Opinião

Das idas à matinée e outros filmes

Osvaldo Gonçalves |

Os carrinhos de picolés têm nova música. No lugar daquele xinfrim asiático, que nos fazem lembrar os tempos do “Braço de Ferro”, em estreia aldrabada, mas muito anunciada no cinema Liz, sobretudo nesta época do ano, quando todos queriam virar Mabecos e saltar de motorizada os charcos que teimavam em formar-se nas ruas de terra batida e até os adolescentes filhinhos-de-papai desafinavam tubos de escape das minis para roncar como motas grandes, porque as miúdas gostavam, mais as branquinhas que as pretinhas, coitadas, essas tinham de engomar as fardas dos comandos, nós ficávamos junto ao portão, só a ver, a ver e a gritar “salta, Mabeco!” e eles saltavam e, às vezes, derrapavam e caíam e era espectáculo, cena repetida toda a semana, todo o mês, até à exaustão, os que contavam melhor eram os que não tinham visto as manobras e as quedas,  mas tinham ouvido falar, e era melhor a cena contada que a cena vista, porque não tínhamos dinheiro  para ir à matinée.

“’Bruce Lee contra Wang Yu’. Ninguém nunca viu? Eu vi! Bruce Lee deu um salto e foi parar em cima do Hotel Presidente. Xê! granda salto! Viram? Eu vi”! O hotel Presidente era ainda o prédio mais alto da cidade de Luanda. Tinham começado a construir outro. Diziam ia ser mais alto, ao lado do Banco de Angola. “Agora é que o Wang Yu não apanha o Bruce Lee. Vai ser cada salto para cima do BPA, que nem a ‘garra de ferro’ lhe safa!”.
Luanda ia crescendo a olhos vivos. Eram os colonos que chegavam aos magotes, iludidos por uma garantia de vida que lhes parecia prometida pelo envio desmesurado de “maçaricos”, militares caloiros. Quem desconhece fica a saber que “maçarico” é uma ave magricela, que percorre as praias, enseadas e mangais, à procura de pequenos caranguejos, peixinhos e bivalves para matar a fome. “Maçarico” não é um “tirlico, embora também goze da mesma protecção da Kianda. Mais que os flamingos, os “maçaricos" têm um terrível cheiro e sabor a peixe; uma dizumba e um paladar que ficam na carne, por mais alho, louro e suco de limão que se lhes dê.
Ouvi que o povo lhes chamava “maçaricos” por isso mesmo, porque a boca deles cheirava muito a alho e outros temperos. Mas há quem diga que o nome foi-lhes dado pelos comandos; há quem diga que quem assim lhes chamou foram os sargentos “chicos” de tão fartos de limpar a porcaria que faziam.  A maioria dos “maçaricos” vinha para Angola ainda com os “três no sítio”, que perdia assim que chegava aos portos de Luanda, do Lobito ou de Moçâmedes”, no bairro Operário ou no Liro. Outros perdiam a virgindade em mulheres de idade difusa, desdentadas pela cárie, sífilis ou outros males; ou se contentavam em dar prazer a si mesmos. Dizem as estatísticas - que valem o que valem – que em Angola morreram mais militares em desastres que em acções de combate.
Por estes dias, dizíamos nós, os carrinhos de picolés mudaram de keta para se anunciarem. A que está a bater é a daquele filme, sobre o navio grande de passageiros que afundou. O “Titanic”. Quem viu? “Eu vi! Passou na parabólica da minha casa”!
A música dos carrinhos de picolés é a mais recente ameaça ao pregão da Avó Ximinha, que além dos panos de cores berrantes, perdeu as marcas na areia que os seus pés cansados deixavam para trás, tudo levado pelos fardos da globalização. Há dias, da antiga Terra Nova, chegou-me uma encomenda: era um saco de gelados de múcua. São feitos pela Tia Palmira e têm mesmo outro sabor. Um sabor antigo, um sabor conseguido por quem sabe o verdadeiro valor do embondeiro.

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