Opinião

Disparem chutos, não disparem canhões!

José Luís Mendonça

“Make love, not war!”, foi um dos grandes slogans humanistas do movimento hippie dos anos 60. Hoje, somos todos um bocado hippies, com essa herança cultural esmaltada na aspiração a um mundo menos demolidor.

E é com essa herança na alma que verificamos este acontecimento muito significativo na História contemporânea: os presidentes Donald Trump e Kim Jong Un remeteram a guerra fria da Coreia, que já durava uns largos decénios, para um possível término, antes de começar a 21ª edição do Campeonato Mundial de Futebol. Acto esse de grande envergadura mundial, que nos inspira um novo slogan: “Disparem chutos, não disparem canhões!”
E a disparar tiros de bola, esta edição do Mundial de Futebol teve o seu término ontem à tarde, num país em estado de guerra suspensa na fronteira com a Ucrânia e no apoio ao regime sírio.
Não chegámos à final de Moscovo – nós, em qualquer recanto do Planeta, também jogamos à bola, com o ecrã à frente, umas bebidas e uns petiscos na mesinha de centro – sem termos sofrido ao ver as nossas equipas preferidas caírem nas arenas onde os novos gladiadores se esfolam.
De início, torci pela Argentina. Acho que Lionel Messi merecia ter um Mundial na estante dos palmarés. Tem uma carreira fulgurante, tal como o português Cristiano Ronaldo. Não apostei no Brasil, porque desde a humilhação em pleno Maracanã imposta pela Alemanha – 7 a zero – deixei de acreditar em quem já não tem um Pelé, um Ronaldinho Gaúcho ou um Ronaldo Fenómeno para resolver jogos. Creio até que o povo brasileiro, fanático do futebol, pelas cinco vitórias no Mundial, penalizou a presidenta Dilma Russef por essa humilhação. É que, no futebol, há sempre um aroma político a pairar nos estádios. Não é à toa que os chefes de Estado e de Governo aparecem nesta competição e noutras de âmbito regional. O futebol apela à paz. É uma forma de dirimir querelas através de uma brincadeira de correr atrás da bola e esperar quem marca mais golos e leva a taça e a fama para casa.
No decorrer do campeonato, recebemos as mais caricatas mensagens pelo Whatsapp. Destaco aqui aquela animação do cachorro do Neymar a latir no chão, a montagem em que o Putin imita a voz de um angolano Durão a dizer que já que acusámos a Rússia de ter organizado o Mundial com o dinheiro do Angosat, então agora não iríamos ver o satélite nem o dinheiro e a outra que é uma dublagem de um trecho de filme sobre o fim da Segunda Grande Guerra. Hitler aparece ali a tremer de desilusão e vocifera contra o treinador, o preparador físico e o médico (todos eles fardados) e diz: “desde Napoleão que sempre que vamos à Rússia, somos derrotados!”
A final entre a Croácia e a França começou por doer. O primeiro golo da França nasceu de um livre mal marcado. O lance apresentou dúvidas. O juiz da partida não foi revê-lo na televisão. Mas é assim o futebol. Como a vida. Tem algumas injustiças pelo meio. Errare humanum est. Fiquei com muita pena do indomável Rakitic, que se bateu como a força e a determinação de um Spartacus, o gladiador dos tempos da Roma Antiga, a exemplo de toda a Croácia, para chegar à final. Afinal, não fica a Croácia ali perto da Trácia, a terra de Spartacus?
Mas quando Pogba marcou o terceiro golo da França, emiti um despacho por Whatsapp: “a França já ganhou.” O futebol dos nossos dias tem esta característica essencial: não vence quem muito joga, mas quem demonstra eficiência, rapidez e marca golos. Vence quem tem um jogador veloz como Mbapé. Quem não se maça muito em campo, mas traça uma estratégia baseada em passes longos para jogadores bem posicionados nas alas avançadas do adversário. O treinador Didier Deschamps sabe destas coisas. Tem uma equipa jovem, ágil, cheia de força. Uma equipa de génios afro-descendentes, nossos “mbumbos” sem futuro no continente-berço, a dar glória aos ex-colonizadores. Foi assim que a França chegou à final. Deschamps pode, agora, afirmar como Júlio César, quando, em 47 a.C., venceu o rei do Ponto, Fárnaces II, na batalha de Zela: veni, vidi, vinci.

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