Opinião

Detestar o dinheiro

José de Mátis

Um colega de ofício postou na sua página no facebook imagens, pouco simpáticas, da cabine de imprensa do Estádio de Ombaka, em Benguela. Confesso que não gostei de ver o cenário, sendo que expressa apenas a irresponsabilidade do homem angolano de lidar com o bem público.

O caso do Ombaka acaba por ser mínimo, se comparado ao dos outros estádios construídos há menos de uma década para receber o CAN'2010. Os de Cabinda e Huíla estão em pior estado. Aquilo é uma lástima, diga-se de passagem, sendo por aí que se torna inevitável perguntar até onde vai a nossa sensibilidade.
Se é verdade que a construção dos mesmos recintos custou avultadas somas de dólares aos cofres do Estado, alguém, com alguma responsabilidade no sector, devia parar e reflectir sobre aquilo que está a ser a nossa actuação na perspectiva de corrigir uma imagem que cai mal aos olhos de todos. O capital aplicado não custou nada aos contribuintes?
Aqui fica subentendido que o CAN'2010 não passou de uma operação de charme das autoridades da época, que pretenderam mostrar aos olhos do mundo que, apesar de Angola ser um país que se erguia dos escombros da guerra estava capaz daquilo que os outros países, sem guerra, “desconseguiam”. O certo é que não “desconseguiam”, podiam, só que no âmbito da definição de politicas de investimento não constituía prioridade.
Lembro-me ter estado numa conferência de imprensa, em Accra, à margem do CAN'2008, em que os dirigentes da FAF trataram de fazer a apresentação da edição seguinte. Os jornalistas presentes não tiveram contemplações nas questões. Uma repórter quis saber se acabando Angola de sair de uma longa guerra, e com os problemas que vivia e que eram de domínio da Comunidade Internacional, não estaria a se apressar demasiado na organização de um CAN. A repórter falou mesmo em mortes que ocorriam em Angola por falta de fármacos em algumas unidades hospitalares. Notei o embaraço causado, tendo inclusive a conferência encerrada com esta questão.
Hoje, perante a tonalidade das cores com que se pinta o quadro, política à parte, podemos concluir que o CAN não valeu nada ao país. Competitivamente não o ganhámos e nem as infra-estruras construídas em função da sua realização se soube dar proveito. Felizes foram aqueles que engordaram os bolsos.

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