Opinião

Dos cooperantes aos expatriados

Adebayo Vunge

A Televisão Pública de Angola tem-nos brindado, nos últimos tempos, por força ou não do confinamento, de momentos verdadeiramente edificantes e de exaltação da cultura nacional.

Estão a proporcionar-nos um verdadeiro reencontro com a nossa idiossincrasia, pelo menos no que diz respeito aos estilos musicais. Começou por ser fruto da parceria com a benquista Nova Energia do Yuri Simão e promotora do show do mês. Nos últimos fins de semana, a TPA assumiu a promoção da angolanidade e da música angolana. Está a ser um grande reencontro com a cultura, com a nossa música. Foi assim por exemplo, com o triunvirato do Semba, ou seja, o espectáculo que juntou Bonga, Paulo Flores e Yuri da Cunha. Foi indiscritível a emoção que nos gerou.
Foi assim ontem, por exemplo, com Sabino Henda e Justino Handanga, tirando do baú a beleza do sungura e da língua nacional ovimbundu. Não se confinando, trouxeram o cancioneiro, revisitaram por exemplo Diabique e fizeram-nos um deleito total na tarde de domingo, de um cacimbo atípico, por culpa da pandemia do coronavírus.
Mas essa exaltação da beleza do nosso povo passa sem dúvidas por lhe darmos maiores oportunidades. Obviamente não sou apologista de um Esta-do paternalista e super providencialista. Todavia, há mínimos olímpicos e aspectos sobre os quais o Estado não pode abrir mão, ainda mais quando se trata da defesa do interesse nacional.
Na passada sexta-feira, ao folhear este diário, dois aspectos saltaram a minha atenção. Primeiro foi a crónica do Sousa Jamba onde, amiúde terá dito o seguinte: “Na aldeia de Sachipanguele já se construiu uma loja para um comerciante mauritaniano”. E vem a propósito da invasão silenciosa e monopólio do pequeno comércio em Angola que é dominado pelos nossos irmãos oeste-africanos.
Esta situação que é constatada diariamente em todas as nossas cidades e agora até aldeia, é denunciada igualmente em vários fóruns. São os perigos do ponto de vista estratégico termos o sector do Comércio e da distribuição amplamente dominado por estrangeiros. Claramente é redutor assumirmos uma incapacidade inata dos angolanos para o comércio.
Como se vê no texto de Sousa Jamba, estes comerciantes estão instalados também nos confins do nosso território, onde a autoridade do Estado é precária. Apesar da precariedade dos estabelecimentos e a fraca legalização, estes geralmente não pagam impostos, os serviços não estão propositadamente bancarizados e nem empregam angolanos. São autênticos rendistas.
Estrategicamente alguns deles casam-se com angolanas, mas os riscos religiosos são evidentes. Pacientes que nem os pescadores, têm uma agenda de longo-prazo que vale prestar atenção. Pouco compram dos nossos produtores nacionais e alimentam a sua cadeia de importação. Pelos produtos que comercializam ditam até a dieta alimentar, impondo subtilmente o seu way of life.
Mas, saímos então do comércio e entremos para a agricultura. O nosso grande expert nestas matérias, o engenheiro Fernando Pacheco concedeu uma entrevista ao nosso matutino onde denunciou, mais uma vez, um fenómeno relacionado ao que referi há instantes:
“Por razões conhecidas, ligadas às más práticas ou medidas de política e às guerras, os agricultores angolanos não puderam praticar agricultura devidamente, não houve transmissão geracional de conhecimentos e não houve formação adequada de técnicos. Daí o recurso a técnicos estrangeiros que são caros e pagos em divisas. Para atingirmos a auto-suficiência alimentar, é necessário um enorme esforço organizativo e financeiro. Os governantes têm de ter noção clara disso”.
A denúncia de Fernando Pacheco traz a lume um fenómeno antigo da nossa sociedade. Primeiro com os chamados cooperantes. Agora, chamamos-lhes expatriados. É sem dúvidas um modelo que urge corrigir não apenas por razões financeiras – afinal já não abundam os petrodólares como foi noutro tempo. Para além deste ter sido um modelo viciado e corrosivo ao interesse nacional, ficou também provado que não gerou transferência de know-how para os angolanos e prejudicou o conteúdo nacional em determinadas indústrias e segmentos de negócios como a indústria petrolífera, financeira e, como bem denunciou o Fernando Pacheco, o agronegócio.
Parece-nos evidente esta perda de valor para o povo angolano e para o país. Os angolanos perdem espaço para estrangeiros no seu próprio país. Os estrangeiros que vêm deixam pouco valor para o país e o resultado não pode deixar dúvidas para ninguém. Estão apenas preocupados em expatriar os seus dólares ao invés de uma política que deveria privilegiar a sua instalação no país, no fundo, implícita ou explicitamente, estaria corporizado numa política de imigração.
Todos os Estados são soberanos e não devem ter receios em assumir as suas opções de política, seja junto do seu próprio povo seja junto dos seus parceiros internacionais. Os exemplos alemão e americano são elucidativos. Os americanos coptam médicos, cientistas em todo o mundo a troco da nacionalidade. Os alemães fizeram isso, recentemente, com os sírios e afegãos desde que tivessem uma formação superior, preferencialmente nas áreas de engenharia.
E nós?

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