Opinião

Covid, ciência e comunicação

João Melo*

A “doença do coronavírus de 2019” – que é o que o acrónimo inglês Covid 19 representa – tornou-se, nos últimos quatro meses, o principal tópico da mídia em todo o mundo. O assunto é susceptível de várias e diferentes abordagens. No presente texto, abordarei em particular a maneira como os diferentes tipos de meios têm tratado este momentoso tema e a relação entre comunicação e ciência.

A realidade actual no domínio da comunicação obriga a distinguir dois grandes grupos de mídia: os meios tradicionais e as chamadas redes sociais, que alguns, afoitamente, propalam ser igualmente “jornalismo”. Não o é, mas, embora não o seja, tem hoje um impacto cada vez mais poderoso, com consequências políticas e até antropológicas imprevisíveis, além das mudanças sociológicas e económicas que já provocou.
No meu entendimento, as redes sociais não podem ser confundidas com as mídias digitais, desde sites e portais aos jornais, revistas, rádios e televisões online, que são, obviamente, jornalismo. Por isso, discordo daqueles que concluem que, por causa da enorme demanda acerca da pandemia por parte do público, as redes sociais assumiram o protagonismo da comunicação. Podem tê-lo feito em termos quantitativos, mas não creio que o tenham conseguido em termos de credibilidade, pelo contrário.
O que, paradoxalmente ou talvez não, parece ter acontecido nos últimos quatro meses é reforço da credibilidade das mídias convencionais, bem como da comunicação institucional e governamental em geral, salvo, talvez, em meia dúzia de países, cujas autoridades adoptaram desde o início uma irresponsável e perigosa estratégia de minimização da pandemia. Tal facto confirma uma característica fundamental dos seres humanos: a sua necessidade de olhar e recorrer às instituições, quando confrontados com situações-limite.
Para resumir a minha avaliação sobre a relação entre meios convencionais e redes sociais no tratamento comunicacional da Covid-19, direi, por conseguinte, que as últimas “avançaram ainda mais no território antes dominado pela imprensa escrita e audiovisual”, como escreveu Carlos Castilho no Observatório da Imprensa brasileira, mas o público demonstrou mais confiança na imprensa tradicional. Como acrescentou o jornalista brasileiro, é ainda mais difícil para qualquer pessoa, no ambiente caótico de uma pandemia, quando entra numa rede social, “fazer por conta própria a diferenciação entre o que é facto, versão, opinião, meia verdade ou mentira”. No ambiente jornalístico convencional, isso é não apenas uma tarefa dos seus profissionais, mas uma obrigação ético-deontológica. A excepção, que confirma a regra, é o jornalismo tipo tabloide, cada vez mais misturado com o pior lado das redes sociais.
Por isso, na actual crise de saúde pública global, a maioria do público, em quase todo o mundo, tende a confiar mais no chamado jornalismo de referência. Afinal, estamos todos confrontados com uma situação literalmente de vida ou morte, logo, não há pré-disposição para jogos, especulações e acusações gratuitas e muitas vezes absolutamente mirabolantes. Brincadeira tem hora, diz o ditado popular.
A evidente maior credibilidade do jornalismo de referência no tratamento da Covid-19 é o seu recurso e o seu respeito pela ciência. Não estranha, por isso, que os adeptos das teorias da conspiração, assim como os demagogos e populistas cujo único discurso, numa caricatura grotesca dos “bons e velhos” anarquistas, é falar mal das instituições e dos governos, qualquer que seja a natureza e/ou a actuação destes últimos, optem por uma espécie de “aliança estratégica” com as redes sociais e a imprensa “amarela”.
Uma das críticas dos populistas e adeptos das teorias da conspiração é que os cientistas se têm “contradito”, por vezes, quando abordam publicamente certos aspectos da Covid-19. Segundo eles, isso será a prova de que a ciência, a maior parte dos governos do mundo e os jornalistas “estão a mentir”. Tal crítica não faz o menor sentido, pois é obrigação da ciência, precisamente, actualizar as suas conclusões, consoante os resultados da investigação e da pesquisa. Uma consulta básica à Wikipédia permite saber que o conhecimento científico tanto pode ser um novo conhecimento, uma correcção (evolução) ou um aumento na área de incidência de conhecimentos anteriormente existentes.
Para concluir, é imperioso, entretanto, chamar a atenção para uma questão que Carlos Castilho aflorou no seu artigo publicado no site do Observatório da Imprensa do Brasil: a agonia financeira das empresas jornalísticas em todo o mundo, confrontadas com as assustadoras quebras de publicidade – tendência que não começou agora, mas se agravou dramaticamente com a pandemia da Covid-19 – e o avanço das formas de pseudo - jornalismo nas redes sociais.
Se não forem encontradas soluções para esse problema, o mundo pós-covid poderá estar entregue à indústria das fakenews e aos robôs que as espalham criminosamente, comandadas por forças tenebrosas e tendencialmente secretas, fora do controlo democrático das sociedades.

*Jornalista e escritor

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