Opinião

Das letras às cartas

Manuel Rui

O ser humano passou a ser outro quando inventou desenhos que simbolizavam sons e com esses símbolos começou a escrever as palavras sem as falar. Eu comecei a ler e escrever aprendendo pela fala de minha mãe o a-e-i-o-u. Hoje já existem manuais em que a pessoa pode aprender a ler e escrever sozinha. Mesmo assim ainda temos analfabetos e lá vai a utopia em que cada um de nós que soubesse ler devia ensinar a uns dois ou três.

Qual quê! Nem com as escolas que não escaparam à república sem bananas que parece vai renascer de uma falência que esconde uma insolvência fraudulenta mas isso já lá vai, aqui não há dolo, só há erros mas adiante. Por gosto aprendi rápido e entrei para a escola já a saber ler e escrever. E começaram os encantamentos da palavra. Da palavra carta como uma viagem. Meu pai ou minha mãe escreviam uma carta, metiam dentro do envelope, colavam o selo e eu ia ao correio entregar a uma senhora nossa amiga, a mãe do falecido general Piricas (Pires). E a carta lá ficava e depois ia para Benguela no comboio. Se uma família estava de luto, no lado esquerdo do envelope desenhava-se uma faixa a tinta preta. Também havia envelopes à venda já com a faixa impressa. Aliás, o luto podia-se usar na manga esquerda da camisa, na banda esquerda do casaco e as senhoras vestiam-se todas de preto. As cartas, entre família e amigos, começavam quase sempre assim… Queridos primos: desejo que se encontrem bem junto dos seus que nós por cá vamos indo com a graça de Deus. Essas cartas, quem não sabia ler pedia a quem soubesse e eu escrevi muitas para Portugal a pedido de uma nossa vizinha portuguesa, analfabeta que geria uma pequena loja e o marido também analfabeto era pedreiro nas Obras Públicas. Em paga, era lá nos confins da Calomanda, eu e meu irmão mais velho, aos domingos, podíamos ouvir o relato de futebol de Portugal com muitos ruídos no rádio a bateria que, não me esquece, tinha em cima um naperon feito por minha mãe.
Eu estava a falar de cartas e as da tal vizinha, que ela ditava por vezes chorando, contavam a vida dela e do marido, do dinheiro que já tinham junto, iam acabar de construir aquela casa ainda por rebocar mas queixava-se do marido que a espancava, a filha mais velha continuava enfeitiçada, maluca, a mais nova e o irmão do meio quando soubessem ler escreveriam cartas. Pedia-me segredo sobre as agressões do marido. No fim eu relia rápido queridos pais… e uma vez perguntei-lhe, por serem tantos os queixumes, se queria omitir o estamos bem graças a Deus mas ela disse para deixar ficar. Escrevi muitas cartas para muitas pessoas. Depois, no colégio, era o tempo das cartas de amor que se mandavam entregar à moça pretendida, por um intermediário, normalmente um mau aluno a quem fazia os deveres que agora chamam trabalhos de casa. A minha primeira carta de amor saiu-me cara. A menina mostrou ao professor e director que me mandou chamar e à frente de toda a turma deu-me cinco palmatoadas em cada mão. Disseram-me os colegas que ele havia batido devagar, quase sem força, era verdade porque eu não sentira nada. E havia quem tivesse um livro de cartas de amor. Eu, mais tarde, comecei a aprender a escrever à máquina. Haviam fechado a livraria de meu pai, a primeira de Nova-Lisboa, a “Livraria Brasileira,” centro onde se reuniam os que eram contra Salazar. Meu pai virou uma espécie de solicitador, requerimentista, resolvia pequenos problemas de comerciantes e tratava dos bilhetes de identidade e outros assuntos dos alunos internos do colégio, normalmente, filhos de fazendeiros ricos e que vinham do mato para estudar na cidade. Devorava os livros que haviam sido retirados da livraria aos poucos e às escondidas do cabo Borges, o único polícia em funções na cidade. Além dos livros, as revistas brasileiras e os livrinhos com texto e desenhos, “mosquitos.”
Passei a ter um convívio de proximidade e leitura com os livros. Lembro-me de um livro anticlerical, A Velhice do Padre Eterno do português Guerra Junqueiro de que meu pai gostava de recitar os versos do “Melro.”
Mas de cartas, lembro-me de no meu quinto ano ter escrito um soneto de amor para uma colega minha loira e filha do dono do Hotel Coelho (vejam só o abuso). O resto não conto porque não posso confirmar mas o já falecido escritor Ndunduma, escreveu num dos seus últimos livros que terá encontrado a Dulce em Portugal, o pai apanhou-lhe o poema e despachou-a logo para continuar os estudos em Portugal, será?
Nunca mais escrevi cartas de amor mas só poemas, muitos ainda nas gavetas. É bom escrever cartas de amor e os políticos deviam passar por uma prova prévia: escrever uma carta de amor à nossa terra. E quem não a fizesse bem (sem corromper o examinador) não poderia exercer funções por desamor ao amor.

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