Opinião

Contratação urbana

Santos Vilola

A escola de políticos da UNITA sempre produziu quadros que, até mesmo em plena guerra, revelaram sempre discernimento e aptidão no debate político em qualquer cenário de confrontação em instituições democráticas. Prova disso, foi demonstrada quando chegaram pela primeira vez aos centros urbanos, fruto dos acordos de Bicesse.

Desde que Isaías Samakuva, já a partir de Luanda, assumiu a presidência do partido, a UNITA tem feito um exercício para parecer congregador e integrador de cidadãos nacionais nas suas fileiras que, mesmo sem um histórico de militância no partido, comungam os ideais políticos progressista de esquerda.
Mas, levada ao extremo como parece nos últimos anos, esta estratégia tem revelado uma aposta preferencial em "contestatários de centros urbanos" em detrimento dos seus militantes de organizações de base.
O partido parece ter postergado a sua escola de formação de políticos e andar a escolher nos principais centros urbanos cidadãos que se apresentem à partida como opositores viscerais do MPLA. São normalmente escolhidos aqueles que fazem algum ruído e que sejam mediáticos que ingressam directamente num lugar cimeiro de uma lista de deputados ou de um órgão constitucional em que o partido, em função da representação parlamentar, tem direito a indicar membros.
A escolha passa ultimamente por "militantes da vida política activa do Facebook" ou de sites com conteúdo ou material "subversivo" que são brindados com uma recuperação e elevados a uma categoria de quadros do partido, para enfrentar os adversários do  projecto político de Muangai.
A táctica parece simples. É só elevar o tom da contestação em qualquer meio de comunicação ou media social e, no dia seguinte, és promovido a militante sem esforços e, muitas vezes, sem olhar para o capital profissional ou político do escolhido. O partido vai sempre às compras no defeso - entenda-se no período perto das eleições - e anuncia algumas aquisições para enfrentar os seus adversários de ocasião.
Parece que os únicos jovens com lugar garantido na dinastia política do partido são aqueles cujos ascendentes são históricos fundadores da UNITA, são filhos dos "mais velhos", são parentes ou afins daqueles que estiveram até ao último dia da “capitulação” do braço armado nas matas do Moxico. Esses jovens lideram incontestavelmente as organizações de base do partido a nível nacional e provincial, masculinas ou femininas.
Os outros, os militantes de base tarimbados, enfrentam uma concorrência arrebatadora e a sua ascensão parece cada vez mais remota. Em qualquer organização ou grupo, a preferência dos primeiros em detrimento dos outros gera sempre um mal-estar, desmotivação e contestação. E, claro, este tipo de recrutamento pode ser propenso a "toupeiras" que infestam o partido e desestabilizam a sua coesão.
E a geração dos "mais velhos" está a chegar ao inevitável esgotamento físico. O partido perdeu um militante de peso que andou 42 anos e um mês, até ontem. Se um militante pode ser substituído por outro ou por muitos, "um" Fernando Heitor é só mesmo um. Os lugares que ocupou, sobretudo num governo inclusivo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN), revelam que um substituto imediato não deve ser encontrado tão cedo.
Heitor engrossou ontem a longa lista de dissidentes por desacordo com as políticas de promoção interna no partido. E a rixa com Raul Danda, promovido a vice-presidente do partido e, em consequência, o candidato a Vice-Presidente da República, está no topo das razões que motivaram o "catete" Fernando Heitor a deixar em definitivo o partido do "gala negro".
Danda é considerado por Heitor como um político "caminhante" por causa das idas e vinda à UNITA, com passagens intermédias por um partido político diferente (Tendência de Reflexão Democrática) e um movimento de defesa dos direitos humanos.
Fernando Heitor regressou ao Parlamento em 2005, onde foi proposto para ocupar o cargo de segundo vice-presidente da Assembleia Nacional. Em 2012, chegou a presidente da comissão do ambiente, trabalho, segurança social, ciência e tecnologia da Assembleia Nacional.
Por isso, uma nova geração de políticos deve emergir na UNITA, mas se for apenas integrada por membros de famílias tradicionais do partido pode não chegar para a dimensão do país.
Bom, se calhar, é a lógica do partido e a sua estratégia para os centros urbanos, mas acho que esses jovens "messiânicos" têm deficit de capital político à dimensão daqueles que sempre foram produzidos na UNITA.
Cá para mim, falta apenas um anúncio agourento de "alguns jovens" sobre a sua militância no partido, depois de algum tempo de luta pública pelos seus direitos civis. Mas a indiferença à tentação faz deles cidadãos que aparentemente não foram motivados por partidos, apenas por grupos anónimos. 

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia