Opinião

Discurso com "entregosto"

Luísa Rogério

Manhã de segunda-feira, 15 de Outubro de 2018. O calendário nos remete para a Constituição da República de Angola. Em cumprimento do disposto no seu artigo 118º, o Presidente da República falou na Assembleia Nacional sobre o estado da Nação. João Manuel Gonçalves Lourenço discursa pela segunda vez na condição de Chefe de Estado no espaço em que o poder do povo se concretiza e onde já exerceu as funções de deputado, presidente do Grupo Parlamentar do MPLA e vice-presidente do Parlamento.

Os angolanos e todos quantos acompanham a situação no país real queriam ouvir a radiografia feita pelo titular do poder Executivo, um ano após a realização das eleições que marcaram o ponto de viragem em Angola.
Em que estado João Lourenço “herdou” os comandos da gestão e, principalmente, de que receitas se está a socorrer com vista a introduzir mudanças no país que, num passado não muito distante, registou índices de crescimento assinaláveis, são inquietações consensuais. Almejamos saber se temos motivos palpáveis para começar a sonhar com o fim da fustigante crise económica. O custo de vida está insustentável, o desemprego aumenta. O desânimo também. Vários sectores aplaudem as medidas anti-corrupção e de combate ao crime de colarinho branco, mas anseia-se por novidades com reflexos positivos no quotidiano. As análises convergem no ponto segundo o qual o discurso sobre o estado da Nação tem um pendor vincadamente económico-financeiro. Introduz dados indicativos de recuperação a breve trecho. Algumas informações podem ser clarificadas com a ajuda de gráficos e notas explicativas.
Atenta ao rádio no candongueiro que, estranhamente, não toca música estrondosa com volume no máximo, a protagonista anónima ouve os comentários. De vez em quando passageiros supostamente detentores de conhecimentos técnicos e “opinólogos” por natureza desviam a atenção dos ouvintes. A conversa desenrola-se sob o altíssimo grau de animação que só a política, o futebol e a inverosímil crónica policial despertam. Ela lamenta silenciosamente quando chega à sua paragem, algures no bairro Palanca. É o terceiro quintalão da periferia que visita desde o início da manhã em busca de melhores preços aliciantes. Por alguma dessas guinadas que a vida dá, a ex-integrante da inexpressiva classe média alta angolana aprende a fazer contas semelhantes à maioria dos angolanos. Soma cada vez menos, aprende a dividir e subtrai itens da lista em nome do equilíbrio.
Acompanhada pela secretária doméstica, diz timidamente, sem ninguém lhe perguntar, que deixou o carro na revisão. Vê-se que não é frequentadora habitual do lugar. Ao contrário dos termos do discurso que lhe são familiares, no quintalão do Palanca quase tudo constitui novidade. A começar pelas sócias de plantão que ficam sentadas à espera de alguém para dividir o conteúdo da caixa e rachar a conta. Assim, descobriu as “sócias” do carapau e de diferentes tipos de carne com predominância para as conhecidas “conchas” de frango e “entregosto”. É nos armazéns onde compra a concorrida carne de pincho que se fartou de recomendar aos filhos para não comprarem. Primeiro lhe disseram que era de porco, depois já era de búfalo. A última não podia ser porque a tabela escrita na parede indicava um valor salgado para a verdadeira carne de búfalo.
Quis saber que tipo de carne vermelha é aquela com pouca gordura e ossos escassos. “É melhor não comprar. Se for para festas vá lá. Mas para consumir em casa com a família não”, aconselhou alguém com experiência óbvia na matéria. Caminhava em direcção à facturação quando se encontrou com duas amigas que lhe deram um “workshop” básico sobre os procedimentos em armazéns que concorrem para harmonizar a gestão da contabilidade doméstica, enquanto os chamadores de sócias apregoavam, para descanso de quem não tem pulmões ou está cansado de apelar à verdadeira sociedade anónima, as potenciais “sócias”, assim designadas independentemente do género. Segundo os códigos mulheres e homens fazem sempre sócias.   
A amiga aprendeu que no quintalão as clientes se chamam Paula e Joana. Poucas dão o verdadeiro nome na hora da facturação. Na verdade, pensou para os botões, os nomes exprimem valores menores nas relações comerciais. É possível haver ganhos recíprocos, mas também perdas irreparáveis. Como aquele dinheiro da China, aquele que chegou a Angola no âmbito da propalada linha de crédito, e já se perdeu. Ainda estamos a tentar compreender o que vai acontecer com os novos empréstimos ainda não chegou. Entretanto, vários milhões de angolanos lutam diariamente para fazer jus ao estatuto geral dos filhos da nação: o de resilientes. Pessoas que conservam o dom primário de resistência inerente à espécie humana. Ao fim da jornada fica a pergunta. O que o discurso do PR tem a ver com o preço do “ôle”, das “conchas” e do “entregosto”? Absolutamente nada. Excepto o facto de o Chefe de Estado ter deixado para matéria de casa complicadas fórmulas. Contas com muitos milhões de dólares por calcular, empréstimos, dívidas para pagar dívidas e divisas distantes dos bolsos do cidadão comum. São operações de entendimento difícil. Contudo os especialistas existem para ajudar a decifrar enigmas. Lá no fundo o discurso transmitiu também a necessária réstia de confiança num futuro à margem dos abismos. Nada melhor do que um dia a seguir ao outro para lidar com crises. No país, tal como no quintalão onde as manas Paula e Joana compram um pouquinho de tudo, o segredo do sucesso é pesquisar, “fazer sócia” e dividir bem os volumes para contornar confusões.

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