Opinião

De Angola ao Zimbabwe

José Luís Mendonça |

Mais do que uma invasão de gafanhotos sobre uma plantação de milho, o fenómeno golpe de Estado em África representa uma verdadeira praga  que nos persegue desde 1966, ano da reviravolta anti-constitucional no Gana de Nkwame Nkrumah.

E ainda estão frescas nas nossas memórias as golpadas que mancharam as páginas da História do Continente Berço. De 1960 a 1990, foram mais de 267 golpes e tentativas de golpes.
Embora a Nigéria seja considerado o país recordista das mudanças pela força das armas, ninguém esquece a Líbia, o Uganda, as Seychelles, a RCA, que até bem pouco tempo enfrentava problemas que exigiram a intervenção mediadora de Angola, a Mauritânia, o Sudão, o Burundi, a Gâmbia, as Comores, a Serra Leoa, o ex-Zaíre de Mobutu, o Congo Brazzaville, o Níger e, no seio dos PALOP, um país tão pequeno como São Tomé e Príncipe e a Guiné-Bissau.
O nosso país, Angola, também conheceu essa praga, em 1977, na forma de tentativa. E as medidas que se seguiram, a meu ver, exageradas nos 10 anos de recolher obrigatório, foram a antecâmara da autocracia que durou até Setembro de 2017, e que dissuadiu qualquer outra tentativa de alteração armada da ordem político-constitucional.
Mas, verdade seja dita, o perigo da sucessão dos golpes de Estado em África só se extinguirá quando  os poderes estabelecidos conseguirem produzir uma forte diferença governativa em comparação com o regime colonial. Só essa diferença entre a independência e o colonialismo – conjugada com a real implantação do Estado Democrático de Direito, assente na separação dos três poderes – será capaz de garantir o bem-estar dos povos do Continente, a melhor força dissuasora da revolta popular.
No quadro da História da África Austral, o surgimento atribulado da República de Angola serviu de teste experimental para as independências da então Rodésia e do Sudoeste Africano. As forças dominantes do imperialismo colonial organizaram eleições e armas para uma transição pacífica nos territórios que hoje são o Zimbabwe e a Namíbia. É claro que estavam, acima de outros, a salvaguardar os interesses dos euro-descendentes que, aí, não eram os filhos de um país pobre à beira-mar plantado, que alguém, lá no Restelo, havia mandado “atirar aos tubarões”.
O segundo módulo exemplar que Angola exporta actualmente é a alternância presidencial. Na VII Cimeira Ordinária de Chefes de Estado e de Governo sobre a Região dos Grandes Lagos, em 19 de Outubro, em Brazzaville, notou-se um certo desconforto no olhar de alguns participantes que estão há que tempos no poder e não pensam sequer sair, perante a novidade representada pelo Chefe de Estado angolano, João Lourenço.
Mas estamos a falar de Angola e do Zimbabwe. Este país parece ter ganho coragem, face ao exemplo que vem daqui, para dizer ao caduco e senil Mugabe que já é tempo de fazer as malas e ir para a reforma.
O método empregue, como é óbvio, é altamente condenável. Assim o disse a União Africana e a ONU e é verdade que ninguém, muito menos este escriba, aplaude a estratégia do golpe de Estado. Porque há sempre vítimas inocentes, quando os militares saem à rua com tanques e canhões e há o risco de o golpe redundar num regime que ninguém estava à espera.
Contudo, se levarmos em devida consideração o 25 de Abril de 1974, a revolução dos cravos, em Portugal, é lícito afirmar que há males que vêm por bem. Em termos comparativos…

PONTO FINAL: Uma coluna de opinião num jornal é como uma pessoa: nasce, cresce, reproduz-se em ideias e se extingue. Depois de meia dúzia de anos, este Diário de Bordo passou em revista opinativa Angola e o Mundo. O barco chegou ao porto, o cronista sai agora com o hálito da tinta dos escritos na ponta dos dedos, inspirado a criar outra coluna dedicada a um dos problemas mais acutilantes da nossa sociedade: a língua veicular e, por afinidade, a Educação e a Cultura.            

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