Opinião

Devaneios neo-coloniais enrolados em frio e neve

Luciano Rocha

O sol, como tantas vezes sucede em Dezembro, nascera raivoso - se por ter acordado tarde ou cansado da capanga das nuvens cinzentas ninguém sabe -, mas logo-logo começou a castigar-nos a todos.


O céu ficou então azul e o calor a colar a roupa aos corpos ainda mal restabelecidos do Pequeno-Cacimbo. O homem - fato escuro, justíssimo, como manda a moda, botão do casaco quase a saltar a enfeitar-lhe a barriga empinada, gravata de grosso nó a capangar-lhe,  suor a escorrer-lhe pelo corpo em destilação natural - parou. Não em sombra das árvores que já não há, mas para olhar a multidão anónima que indiferente passava por ele. Discretamente, passou a perna esquerda por trás da direita. Com a ponta do pé encostado ao calcanhar do lado contrário tirou o sapato de biqueira fina virada para cima. Deixou escapar suspiro de alívio.
O homem continuava a encharcado em suor, mas, percebia, sentia-se melhor. E foi com os sapatos em jeito de chinelos que começou a andar até entrar no bar onde amigo, presumo, o esperava.
O homem, que continuava a escorrer suor, manteve o casaco escuro vestido, o nó largo da gravata e o botão de cima da camisa apertados. Apenas os sapatos feitos chinelos lhe davam algum conforto. Não eram eles, todavia, a causa maior do semblante de sofrimento. O que o afligia mesmo era o dinheiro que lhe faltava para concretizar tantos sonhos prometidos à família. O que recebera, uma semana antes, referente ao décimo terceiro mês já estoirara. Em generosas doses de cervejas e vinhos portugueses, é verdade, mas, acima de tudo, nos quatro bacalhaus, dois presuntos, outros tantos sacos de bata rena, não sei quantas - nem ele ! - garrafas de azeite.
O homem continuava a escorrer suor e a desfiar as missangas do colar de desejos. Ainda faltavam as caixas de tinto, espumantes, uísques, conhaques, pacotes “daquelas frutas secas com açúcar agarrado”, bolo-rei seis perus, três leitões!
O amigo, riso travado na boca, ,perguntou-lhe “ e o resto?”. Aí, o enfatuado deixou sair a raiva escondida e falou uma asneira antes de confessar que a maka, mesmo, era essa. Não sabia como ia comprar “a Árvore de Natal, bolas e lâmpadas de  muitas cores” para a enfeitar. Junto com “as latas de espuma branca parece é neve”.
O amigo, o riso sempre amarrado na boca, prosseguiu a provocação e perguntou se os aparelhos de ar condicionado estavam prontos. Que sim, “desmontados na casa toda e instalados no quintal coberto com lona” E que “fazem mesmo frio”.
Quanto à máquina de fazer “gelo  de pendurar nas paredes e tecto para “ser mesmo Natal”, confessou, a mulher aceitara ficar para o próximo ano. Mas,” a árvore, bolas e lâmpadas de muitas cores têm de ser já, meu pai me habituou e eu habituei os mesmos filhos, não posso falhar, é sagrado”.
O amigo não desistia e falou-lhe das lojas do mussungo (crédito). Na cara do homem de fato preto, botão do colarinho e nó largo da gravata apertados vislumbrei sorriso de saudade, quando disse: “isso era no tempo do colono”.
O homem de fato preto, vim a saber, que vive agora em vivenda de bairro asfaltado, foi nado e criado no Sambizanga, filho de honesto operário.
Eu que nem no Cuito, onde nasci, nem em Luanda, onde me fiz homem, vi uma árvore de Natal em casa, tal como nas dos meus vizinhos, que sequer alguma vez vi neve, dei comigo, uma vez mais, a meditar na sociedade que estamos a construir. E o que podemos - devemos - fazer para não haver mais  homens de fatos escuros, botões do colarinho e gravatas de laços grossos a sufocá-los, a desfazerem-se em suor. Mesmo em tempo de Pequeno-Cacimbo. E a sonharem vidas que não nos dizem nada.

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