Opinião

Dias de cão

Arlindo dos Santos

Há dias que não se pode sair de casa, há mesmo dias para esquecer. É comum ouvirem-se estas expressões de lamento, quando os dias não correm de feição.

Mas, a verdade é que há dias assim. Rotineiramente, desço nas calmas e com a melhor das intenções, aqueles difíceis setenta e cinco degraus que me conduzem do apartamento à rua. Os tais de que já tive ensejo de falar um dia destes, nesta coluna. Venho tentando dar resposta, de uma maneira prática e consciente, às adversidades da vida, que não são poucas, revestindo o meu espírito daquela couraça resistente, feita de um material que ainda não tem patente, e que me ajuda a enfrentar o desalmado quotidiano que vivemos.
“Bom dia, vizinho, como está, passou bem?”, fico felicíssimo quando um, da meia dúzia de vizinhos que me cumprimentam – não devem ser mais - , me saúda desta forma efusiva e bem educada. É sinal de um bom dia, de que tudo vai correr bem. E correr bem, é no mínimo, realizar tarefas idealizadas na véspera, sem conflitos ou aborrecimentos com quem quer que seja. Ao contrário, começo mal o dia quando cumprimento aquele rapaz sentado, a mostrar sinais de sono ou cansaço(deve ser recepcionista, guarda ou segurança), e lhe digo cordialmente, bom dia. Ele, por desconhecimento, por força da tradição ou por outra razão qualquer, provavelmente por culpa que não lhe cabe, com a maior naturalidade, em vez de retribuir o bom dia, diz simplesmente, sim. Por vezes oiço um obrigado. É quase sempre um mau sinal para o meu dia!
Desde a primeira vez, desagradou-me esse cumprimento. Tentei dizer ao jovem que essa não é maneira correcta de cumprimentar. Pensei repreendê-lo, porque os mais velhos, quando julgam que têm razão, devem repreender os jovens. Recuei na intenção ao lembrar-me de uma sessão no Parlamento do meu tempo, em que certo deputado chamou a atenção de alguém para o pronunciamento errado da frase “cinquenta por centos”, e o camarada ao ser corrigido, ripostou nervoso e arrogante, “para mim é por centos e vai continuar a ser por centos”. Não valia a pena! Talvez o jovem reagisse do mesmo modo do parlamentar. O moço poderia até zangar-se e ter razão e entendi que nesta altura da minha vida, não quero arranjar problema com quem quer que seja. Mas não deixo de lamentar que sejamos tão rígidos na não aceitação dos erros que cometemos! Para ensombrar o cenário, o rapaz não é simpático. Tem cara de trabalhador sem direito a refeitório. Nestas circunstâncias, achei por bem munir-me da paciência que ainda tenho em stock, e lá vou ouvindo o sim do rapaz, sempre que lhe diga bom dia.
O pior é que sempre que a cena acontece, o dia não me corre bem. Nada difícil de acontecer, nesta Luanda dos nossos amores e dissabores. Num dia desses em que o rapaz me disse sim, o azar, ou melhor, as coisas menos boas, começaram na máquina do multibanco. O tal de ATM, recusava-se a dar o saldo da minha conta no BPC. Tentei e, nada! Desconsegui, fiquei sem saber se tinha, ou não, dinheiro na minha conta. As magras notas do meu salário de reformado, não saíam da máquina. Porquê? Enervado, logo àquela hora, disparei, “mas que raio de Banco é o BPC, que presta tão mau serviço ao público?”. Lá mais para a tardinha, veio o episódio na passadeira de peões. Nesta cidade, os carros teimam em não parar, para o peão passar. Apanhei um arrepio valente quando um energúmeno quase me engomou as pernas. Ainda tremia, ao enviar-lhe um atado de disparates que tenho sempre prontos a meio da garganta. Mais bravo fiquei ao reparar que o agente de trânsito que até tinha apito na boca e estava ali a dois passos, não estava nem aí! Depois do susto, lá fomos, eu e a Ana Paula, caminhando, cantando e rindo, por aquele passeio ainda sem buracos e, com a energia possível, chegámos às imediações do antigo Jumbo, puxando pelo físico para atingirmos a elegância que pretendemos. Entretanto, a meio do caminho, precisamente em frente a um espaço onde estão montados carrocéis do século passado e uns carros de feiras que parecem fora de moda, com umas aparelhagens de som a tocar música altíssima e de grande ritmo, porque aí ninguém nos bate, está uma paragem de autocarros onde a afluência de gente é enorme. Principalmente de jovens estudantes que, com a sua linguagem solta, liberta em algazarra, mas absolutamente descontrolada, desbobinam um conjunto de obscenidades, desenvolvidas sem qualquer ponta de pudor. Desconheço se estão sozinhos nessa onda e pergunto-me como ficam os pais e os professores nessa cena. Não haverá o beneplácito do sistema escolar existente? Já nada me admira. A miudagem utiliza vocábulos do mais alto calibre de baixeza, pouco consentâneos com pessoas que frequentam escolas. Fiz uma anotação mental das mais fortes expressões e calinadas ouvidas e fico envergonhado quando me recordo de algumas delas.
Se não bastasse isso, em pleno passeio, onde todos circulavam, um grupo de jovens sem ocupação aparente, resolveu montar uma banca de jogo, uma espécie de monopólio, com um pedaço de papelão de razoável dimensão, onde estavam inscritos números e caracteres, com uma espécie de fichas, suponho que destinadas a apostas para valerem dinheiro. Se a mesa do suposto jogo não fosse montada no chão, precisamente por onde circulam as pessoas, talvez passasse despercebida. Cercada por meia dúzia de matulões de aspecto preguiçoso, a mesa manteve-se no mesmo sítio porque a rapaziada não se afastou um milímetro sequer, para quem anda, poder passar. E quando convidados a ir para outro sítio que não atrapalhasse o pacato transeunte, olharam com soberba e desdém, e não ligaram patavina ao que lhes foi dito.
Confesso, caros leitores, é este um dos grandes martírios da minha actual vida social. É não saber o que me vai acontecer quando saio à rua, e como me devo comportar. O bom senso aconselha-me a não pensar nos gangs das motorizadas nem nas aparentes dificuldades que existem para se desmontar a rede de malandros que se encontram por detrás dos balcões dos bancos comerciais. Porém, na mente de um pobre e velho cidadão como eu, germina também a seguinte pergunta, “porque não se procura saber como e porque são admitidos nos bancos, se o nível de vida e ostentação dessa gente é compatível com os seus salários?”. Será assim tão difícil? Claro que não me vou meter nessa maka, embora tenha a ver com a minha segurança e com a da população em geral, mas uma coisa eu vos posso garantir. Quando descer a escadaria e encontrar o rapaz sentado; se ele me disser sim em vez de bom dia, vou pensar duas vezes se saio ou não saio de casa. Por último, uma inevitável pergunta à nossa comunicação social, particularmente à televisão: não haverá, a partir destes e de factos semelhantes, matéria à brava para trabalho de utilidade pública, de orientação, de correcção, enfim, de educação, que possa ser posta, diariamente, ao serviço da população? Não me parece que sejam necessários muitos meios para a execução desta tarefa importante, urgente e patriótica.

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