Opinião

É hora de bom senso

Arlindo dos Santos

Aconteceu no último sábado passado em Lisboa, dia 7 deste mês, no Centro Comercial Colombo. Ainda estava longe a declaração do estado de emergência imposto pelo Governo português, em razão do coronavírus. Nesse dia repleto de espantos, participei, num restaurante famoso, em evento que, fiquei a saber, se realiza todos os primeiros sábados de cada mês. O espaço é cedido generosamente a partir das nove da manhã, durante duas horas, ao “Projecto Cuidar Melhor”. Dele resulta o “Café Memória” que junta há alguns anos, pessoas dedicadas a apoiar outras, cuidadoras dos doentes de Alzheimer, principalmente. Familiares ou gente próxima.

Serve para transmitir para além de calor humano emergente de diálogos abertos, distribuir afectos, ganhar conhecimento sobre o stress e o isolamento social, a ansiedade e a depressão, as insónias, enfim, a serenidade necessária para lidar com gente atingida pela desgraça, preservando-os dos males associados à terrível situação vivencial. Saí leve do encontro, de cabeça arejada, e resolvi destacá-lo neste texto, por algumas razões. Uma delas para lembrar que em Angola esta doença também existe e está viva. Infiltrou-se, ganhou dimensão e, pelos piores motivos, quase não se dá pela sua presença. Tal como não se dá por outras crónicas que alteram a vida das pessoas e da mesma forma silenciadas. Aparte dos cuidados que competem ao Estado, é praticamente nula. Atingindo cruelmente uma faixa de indivíduos frágeis e sensíveis, é lógico que mereceriam outra atenção! Espero que o descarado divórcio do Estado desta camada mais vulnerável da população seja desvendado e explicado com o destapar do rendilhado véu que envolve o INSS. Um conjunto de assuntos mal contados a exigir auditoria e mudança que garanta o futuro dos fundos de pensões. Para já, fica a dúvida de como é possível movimentarem-se tantos milhões de dólares e como se aplicam em imóveis de luxo de alto rendimento autênticas fortunas, deixando sem qualquer escrúpulo, a população contribuinte dessa massa monetária ao Deus dará. Gente que se arrasta miseravelmente, indigente, atrás de pensões de duzentos dólares ou menos, nos intratáveis balcões do BPC, instituição onde os kwanzas correspondentes se desvalorizam diariamente. Como é possível isso? As aplicações são rentáveis? Justificam-se? É o Estado e as pessoas estranhas que devem beneficiar dos rendimentos da aplicação, ou é o povo, o dono desse dinheiro?
Sem subjectivismos – resultam injustos e conduzem a especulações –, direi que observei em Portugal o que não pode ser visto em Angola. Dificilmente se organizará aqui um “Café Memória”, porque não existem, que eu saiba, instituições como a “Sociedade Portuguesa de Alzheimer” e a “Linha de Apoio Cuidar Melhor”. Muito menos haverá restaurantes dispostos a colaborarem actividades filantrópicas. Não existem mas poderiam existir. Não existem, pela manifesta insensibilidade das instituições estatais ligadas a este sector social. Pelo torpor dos empresários e de outros agentes locais. A impossibilidade é maior quando aliada à falta de educação da população, onde a maioria não tem, lamentavelmente, noção dos seus próprios direitos, nem sabe da importância que os gestos de solidariedade representam numa sociedade organizada. O companheirismo e a compaixão não têm nenhuma expressão entre as pessoas individuais, por razões históricas e outras sobejamente conhecidas. A sociedade colectiva, assaltada há muito tempo por um individualismo deprimente segue-lhe os passos, explicando assim os fenómenos antissociais que nos acompanham desde o início da caminhada empreendida pela independência. Sobre a atitude governamental já me pronunciei e dá-me voltas ao estômago voltar a falar dela.
Nesta altura delicada em que se adivinha a iminência do surgimento do coronavírus e do seu estreito convívio com as nossas insuficiências, torna-se urgente, direi mesmo que é necessário acordar da longa bebedeira, curar a ressaca e encontrar a sobriedade capaz de encarar os desafios que a sociedade angolana terá pela frente. Jovem e moderna, cada vez mais afastada dos kimbandas e dos exclusivistas, a nossa população terá, se pretender futuro, que se vira para acções firmes de cidadania, colectivas, idealistas e solidárias que permitam animar a sua esperança no porvir. Afastando-se do ócio e da boémia, da ganância, da vaidade e da inveja, abolindo a falta de respeito e a ausência do estudo, certamente compreenderá melhor que o Governo não é nenhum Corpo de Bombeiros que atende ao primeiro toque. Nós, sociedade civil, teremos que ser os bombeiros, nas fases difíceis da nossa vida e, por isso, devemos estar preparados para os testes ao trabalho (mesmo que o Estado não dê emprego), à solidariedade, à educação e ao bom senso, à recuperação dos afectos, ao voluntarismo que negamos e à boa vontade que escondemos.
Vi e ouvi um dia destes, voltei a vê-las e ouvi-las hoje. Algumas alarmam. São notícias acerca das medidas de prevenção adoptadas pelo país fora contra o coronavírus. Fiquei preocupado mas animado! Ouvi um estrangeiro a falar do crescimento acelerado da pandemia, da fragilidade dos sistemas de saúde implantados em África e da situação socioeconómica dos seus habitantes. Foi dito que o caso pode ter longevidade temporária e ao mesmo tempo longa. Arrepiei-me! O preço do petróleo está em queda desenfreada. Que se lixe! Pensando melhor, pode até ser útil. Vai aprender-se a gastar menos e a trabalhar mais noutros recursos. Mas, apesar deste conjunto assustador de sérias ameaças, que nada, mas nada mesmo, nos impeça de enfrentar esta guerra. Através das instituições da sociedade civil, da solidariedade que emana delas, alcançaremos hábitos de defesa própria e saberemos sobreviver, escolhendo com melhor critério quem nos dirija. Festejaremos depois a nossa maior vitória!

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