Opinião

Dançar para viver e imaginar

Adriano Mixinge

Mais logo, às 18h30, no auditório do Banco Económico, em Luanda, as realizadoras Kamy Lara e Paula Agostinho apresentarão ao público o seu documentário “Para lá dos meus passos” (2019), naquela que será a ante-estreia. Com duração de setenta e dois minutos, o filme tem edição de Gretel Marin, coreografia de Mónica Anapaz, música de Gotopo e é uma produção do colectivo Geração 80, em parceria com a Companhia de Dança Contemporânea de Angola.

No início, o filme documentário “Para lá dos meus passos”, de Kamy Lara e Paula Agostinho, parece ser um exercício ao mais puro estilo do cinema verité de Jean Rouch, com a sua vontade de observação e de seguimento do dia-a-dia da vida real de um grupo de cinco bailarinos da Companhia dirigida pela coreógrafa Ana Clara Guerra Marques, mas, finalmente, termina sendo uma obra conceptual, por vezes abstracta, com preocupações existenciais e sociológicas pertinentes e actuais.
Nele, um conjunto de elementos harmonizaram-se para que possamos fazer a autópsia de uma sociedade situada entre a ordem e o caos, o passado e o futuro, a tradição e a pós modernidade, o rural e o urbano, o individual e o colectivo, o continente e o mundo.
A coreografia “Desconstrução”, de Mónica Anapaz, a descrição das origens regionais e sociais de cada um dos bailarinos e, particularmente, da forma como eles e as suas famílias vivem a dança e tudo fazem para adaptar-se numa grande cidade, as pesquisas sobre as danças/rituais e cerimónias tradicionais de cinco províncias (Huíla, Cabinda, Lunda-Norte, Luanda e Zaire) e a sua reinterpretação contemporânea mostram-nos os dilemas com que os criadores e os cidadãos se debatem, reflecte o limbo em que a sociedade vive.
Ao utilizar-se meios técnicos como os drones para filmar tanto a imponência da natureza como o frenesim da cidade, apresentando sempre a dança como um eixo essencial na vida dos bailarinos e, no geral, de qualquer sociedade que queira viver, relembrar, sonhar, imaginar e transformar-se para além de todos os constrangimentos e bloqueios, convertem o documentário numa declaração de princípios estéticos e políticos, a manifestação do desejo de resgatar a pureza do muito que se vai perdendo, sem abdicar das necessárias metamorfoses criativas.
Vivenciar com lucidez a irrupção da sociedade de consumo, reavaliar e reinventar as tradições, estetizá-las e, em geral, advogar um entendimento mais útil, inovador e construtivo do lugar social da arte e da cultura são algumas das questões que o documentário “Para lá dos meus passos” coloca não só aos bailarinos, coreógrafos e figurinistas da Companhia, mas também a todas as sociedades em que persiste a tendência a manter inamovivéis as construções identitárias, artísticas e culturais, debatendo-se entre a decadência ou a ousadia de se transformar.
A meu ver, o interesse do documentário “Para lá dos meus passos” reside, também, no facto de, pela primeira vez, nos podermos aperceber como e o que pensam os bailarinos da Companhia. O que até agora vimos foi, sobretudo, a forma como os coreógrafos modulavam os seus corpos e como é que eles respondiam às diferentes narrativas, mas, excepto aqueles que trabalham mais estreitamente com eles, o grande público desconhecia completamente o que pensavam, como viviam, o que esperavam da dança e a maneira como ela repercute nas suas vidas.
O documentário vem, pois, desvendar quase tudo e esta é, sem dúvidas, a principal razão para vê-lo.

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