Opinião

Digital e Mobile, futuro ou o presente?

Adebayo Vunge

Se os novos tempos estavam já marcados pela aceleração do uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC) em todas as esferas do conhecimento, do mercado e da sociedade, a Covid-19 veio confirmar a sua incontornável afirmação.

Os GAFA (Google, Amazon, Facebook e Apple) há muito que suplantaram o peso de outras indústrias e se tornaram as maiores empresas do mundo pela sua valorização bolsista. Para confirmar esta tendência actual da afirmação das TIC na economia, está aí o estrondoso sucesso de aplicações como o Zoom, Skype, Alibaba, Netflix, Uber e milhares de outras que geram muitos milhões.
A indústria das TIC já não é o futuro. É o presente e está a sofrer uma veloz mutação e a cada dia que passa surgem ferramentas novas que vêm desafiar evidências de ontem e facilitar a vida dos homens em várias dimensões. Um dos campos onde isso se torna patente é, por exemplo, na medicina, ensino e comércio.
Assim, numa altura em que os números da Covid-19 não param de crescer, especialmente em países cujas lideranças tiveram uma atitude errática face ao problema, particularmente os Estados Unidos da América (EUA), Inglaterra e o Brasil, a esperança de toda a humanidade, ou pergunta que deixou de valer milhões e passou a valer biliões, é: e para quando uma vacina?
A cura, esta levará seguramente mais tempo. Então, a vacina é a possibilidade do regresso a uma relativa normalidade, mas para quando? As grandes empresas de biotecnologia do mundo, os gigantes farmacêuticos fortemente apoiados pelos respectivos governos e bilionários mecenas, estão numa corrida em contra-relógio e ganha quem cortar a meta em primeiro lugar, porque também aqui há uma dura competição entre os Estados Unidos e a China, com o Reino Unido, a Alemanha, a França, Israel ou a Rússia igualmente na disputa.
Numa perspectiva mais optimista, há quem garanta que até ao final deste ano haja uma vacina para uso emergencial, mais prudente, a comunidade científica considera que não será possível antes do próximo ano, isto é, considera que uma vacina testada de forma segura e eficaz só nos primeiros meses do próximo ano, e depois temos ainda a produção massiva e a distribuição à escala global. É ainda um longo caminho.
Ora, os avanços da tecnologia na medicina não se confinam obviamente à pesquisa para a Covid-19. A chamada telemedicina é hoje uma solução que favorece não apenas os países que registam estes avanços, mas, principalmente, aqueles países onde se notam maiores fragilidades nos respectivos sistemas de saúde, pois vem democratizar o acesso aos serviços, em aspectos como o diagnóstico e o tratamento, para além dos programas de capacitação e superação do próprio pessoal de saúde.
As aplicações de saúde e bem-estar estão a fazer um enorme sucesso em todo o mundo. Aproveito para destacar, entre nós, a Appy-saúde. Também os players do sector privado, com destaque para as clínicas, despertaram para o fenómeno, sendo certo que o Estado, que iniciou um programa neste sentido, deveria massificá-lo em nome da medicina preventiva, em especial junto das comunidades, melhorando a cobertura da assistência à mulher grávida e às camadas vulneráveis como crianças e velhos, permitindo-nos reduzir drasticamente indicadores ainda vergonhosos como a mortalidade materno-infantil.
Mas não fugindo a tónica do que vemos agora, a tecnologia e a transformação digital estão a impor-nos um novo normal também ao nível da Educação.
Há dias, num post que fiz no Facebook escrevi: “já que temos mesmo de pagar as instituições do ensino particular (colégios e universidades) não será melhor também exigirmos serviços mínimos de ensino com algumas aulas on-line? E que tal uma solução de crédito ao consumo que estimule a compra de computadores, com pagamentos a prestações para quem não tem?!”
Se a solução da TPA2 e RNA é uma alternativa, mais interessante será darmos o salto tecnológico. Já não se trata apenas do ensino de IT, mas agora é o uso de IT no ensino. A geração Z, como lhe chamam os sociólogos, está, mais do que as demais, preparada para esta transformação do digital e do mobile. Precisamos apenas dar-lhes acesso e onde houver dificuldades e carências encontrarmos as soluções, como referi acima. A energia não pode ser um problema quando vemos as famílias, ainda que isso não seja o ideal, a utilizar geradores para assistir telenovelas; vemos sentadas para bebedeiras, mas não vemos a preocupação dos pais com o ensino dos filhos. Como comentou um amigo das redes sociais, os professores deixaram material para que os pais o recolham nas escolas e poucos foram que se dignaram fazê-lo. Não sendo fatalista, mas num cenário onde a situação da Covid-19 sofra algum agravamento e as crianças continuem largos meses sem poder ir à escola, o processo de ensino ficará parado? Não pode. Então, a vantagem das IT, nos tempos que correm, tem de ser sustentavelmente avaliada.
Falo a seguir daquilo que era mote inicial para este artigo, o boom do teletrabalho e do e-commerce, fruto do trabalho e investimento de organizações públicas, privadas e empresariais que buscam alternativas. São restaurantes, são supermercados, farmácias e outros serviços que desenvolveram plataformas que permitem a realização das actividades e satisfação do mercado/clientes.
Quem mais beneficiou deste cenário foram, por exemplo, as Apps de compras como o Tupuca, que antes disso vinha sofrendo o que chamo crise de crescimento.
Imaginemos os casos em que as empresas fizeram um investimento significativo criando condições para que os funcionários possam cumprir as tarefas a partir de casa. Será de admitirmos que essa tendência irá permanecer?
Um dos entraves que se regista no desenvolvimento do e-commerce em Angola, segundo os operadores do mercado, tem a ver com o sistema de pagamentos electrónicos. Há um claro monopólio da EMIS e ausência de novas soluções em termos de gateways de pagamentos para os interessados em desenvolver e operar sites e plataformas para o e-commerce. Não é despiciendo notarmos o perigo deste monopólio, que como os outros, se traduz em custos elevados e na redução da qualidade dos serviços porque o prestador não tem incentivos de melhoria. Ora, o Multicaixa Express é um avanço, mas ainda estamos lentos e atrasados. Deveria ser possível, pelo menos internamente, desenvolvermos um sistema de pagamentos electrónicos, por débito directo nos actuais cartões. Só por isso, o défice de Gateways de pagamentos móveis, põe em causa a dinamização do comércio tanto o electrónico como o tradicional.
Por outro lado, alguns bancos como o BAI e BMA estão a investir seriamente na inovação tecnológica, mesmo se o quadro regulamentar ainda é um edifício inacabado por várias razões. Em países como o Rwanda, África do Sul, Nigéria e Quénia, nesta matéria e do Mobile Money estão muito avançados e deveriam ser, para nós, uma boa referência pelas similitudes com a nossa realidade. O Mobile Money permitiria um avanço mais significativo em termos de inclusão financeira, permitindo o acesso a serviços bancários elementares pela população.
Como dizia o Presidente João Lourenço em Julho de 2018, numa reunião dos BRICS, temos de dar o salto: "Acreditamos que na actual conjuntura da globalização e das tecnologias da informação e comunicação, nossos países poderão saltar etapas, encurtando desta forma o caminho do progresso e do desenvolvimento". E também aí admitiu que o país precisava de ajuda para superar constrangimentos ainda existentes. Ora aqui está uma excelente oportunidade para, e mais do que encurtar etapas, chegar à meta, a uma nova realidade, a um futuro que já é presente e ao qual não podemos estar alheios. O digital e o mobile não são o futuro, são o presente incontornável.

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