Opinião

Donald Trump e o "vazio moral" que está no poder na América

Filomeno Manaças *

Aos trambolhões e com um índice de popularidade que é considerado dos mais baixos dos últimos tempos, se comparado aos seus antecessores mais recentes (Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama), Donald Trump completa hoje um ano de mandato na Casa Branca.

Aos trambolhões porque este primeiro aniversário de Donald Trump na Casa Branca ficou manchado por várias polémicas em que a imagem do Presidente acabou por sair chamuscada.
Quando se esperava o oposto, tendo em conta as responsabilidades de Estado que a figura de Presidente impõe, Trump acabou por levar para a Casa Branca muito do seu estilo adoptado na campanha eleitoral para as presidenciais de 2016. O tom acintoso e provocador com que enfrentou os seus adversários na campanha, e particularmente Hillary Clinton, estão presentes em Donald Trump o Presidente.
Por isso, outra coisa não era de esperar. Com a imprensa norte-americana a guerra começou logo durante a cobertura da cerimónia da sua tomada de posse, em Janeiro de 2017, quando aquela procurou mostrar que o evento tinha menos gente do que quando Obama assumiu as funções. De lá para cá os conflitos com a imprensa sucederam-se. Mas não apenas com esta.
Além de mostrar inabilidade política para tratar dos casos, Trump teve posições dúbias e parciais sempre que eclodiram conflitos de carácter racial com as comunidades minoritárias dos Estados Unidos.
Esse facto ficou evidente quando, em Agosto, o Presidente colocou em mesmo pé de igualdade os participantes numa contra manifestação para repudiar um comício nazi, em Charlottesville (na Virgínia), de cujo grupo saiu um supremacista branco que arremessou a sua viatura contra aqueles, provocando três mortos.
Na sequência, a tensão racial subiu e, à semelhança do que já tinha acontecido em 2016, muito antes mesmo de Trump entrar para a Casa Branca, a maioria dos jogadores da principal liga de futebol americano (a NFL), adoptou uma posição de protesto e passou a ficar de joelhos durante a entoação do hino dos Estados Unidos da América. Uma forma encontrada para denunciar o tratamento e sobretudo a morte a mãos de policiais de cidadãos negros.
Com a imprensa a morder-lhe os calcanhares, com as gafes por si protagonizadas e pelos seus colaboradores, a ver-se obrigado a demitir uns e outros a pedirem a demissão, com o manto da suspeição da influência da Rússia para ser eleito Presidente a pairar sobre o seu mandato, em vésperas de se festejar o Dia de Martin Luther King um Trump politicamente desastrado não podia senão ser a pior imagem que um Presidente norte-americano poderia transmitir ao Mundo.
Ao atacar o congressita John Lewis, companheiro de luta de Martin Luther King, ao referir-se ao Haiti, a El Salvador e várias nações africanas como “países de merda”, procurando depois emendar o erro (mas já era tarde porque foi confirmado que foi assim que ele se expressou), o Presidente dos estados Unidos mais não fez do que enterrar ainda mais a sua imagem na lama.
O troco foi uma manifestação de centenas de pessoas ruidosas de várias raças que, em frente a Trump Tower, de costas viradas para ela, baixaram-se, arrearam as calças, mostraram e abanaram o traseiro com as letras do nome do Presidente nele inscritas.
Por causa da conduta do Presidente em matéria de política doméstica, excepção feita a alguns resultados positivos que a economia vai registando e que o salvam da desaprovação total, a opinião majoritária é a de que os Estados Unidos estão a passar por um momento de “vazio moral”, que é preocupante porque é um problema fracturante para a sociedade norte-americana.
É assunto sério. Mas também não deixa de ser olhado com alguma ironia e incredulidade. Porque as pessoas interrogam-se. Com todos os avanços técnicos e tecnológicos que a grande América logrou ao longo de séculos, somados aos conhecimentos que fizeram dela líder mundial na economia, no ramo militar, na educação, na ciência, com grandes cérebros nos mais variados domínios da vida, é mesmo este (Donald Trump) a pessoa escolhida para ser líder da tão propalada maior democracia do Mundo?
A questão é pertinente sobretudo quando se tem um Presidente cuja conduta se revela uma antítese dos valores essenciais da democracia, como o respeito pela diferença, a defesa da coesão social, uma clara postura de combate à discriminação racial, etc.
Bom! Mas a democracia também produz desses fenómenos e Donald Trump é exemplo disso. É preciso olhar para o sistema eleitoral norte-americano para perceber como ele chegou lá, à Casa Branca.
A taxa de aprovação de Donald Trump ronda os 40 por cento, a mesma registada quando tomou posse.

* Director Nacional de Publicidade. A sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social

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