Opinião

Construir estradas e não caminhos

Carlos Gomes

Só não se comoveu quem não ouviu o Comandante-Geral da Polícia Nacional, Comissário-Geral Paulo de Almeida, quando fazia o balanço da sinistralidade rodoviária do ano findo de 2019, de que resultou a horripilante cifra de 2.327 mortes e 10.710 feridos, ao qual se associa todo o cortejo de viúvas, órfãos, inválidos e diminuídos físicos para todo o sempre, sem deixar de referir os elevados custos económicos e financeiros daí decorrentes, com realce para o empobrecimento de alguns sectores nevrálgicos da nossa economia e não só, sejam públicos ou privados, pela perda irreparável de alguns dos seus melhores quadros e profissionais de difícil substituição!


Nos espaços de análise sobre a sinistralidade, as principais causas que vinham sendo apontadas, como bastantes e suficientes, se por omissão ou “deliberadamente”, eram simplesmente a condução sob o efeito de álcool e o excesso de velocidade. Não ...!!! A esses dois factores devem-se-lhes associar, como também importantes, entre as circunstâncias concorrentes para os acidentes da tríade: homem, via e o próprio meio: o péssimo traçado das nossas vias: estradas ou “caminhos” como bem foram caracterizadas pelo número um da Polícia Nacional, sem sinalização apropriada e uniforme, sem iluminação - tanto dentro como fora das localidades, sem manutenção e sem bermas e separadores de protecção, sem linhas de emergências, nem de estacionamento etc... um verdadeiro “chamariz” à morte; veículos sem inspecções periódicas; sem manutenção obrigatória - quadro potenciado pelas dificuldades de importação de peças e sobressalentes de reposição, enfim...!!!
Quem nesta Angola não terá perdido um membro da família nesse flagelo, considerado hoje como a segunda causa de morte no nosso país, depois da malária? Para que possamos ter a dimensão real da gravidade da situação, com recurso à extrapolação estatística, bastará dizer que a manter-se essa tendência, quando Angola tiver 50 milhões de cidadãos, terá uma cifra aproximada de 10 mil óbitos por acidentes, uma realidade que não deve ser vista como só mais uma preocupação, mas sim como emergência de segurança nacional, para salvaguarda do bem vida.
Porque pensar apenas na compra de cadeiras de rodas para os eventuais diminuídos físicos em consequência de acidentes, quando se pode investir em mais equipamentos de prevenção? Porquê pensar-se em lares de acolhimento de órfãos, cujos pais sejam vítimas da maior parte das nossas estradas “assassinas”, quando se poderia investir em espaços lúdicos e de recreação das famílias? Quantos angolanos mais terão que morrer para que se ganhe consciência que as estradas com túneis, com menos curvas, contra curvas e inclinações acentuadas 10 por cento, não são um luxo, mas uma necessidade imperiosa para a preservação da vida? De quê vale ter um Ferrari estacionado em Talatona, se mal pode chegar à Viana?
Porque não existe nada mais sagrado do que a vida humana, a sinistralidade rodoviária deve ser atendida como prioridade na agenda de emergências de segurança, em razão da transversalidade dos seus nefastos efeitos.
Animados com o novo paradigma da actual governação, é nossa convicção que, doravante, serão sim construídas verdadeiras estradas (seguras) e não mais caminhos, porque embora seja difícil aceitar, muito menos fingir, a verdade verdadeira é que os mortos por acidentes já não voltarão a morrer, os próximos a morrer seremos nós os ainda vivos.

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