Opinião

E depois das Feiras!...

Carlos Calongo

Por conta do destaque que as questões económicas representam no plano de governação para o quinquénio 2017-2022, a realização de Feiras, a exemplo da Alimentícia 2019, pode ser encarada como uma atitude de materialização dos esforços empreendidos pelo Executivo voltados à efectiva diversificação da economia?

Independentemente do pendor da resposta, a título de conclusão primária, ocorre-nos afirmar que o êxito que se espera de eventos do género, (Feiras), só será atingido na plenitude caso a sua concepção esteja apoiada num universo de acções conjugadas e participadas, baseada num processo comparticipado por vários intervenientes, directa e/ou indirectamente interligados.
É verdade que a realização das Feiras, em alguma instância, reflecte a oportunidade de Angola mostrar ao mundo a sua capacidade da produção interna nos vários segmentos, e não é menos verdade que, se não se atingir a fase seguinte, a da prática efectiva, é quase que nada, ou seja, certames do género não passarão de teóricas exposições do potencial industrial angolano.
Desse olhar, emerge a necessidade de revisitar o passado que nos vai apresentar um elevado histórico de realizações de Feiras, sem que as intenções de negócios e ou investimentos se concretizasse, pelo menos numa proporção de um (1) em cinco (5), salvo se o “pecado” da nossa afirmação estiver embebido de alguma ignorância quanto ao domínio de dados estatísticos que existem sobre a matéria e que não são divulgados.
Aliás, é um facto comprovado que a dieta alimentar dos angolanos ainda depende, em larga escala, da importação de produtos de primeira necessidade, dentre os quais o feijão, arroz e soja que, por sinal, podem ser produzidos localmente, em escala de auto-suficiência. Pressupõe isso que, por esta altura, o factor fundamental que serve de resposta efectiva aos anseios estabelecidos no programa com que o Executivo pensa dar outro rumo à economia nacional, vai para lá da realização de Feiras, que de boas e belas intenções, por sí só, nos tornamos campeões.
É preciso, pois, avançar para acções mais concretas, estruturadas, intersectoriais, bem como eliminar, de uma vez por todas, os “vícios” que, infelizmente, ainda comandam o pensamento de certos responsáveis que preferem a vaidade e vantagens pessoais em detrimento do bem-estar colectivo dos compatriotas, como uma das premissas de um Estado democrático de direito, conforme estabelecido na Constituição da República de Angola.
Mais do que continuar válida a máxima “A agricultura é a base e a indústria o factor decisivo”, manifestamente proposta pelo primeiro Presidente da República Popular de Angola, António Agostinho Neto, que com a visionária citação, indicou o caminho a seguir, já lá vão cerca de quatro décadas de anos, é urgente sair-se da teoria à prática, até por uma razão de segurança alimentar.
Este quesito, segurança alimentar, é uma prova mais do que evidente de que o passo seguinte deve ser dado quanto antes, a considerar que, hoje, em pleno século XXI, mais de um quarto da população africana sofre com os efeitos da falta de alimentos no continente, além de 34 dos 53 países africanos figurarem na lista dos países menos desenvolvidos do mundo. Urge, igualmente, reordenar a estrutura de custos na cadeia de produção nacional que ainda é muito alta e faz com que a agricultura não consiga ser competitiva e, em determinadas situações, aceitar-se manter a importação de produtos cujas condições naturais de produção interna existem em escala de admiração até para os fornecedores estrangeiros.
Por fim e não menos importante, a velha problemática do crédito, que parece ter desaparecido do léxico da relação entre a banca e sector produtivo, é um verdadeiro problema que, se não for resolvido com a maior urgência, continuará a ser a pedra de tropeço para qualquer bem-intencionada iniciativa do Executivo angolano, e isso prova que, para lá das Feiras, impõem-se outras acções urgentes e concretas.

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