Opinião

Desvendar o paradoxo de Enrico Fermi

Viriato Soromenho - Marques | *

Que relação pode existir entre Donald Trump e Enrico Fermi (1901-1954), prémio Nobel da Física de 1938 e um dos maiores génios de sempre? Talvez Trump nos ajude a desvendar uma pergunta formulada por Fermi, que passou a ser designada entre os físicos como o “paradoxo de Fermi.”

 De acordo com os relatos, em 1950, Enrico Fermi estaria num restaurante do Laboratório de Los Alamos, na fila para o almoço, numa conversa descontraída com outros cientistas célebres, entre os quais Edward Teller, tendo colocado, de modo interrogativo (Afinal onde estão eles?), a hipótese de não existência de vida extraterrestre suficientemente inteligente para produzir uma tecnologia capaz de conduzir à exploração do espaço exterior.
Em 1950, a imprensa pululava com relatos fantasiosos de avistamentos de OVNI. Para Fermi, o paradoxo residiria no contraste entre a quase infinita probabilidade dessa existência de vida tecnologicamente exuberante, dada a imensa escala do universo, e a nulidade de provas empíricas da sua realidade. Fermi não deu grande importância a esta conversa, mas o seu impacto foi imenso. Carl Sagan e outros físicos defendiam a tese de que seria preciso refinar a procura por sinais de vida inteligente. Nesse sentido, a NASA criou o programa de pesquisa SETI, descontinuado em 1993, mas que ainda sobrevive de modo algo fragmentar e com financiamento de mecenato.
Antes de Fermi, em obras de autores como Karl Polanyi (1947) e Bertrand Russell (1949), a hipótese de uma civilização técnica, altamente complexa, poder autodestruir-se já tinha sido colocada. Mais recentemente, Michio Kaku (n. 1947) formulou a possibilidade de no próximo século a humanidade estar confrontada perante a encruzilhada entre ascender a uma civilização de tipo 1 (planetária) ou de auto-aniquilar-se. Kaku imagina civilizações ainda mais intensas, como as de tipo 2 (estelares) ou de tipo 3 (galácticas). Contudo, apenas encontra exemplos disso na ficção científica, em filmes como A Guerra das Estrelas ou O Império Contra-Ataca... Todavia, a civilização humana ainda é de tipo zero. Ainda estamos dominados pelos particularismos, pelos tribalismos, pelo império das paixões sombrias e fracturantes ofuscando a frágil luminosidade integradora da razão.
Trump talvez represente a trágica contradição entre o primitivismo da nossa engenharia política e a complexa desmesura da nossa tecnologia tão impactante na Terra. Para ascender à civilização planetária, a Humanidade teria de ser governada de modo cosmopolita e não de forma tribal. Perante desafios, tremendamente existenciais como a destruição do ambiente e do clima, e os riscos de descontrolo da trajectória tecnológica (nuclear, inteligência artificial, nanotecnologias, etc.), os tribalistas acabarão, provavelmente, por partir a loiça, como é seu costume. O futuro da Humanidade na Terra dirá se somos suficientemente inteligentes não só para produzir alta tecnologia, mas também para lhe sobrevivermos. A resposta dependerá do renascimento desse bem escasso que designamos como sabedoria política.
* Professor universitário. Colunista do jornal Diário de Notícias

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