Opinião

Contra o bullying no trabalho

Adriano Mixinge

O bullying é uma prática que afecta muito negativamente a produtividade, a eficiência e a qualidade do desempenho dos trabalhadores nas empresas, nas organizações e, de um modo global, nas instituições. Aos lesados – se não estiverem moral, técnica e intelectualmente bem preparados e, como se diz na gíria, a darem a volta por cima - pode provocar problemas de saúde, de segurança e de auto-estima.

Em Angola não é frequente ouvir falar sobre o bullying. Ninguém gosta de falar deste drama das relações sócio-profissionais no trabalho e desde os anos 70 e 80, quando o Comunismo queria instalar-se entre nós, em consonância com a forma em como o poder (real ou pressuposto) foi-se exercendo nas relações laborais, este é um tema tabú. Conscientes das escassas opções para defender-se, quando confrontados com situações susceptivéis de serem qualificadas de bullying, os trabalhadores desenvolveram uma série de estratégias: o repertório é tão diverso quanto surreal e, de certeza, muitos de vocês sabem qual é. Claro que, há quem sofre as consequências destes abusos. Mas, quando não, geralmente, no momento em que a possível vítima avisada intui ou vê-se à beira da concretização desta possibilidade - e pode – faz tudo para mudar de emprego, deixando o antigo emprego à mercê do superior hierárquico ou do colega abusador.
Ouvindo gente próxima e pessoal conhecido que já se aposentou ou está prestes a fazê-lo tenho a impressão de que, actualmente, uma percentagem significativa das aposentações antecipadas pode ter sido provocada pelo desejo de muitos evitarem serem vítimas de bullying no trabalho. Este é um drama silencioso que acontece porque, entre outras causas, pelo que eu saiba, não existe legislação sobre o assunto ou se existe não me parece que os mecanismos que possibilitem a sua execução, de facto, sejam lá muito conhecidos, nem eficazes.
Por conseguinte, no caso de existirem casos identificados, seria muito difícil proteger as vítimas. Os chefes – reais ou pressupostos - ainda gostam de mandar (ou lhes permitimos) que o façam até para além do permitido legal e moralmente.
O bullying no trabalho pode verificar-se a todos os níveis e pode começar com coisas aparentemente simples e por razões subjectivas que, na prática, provocam que alguém com quem trabalhamos no nosso dia à dia, mesmo tendo uma posição de poder confortável e merecida se sinta, de modo (quase) inexplicável, inseguro. Resultado: reage tratando de humilhar, privar de direitos a outrem, excluindo quando deve incluir, rejeitando qualquer proposta não importa se tem ou não qualidade, desqualificando à torto e a direita ou usando as fofocas, os rumores e as piadas como armas de arremesso.
As razões subjectivas que podem contribuir a despoletar o bullying são também, no geral, as mais absurdas: porque o funcionário tem um porte físico altivo, porque tem um perfil de rosto mais ou menos gracioso ou, - nesse caso, fatal- porque actua de um modo que faz pensar que, não só é competitivo como provoca até mesmo a suspeição de que tenha ambições de evoluir na carreira profissional, que outros (particularmente o chefe), a priori pensam que não deveria ter, entre muitas outras causas.
A maior parte das fontes que estuda a psicologia e a sociologia das organizações e do trabalho coincide: “o bullying são os actos de violência física ou psicológica intencional e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executados dentro de uma relação de poder real ou pressuposto”. O bullying pode manifestar-se tanto por uma inclusão que sufoca como por uma exclusão aparentemente banal: em ambos os casos é uma tentativa de minimizar, tratar de maneira indigna o outro para levá-lo a acreditar que é (quase)inútil coisa que irremediavelmente, pode levá-lo à desistência, à desorientação ou ao abandono.
Muitos dos que praticam o bullying pensam que é uma estratégia inocente para consolidar o poder que têm, por mínimo e irrelevante que ele seja. Muitos dos que a sofrem, as vítimas, assumem em silêncio preferem não gritar, não comentar ou fingir ignorar para que, quem dispõe do poder não piore, insiste e os enxovalhe, completamente. Muitos dos que se apercebe que alguém está a praticar e ou a ser vítima de bullying no trabalho ficam calados para, com a sua aparente neutralidade evitarem saírem da zona de conforto esquecendo-se que, um dia, as vítimas poderão ser elas.

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