecesse o lado mais humano e cheio de ternura de cada um dos que fotografou e com os quais conviveu.
Apesar de não corresponderem aos estereótipos dos guerrilheiros da época, muitos deles baixinhos, de físico franzino e com cáracter algo reservado, eram pessoas que tudo fizeram, sem nunca fraquejarem, pela libertação de Angola.
Além do mais, neste livro, Augusta Conchiglia não foge às questões mais problemáticas do período e o que conta, por exemplo, sobre o posicionamento de Agostinho Neto no período que se segue ao 27 de Maio e aos desmandos da DISA oferece possibilidades de leituras que permitem rever a época e as suas problemáticas desde outras perspectivas, talvez menos radicais e maniqueístas.
Augusta Conchiglia vai ainda mais longe ao incitar, da parte do MPLA, da FNLA e da UNITA, e em prol da mais completa verdade histórica possível, uma maior abertura e um espaço mais livre para debates e investigações históricas e políticas menos sectárias e menos categóricas. O livro também faz um alerta contra o “crescente desinteresse pela guerra de libertação contra a dominação colonial e a negação da sua dimensão histórica”. “Augusta Conchiglia fotografa Agostinho Neto – da guerrilha aos primeiros anos da independência” é um livro/álbum para ter, ver, ler e ajudar a repensar melhor o passado.

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