Opinião

Desemprego, diferenças, dramas

Arlindo dos Santos

Fico angustiado ao ver um cidadão sem emprego, e observo com bastante mágoa as tremendas lutas que se travam na demanda de trabalho e manutenção de um salário regular.

Realmente, quem passa por situação de desemprego, tem de enfrentar desafios para os quais, e na actual conjuntura, é difícil encontrar resposta. A desculpa para tal dificuldade é a estafada alusão à crise. É a escapatória encontrada, até por responsáveis pelo actual estado de coisas que vivemos! Tenta-se esconder a realidade, refugiando-se no decréscimo dos resultados da exploração do petróleo, no nulo registo da diversificação da economia, na falência de empresas de vários ramos, na desvalorização da moeda, no baixo poder de compra da população e assuntos correlativos. Tudo serve de argumento para justificar a tal crise. Depois, vai-se provando, com quadros e números que fazem estatísticas, como acontece a famigerada falta de emprego em Angola.
Não tendo vivido a experiência, penso, no entanto, que para quem é atirado para uma situação de “kunanga”, o importante é não desistir. Claro que se torna fácil dizer isto! Os cânones afirmam que a resistência e as cautelas para a enfrentar, devem aprontar-se ainda antes dela começar a desenhar-se. E recomendam que se deve ter consciência de que, num cenário complexo, é necessário desenvolverem-se capacidades para ultrapassar momentos difíceis. Claro que isto é conversa de estudioso mas, na verdade, nada do que acontece neste domínio, é inesperado ou invulgar. Coisas idênticas acontecem em muitas partes do mundo, e nas mais variadas épocas. Nem mesmo o comportamento do povo perante estes casos, tem algo de excepcional, sabendo-se também que o quociente de inteligência (qi) das pessoas desempregadas tem efeito sobre os episódios que se registam. Destacam-se, particularmente, o sucesso académico e o desempenho profissional. São factores que influenciam os comportamentos individuais ou de grupo dos que buscam emprego. Do outro lado, o do empregador, no nosso caso personificado em grande medida pelo próprio Estado, o maior patrão do país, tem peso significativo o facto do mesmo ser posto em causa, pela falta de um pensamento crítico e da (in) capacidade de tomar decisões sensatas, enquanto entidade patronal. Esta parte é mais complicada, razão por que não me aventuro em aprofundar a questão, é caso reservado para os peritos. Viro-me, assim, para as hostes dos “sem emprego” em geral, e para os seus dramas em particular. Admitindo que existam entre as multidões carentes pessoas capacitadas – se tomarmos o sucesso académico como medida – questiono onde poderão ser encaixados os milhares de jovens a sonhar com trabalho, quando, verdadeiramente, se mostram tão sem aptidões e nenhuma experiência? Onde e em que sectores, mesmo com as competências exigidas, se colocaria a enormidade de gente carente de emprego? É mais que certo que haverão poucos, muito poucos, os que aceitariam trabalho de campo, por exemplo na agricultura (pobre coitada, parente afastada dos orçamentos), nos grandes empreendimentos agrícolas, pecuários e florestais no interior do país, para falar apenas dessa área de trabalho pouco convidativo para gente da cidade. Mas, a triste verdade é que, por razões sobejamente conhecidas, essa gente necessitada foi afastada dos normais métodos de aprendizagem em que predominam o estudar, conversar, perguntar, repetir, numerar, reproduzir, definir, debater, enfim, aprender para conhecer o caminho que leva pessoas ambiciosas a outros rumos e a mais justos sonhos. Será a função pública a saída? Claro que não é. Toda esta argumentação poderá não servir de resposta para nada, mas poderá, todavia, querer dizer alguma coisa!
Pode não fazer nenhum sentido envolver nesta análise e de um modo, talvez imprudente, a agricultura, quiçá outros sectores, como igualmente é discutível abordar este tema sem que se faça referência, primeiro, ao débil mercado de trabalho angolano (que caminhos trilham a indústria, o comércio, os transportes, a construção, etc? Porquê tanto impedimento na criação de pequenas e médias empresas e concessão de créditos bancários, apesar da propaganda que circula?), depois, às manifestações que se organizam pelo país fora, com vozes desesperadas a clamar por trabalho, como aconteceu na mal organizada “feira do emprego” que, há dias, teve lugar em Luanda, um evento de funestas consequências, como se sabe. Esses factos, bem ou mal contados, vêm contribuindo para se estabelecerem muitas confusões nas nossas cabeças cansadas, obrigando-nos a todos, a termos desta importante questão social, uma visão pouco menos que preocupante, nalguns casos até, aterradora.
