Opinião

Críticos de arte também precisam de tintas e telas

Osvaldo Gonçalves |

Em Angola, há muito que a crítica de arte perdeu a bússula, muito por força do desnorte que ganharam, entre outros, os conceitos de arte e crítica. A música é o elemento mais visível nesse contexto. Teve o sentido de “intervenção” reduzido às denúncias da repressão colonial e exploração dos angolanos; passou a ser considerada “revolucionária” apenas quando focava as forças  político-militares em oposição ao que se considerava justo e de acordo com as aspirações das massas populares e invasoras.

A crítica perdeu a auto-crítica como companheira de debate, sem poder dar um passo atrás para ganhar o fólego necessário para a seguir dar dois em frente. Ficou presa no tempo, alheia à dialéctica das coisas. O mesmo se passou com o conceito de arte, enclausurado nos novos dictames da “intervenção” e “revolução”, ainda quando estes colidiam claramente com as ciências humanas, sobretudo, com a História.
Da crítica perdeu-se todo o sentido de análise, de equilíbrio; num embate desigual, o lado mau das coisas impôs-se e da crítica restou a noção de censura, de repreensão. Criticar passou a ser sinónimo de maldizer e não de avaliar.
Estabelecida a noção de censura/repreensão, a crítica abateu-se sobre a arte, em muitos casos com um rolo compressor, desbaratou as flores, espalmou os caules, compactou as raízes. Em Angola, a crítica passou a ser madrasta da arte, quando esta, cada vez mais, clamava por uma madrinha, mesmo uma natural e não fada.
A arte ou o que se entendeu chamar por esse nome foi tomando um ar de snobismo, de elitismo escorado, muitas vezes, pela pompa do discurso e pelas circunstâncias que a rodeavam. As exposições passaram a ter vernissages e as sentadas para debate, já na forma de workshops, anteciparam os coffy breacks.
O valor das exposições é hoje medido pela vernissage. Sempre marcada para uma sexta-feira ou sábado quaisqueres, a servir, com os seus canapés e drinques de borla, de rampa de lançamento para a noitada ou fim de semana bem passado, o suficiente para esquecer traços e cores e mergulhar em apneia na semana laboral seguinte.
Narrámos em tempos, nas páginas do Jornal de Angola, um episódio um tanto surrealista. Saído de uma vernissage na Baixa de Luanda, um grupo de indivíduos mostrava-se incapaz de falar sequer do pintor, quanto mais dos quadros, pendurados na parede, bem por detrás das costas dos convidados, todos de copo na mão, venha mais um e mais outro até terminarem as “hostilidades”.
Os ditos amantes da arte fazem-se quase sempre valer pelo ar despregado que ostentam, talvez querendo valer-se do facto de a definição do que é arte variar com o tempo e de acordo com as várias culturas humanas. O que aqui é considerado arte, ali já não é; o que hoje é arte, amanhã deixou de ser.
Dá muitas vezes a impressão que muitos dos ditos apreciadores de arte não o são de forma natural. Apresentam-se assim por necessidade de demarcarem terreno, criaram uma estética pessoal, em que, mais do que se prestarem a uma interpretação da obra, limitam a arte ao seu próprio entendimento, ou ao que dizem entender. O conceito desenvolvido por Umberto Eco de que obra de arte só existe na sua interpretação, na abertura de múltiplos significados que pode ter para o espectador, perde todo o seu fólego ao ser individualizado.
A interpretação deixa de ser abrangente, passando a ser limitada ao máximo. O plural, quando existe, é tão somente o múltiplo de um (1). O indivíduo permite-se a ter várias interpretações, mas afasta de si qualquer hipótese de outros terem as próprias interpretações. Quando se espreita o Mundo pelo ralo de um funil, podem ver-se muitas coisas, mas haverá sempre um único olho a vê-las.
Mais do que isso, o funil é fixo e a imagem que se tem ao espreitar pelo ralo muda apenas se a paisagem se alterar ou for alterada. É de certo modo violento afirmar mas teimamos em dizer que, em muitos casos, são formados verdadeiros gangs de amantes da arte, cujos membros partilham o mesmo funil.
Só é permitida a proximidade de elementos não membros da gang que possam, em determinado momento, oferecer mais-valias a determinada corrente, nomeadamente jornalistas, e que, de preferência, apresentem um discurso rebuscado, uma espécie de código Morse da gang. Para melhor perceber o que dizemos, basta ler algo do que se entende designar crítica de arte.
Talvez porque se queiram fazer notar, alguns dos chamados críticos de arte optam por uma linguagem do tipo receita médica, que às vezes nem o farmacéutico percebe. Só que o texto acaba por ser apreciado na perspectiva do ralo do funil fixo, senão ele mesmo considerado arte.
O artista Cristiano Mangovo disse há dias à Angop que o mercado artístico nacional carece da figura do crítico de artes plásticas, enquanto motivador, censurador e aconselhador  dos trabalhos inovadores e de qualidade dos criadores angolanos.
Graduado em Pintura, pela Faculdade de Belas Artes de  Kinshasa (RDC), Mangovo parece querer dar o corpo ao manifesto e afirma que o crítico de artes plásticas contribui para a originalidade das criações e ajuda a elevar a qualidade dos trabalhos, devido à sua opinião e pareceres técnicos e científicos que emite.
O crítico de arte, frisa, não deve estar ligado, profissionalmente, a um artista ou grupo da classe, para dar uma opinião mais independente. “Um crítico de arte deve ser um profissional comprometido com o seu serviço, para o bem da classe, ter o espírito aberto de forma a projectar o melhor caminho para todos os criadores”, frisou.
O artista plástico apelou aos críticos para que visitem mais os ateliês dos artistas nacionais no sentido de prestarem um melhor serviço à classe, através dos seus pontos de vista técnicos e científicos.
Cristiano Mangovo tem toda a razão. Mas precisa de se lembrar que, se os artistas almejam um mercado, os indivíduos de espírito aberto, como ele diz, capazes de emitir pareceres técnicos e científicos sobre as obras de arte, também. Afinal, quem lê crítica de arte? Quem ousou deixar de ver o Mundo pelo ralo de um funil fixo ou, pelo menos, adquirir o próprio e vaguear por aí, deixando que outros também espreitem e digam o que vêem?
Pois é, Cristiano Mangovo, tanto os críticos como os artistas precisam de tintas e telas. Ninguém trabalha de barriga vazia.

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