Opinião

Do povo ao cidadão consciente

Adriano Mixinge

No imaginário, nos discursos e na prática política, o povo como grupo, classe, conceito e corpo social ocupa um lugar essencial, já que ele esteve e continua a estar no centro das mais ousadas e das mais radicais transformações da história da humanidade.

É o alter ego das multidões, a voz e a substância em que sentimos ou vemos cristalizado, umas vezes o consenso, o sentido comum, a justiça e, noutras, o dissenso, a revolta e as necessidades da maioria.
Não surpreende, pois, que um dos slogans mais conhecidos e perenes de António Agostinho Neto, - que hoje completaria noventa e sete anos de idade-, seja “o mais importante é resolver o problema do povo”. Esta é uma ideia transcendente de um Presidente da República que foi breve, mas, que, também, fora decisivo na luta de libertação nacional e para a génese do Estado pós-colonial, em Angola.
Ser parte do povo significa, em primeiro lugar, fazer parte do conjunto de habitantes de uma aldeia, povoação, cidade ou país determinado. Porém, a definição de povo não é estática, foi-se modificando com o tempo.
Ainda assim, é uma frivolidade que lá no bairro onde nascemos, quando alguém perde poder, não controla o que deveria, é abandalhado, perde o brio, parte o tacão do sapato e passa a andar descalço e à toa, quando habituou-nos a aparecer todo cuidado, limpo e bem vestido e, de repente, aparece desalinhado, sujo e despenteado ou torna-se incapaz de decidir por si só os tempos e as circunstâncias do seu próprio destino. Então dizemos que ele virou ou ficou povo.
Virar, ser ou ficar povo é, antes de mais nada, se seguirmos o entendimento do bairro, uma questão de atitude, comportamento, honra, dignidade e, por conseguinte, lá até não estão de todo mal encaminhados. Ser parte do povo não tem à partida necessariamente a ver com a classe, nem tão pouco a noção de zé povinho em alusão ao baixo nível social de quem quer que seja, sendo que, neste último caso, é uma expressão depreciativa.
Ser parte do povo é qualquer coisa como fazer parte de um conjunto numeroso, de uma multidão sem forma e sem rosto que, umas vezes, tem príncipios, ideais e objectivos , outras vezes não tem e, nestes casos, reage como uma lava que tudo queima ou destrói, e vezes há que parece indiferente à sua própria desgraça.
O povo pode ser arrastado e ou actuar por impulsos, pelo sentido comum: pode ser o sonho mais belo ou o pesadelo de qualquer poder estabelecido.
Estar com o povo ou ter o povo ao seu lado é a maior garantia do statuo quo. Interpretar as suas aspirações e educá-lo lhe permitirá exercer de maneira eficaz a sua cidadania: o país precisa.
Todo cidadão faz parte do povo, mas, nem todos, no povo, são cidadãos enquanto não cumprirem com os seus deveres cívicos e fazerem respeitar os seus direitos e, muito menos, serão cidadãos conscientes se, antes, não se preocuparem por serem instruídos, educados e cultos, a única maneira de serem verdadeiramente livres.
A noção de povo que temos está mais próxima da ideia que temos das ovelhas: o povo reage aos slogans seguindo-os, quase, por inércia como as ovelhas reagem às campainhas evitando, por reflexo, as suas vibrações.
Numa primeira fase, o cidadão consciente é mais parecido com um lobo solitário: a sua preparação científica, técnica e humanística constitui o seu primeiro passo em direcção à maturidade. Mais tarde, quando ele atinge outro nível, reúne-se em associações, think tanks, grupos de pressão, colectivos e ou fundações, que à margem dos partidos políticos, criam a sociedade civil organizada e ela só é útil quando funciona como contra-peso do poder, quando actua de forma responsável.
O cidadão consciente é para a sociedade o mesmo que o criador e o espectador emancipado são para as artes, as literaturas e as ideias: um permite conhecer e transformar o outro, ambos retroalimentam-se. Precisamos, pois, de menos povo para instrumentalizar e de mais cidadania activa, com critério e juízo, para que possamos transformar a sociedade e resolver os problemas de todos.

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