Embora olhado por um outro prisma, não posso deixar de incluir neste “pacote” de casos difíceis relacionados com a nossa enferma economia, outras variantes da problemática trabalho/emprego. É assim que dou alguma atenção ao fenómeno das exonerações que, igualmente, deixa gente nossa exposta ao desemprego. O aplaudido processo de dispensas do aparelho governativo iniciado há dois anos, é um tema que deve merecer a nossa reflexão. Não movimentando multidões, mas com fortes ligações ao conceito de boa governação idealizado pelo Executivo do presidente João Lourenço, o assunto tem tido um enorme impacto entre a população angolana. Deu-se vida a um convívio próximo de um ritual – atrevo-me a apelidá-lo – em que, por vezes, se transformou esse acto de exonerar titulares de certos cargos governativos e da administração pública, para, quantas vezes sem se entenderem razões, se nomearem os mesmos cidadãos para idênticas ou novas funções, num explícito convite para a chamada “dança das cadeiras”, que o povo condena veementemente. Os poucos que, entretanto, ficam no desemprego, viram “kunangas”. Desses não há que ter pena, diz-se, por supostamente se terem aproveitado do bom tempo que por lá andaram! Enfim, queiram ou não, é mais uma questão de trabalho, tal como as outras antes mencionadas! Recordando apenas, foi e tem sido de tal modo frequente o registo desses acontecimentos que, alguns actos e passe o exagero da comparação, em casos específicos, mais pareceram processos de transumância, qualquer coisa como o deslocamento sazonal de rebanhos para locais que oferecem melhores resultados de exploração e outras condições de vida de animais, ao transportarem-se da planície para as montanhas, e vice-versa.
Transporto para aqui o tema, tocando neste aspecto da questão geral, que também tem a ver com a essência do tema em análise. Trata-se da evidente falta de cuidado nas escolhas feitas pelo maior empregador do país, de indivíduos com capacidades sofríveis para exercer certos cargos no aparelho do Estado. Assiste-me o direito de pensar que o drama que se vive hoje com o desemprego, se pode dever, em certa medida, a alguma dessa gente admitida sem critério! Existe uma outra face da moeda, traduzida pela facilidade com que, ontem como hoje, se aceita ser responsável disto e daquilo, sem se estar preparado para tal. E é lamentável que, quer na manutenção de cargos, quer no processo de admissões, não se consiga fugir dos eternos esquemas, da desprezível máquina das escolhas que junta automaticamente parentes, compadres e conterrâneos, neste último caso em históricas “cunhas” promovidas pelo regionalismo, de tão desastrosos resultados. Não admira, por tudo isto, que as oportunidades de emprego de “qualidade” num passado recente, fossem aceites e agarrados levianamente, sem quaisquer preocupações quanto a competências dos sorteados. Resta-nos agora, compreender o desespero, a angústia, os verdadeiros “óbitos” que se fazem em família, quando determinado cidadão convencido da eternidade do seu estatuto, se vê, de repente, numa situação de desemprego! Ao drama da perda do “tacho”, junta-se um conjunto de muitas benesses idas, inúmeras garantias de boa vida terminadas. É, pois, caros leitores, todo este conjunto de pequenos dramas, que devem também ser pensados pela sociedade. Julgo mesmo que, em vez de nos perdermos a ouvir lições de cátedra de cidadãos que poderiam, com o seu saber, ter contribuído, e muito, para evitar o descalabro a que assistimos, se deveriam promover outros actos que nos façam sentir novas energias, e capacidade para outras escolhas e atitudes. E que, com a ajuda desses ou de outros mestres, chamados à razão para o patriotismo quantas vezes esquecido, e para as responsabilidades que ainda lhes cabem, se dê corpo a procedimentos que conduzam à rápida retoma da economia nacional!

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