Opinião

E assim se constrói a democracia

Filomeno Manaças

O papel da Comunicação Social, de levantar questões e suscitar esclarecimentos e respostas assertivas à volta de assuntos que preocupam a sociedade, é de extrema relevância nos tempos que correm, em que a ditadura da opinião tomou de assalto as redes sociais, onde se pode até dar o caso de juízos menos fundados fazerem caminho e, por conseguinte, prevalecerem sobre abordagens mais serenas, mais sensatas em relação a um determinado acontecimento.

O perigo da generalização dos factos, sobretudo dos aspectos negativos, sempre existiu. Não foi preciso esperar pelo advento da Internet e das redes sociais para nos confrontarmos com essa tendência particular do ser humano. O boato, os rumores, não são uma realidade de hoje. As redes vieram apenas dar outra amplitude ao fenómeno.
Mas não se pode olhar para as redes sociais como um mal de todo. Não são um meio a desprezar quando há evidências de estarmos em presença de “bom fumo”. Pelo contrário.
Uma gestão correcta da informação que circula nas redes sociais permite às instituições, quer públicas quer privadas, municiarem-se dos elementos indispensáveis a uma intervenção acertada.
Ou seja, em tempos em que é cada vez maior o sufrágio do público, o que faz verdadeiramente sentido é as instituições olharem para as redes sociais como um desafio, mas ao mesmo tempo como uma oportunidade para firmarem os seus créditos, adoptando uma postura dialogante, sendo certeiras nos esclarecimentos que porventura se imponham ser prestados, por forma a que a sociedade saiba de fonte limpa o que de concreto está a ser feito para sanar eventuais problemas, reduzindo assim o campo de manobra da especulação.
Prestar contas do que se esteja a fazer em sede de um determinado assunto que, de repente, possa interessar a sociedade é também um exercício de democracia a que o servidor público deve estar obrigado.
Não é uma ideia saudável deixar que o manto de silêncio acame o terreno da má presunção e das percepções erradas, quando se está precisamente a falar da necessidade de moralização da sociedade, quando ainda se está no vigor do lema “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”.
Parece notar-se em algumas áreas uma certa inclinação para a adopção de um novo lema, o de “ocultar o que está mal e divulgar o que está bem”, porque se entende que falar das falhas é pôr em causa a sua gestão, quando sabemos que elas, afinal, são fruto de anos e anos de má governação e que foram-se acumulando ao longo dos tempos.
Tão errado é pensar que num par de anos teremos corrigido tudo o que estava mal, quão absurdo é ter receio de reconhecer que os problemas existem, tanto quanto fútil é a tentativa permanente de encontrar bodes expiatórios para males que são estruturais e que exigem soluções sistémicas e de médio/longo prazo.
E por assim ser, o tempo vai encarregar-se de revelar novas situações. A Comunicação Social será chamada a fazer luz sobre o assunto. Normal é, pois, que quem de direito seja chamado para os esclarecimentos necessários, dizendo o que está a ser feito para corrigir.
À Comunicação Social cabe exactamente o papel ímpar de tratar de transformar a informação credível em bem público, acessível a todos; de ir em busca da verdade dos factos e, deste modo, contribuir para uma imprensa mais aberta, plural e responsável, por contraponto à linha da invenção, do sensacionalismo e falseamento dos factos.
Um sistema fechado - já se viu - não contribuiu para uma abordagem séria dos problemas do país e para se encontrar as soluções mais acertadas para os mesmos. O escamoteamento da realidade quase nos levou a um beco sem saída.
Uma informação certa funciona também como um bálsamo para o indivíduo e para toda a sociedade. Entender os novos sistemas de valores passa por perceber o que está em causa.
Por isso, tanto é de enaltecer o anúncio feito pela Procuradoria-Geral da República de que vai abrir um inquérito junto do Ministério da Saúde, nos próximos dias, para saber o que se passou, de concreto, para que os testes de VIH feitos em algumas províncias do país dessem falso positivo; tanto quanto importantes são os esclarecimentos prestados pelo Ministério da Saúde sobre o assunto, que demonstram ter acompanhado o processo e ter, em tempo oportuno, tomado as medidas que o caso requeria.
E assim se constrói a democracia!

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