Opinião

É preciso evitar a vergonha

Ângelo Feijó | *

Quando éramos crianças, ouvíamos dizer, “não tenha vergonha, fique à vontade”. Esta expressão apenas significava não ficar acanhado, retraído ou inibido, pois estes sentimentos, quase sempre, limitam a desenvoltura e o pensamento das pessoas, por isso devem ser evitados. Porém, a referida expressão implicava manter-se dentro de certos limites da decência, da moral e da convivência social.

Então, a maior parte das pessoas nas suas acções e palavras respeitavam estes limites para evitar sentir vergonha, pois até dizia-se que “vergonha mata”. Nos dias que correm, parece que se perdeu o receio de sentir vergonha, já que ela afinal não mata. É a falta de vergonha de sentir vergonha uma das responsáveis por muitos maus comportamentos pessoais e pela negligência sobre o que é certo ou errado na óptica da maioria da sociedade em determinado momento histórico. 
É certo que poderão existir actos que já foram vergonhosos em determinada época, que deixaram de o ser. Por exemplo, quando éramos miúdos, dizia-se ser vergonhoso uma ou duas mulheres estarem em mesa de bar sem companhia masculina, a fumarem e a consumir bebida alcoólica, algo que hoje é tido como normal. Já foi vergonhoso vangloriar-se por ter consumido muita bebida alcoólica ou expor a vida privada, conjugal ou familiar, factos que parecem ser  igualmente normais nos dias de hoje.
Podem existir actos e ditos que sejam vergonhosos para uns e não para outros, mas existe o vergonhoso para todas as pessoas e épocas. Por exemplo, é vergonhoso em todos os tempos um servidor público exigir ao utente pagamento pelo serviço prestado, mas parece que entre nós, angolanos, era até normal. Acções que em princípio seriam vergonhosas deixam de ser quando a maioria ou muitos e muitos a praticam. Vejamos, por exemplo, que numa ilha de nudez o vergonhoso é andar vestido.
Contudo, não tenhamos dúvidas de que há actos eternamente vergonhosos. Precisamos de sentir vergonha de não honrar compromissos verbais ou escritos, de ser desonesto, ser ingrato, de não ser higiénico, de disseminar intrigas, de revelar segredos, de desrespeitar o próximo, de imiscuir-se em vida alheia, de apropriar-se de bens alheios, de prestar um mau serviço, enfim de ser mau cidadão, má pessoa. Os pequenos erros e falhas involuntárias também podem propiciar vergonha que facilmente se dilui por serem compreensíveis, mas os actos negativos deliberados devem provocar vergonha profunda. 
Vergonha, segundo o dicionário, é “sentimento desagradável relacionado com o receio da desonra ou do ridículo; sensação de perda de dignidade ou de falta de valor pessoal, humilhação, rebaixamento”.  Ou ainda: “Vergonha é o estado de espírito provocado por sentimento de inferioridade, de indecência ou de indignidade.” É também o “acto ou dito indecoroso, obsceno e vexatório”.
Como se vê, a vergonha não é um bom sentimento, por isso há que ter receio, permita-se a redundância, de senti-la. Evitar a vergonha ou ter medo de passar vergonha não é sinal de falta de coragem de arriscar, de criatividade e de confiança, mas de responsabilidade. Aliás, sentir vergonha é desmotivante, desconfortante, dá sensação de fracasso, fere a auto-estima.
Os “sem vergonha”, aqueles que não têm receio dela, são propensos a cometerem actos e discursos sem medir as possíveis consequências nefastas, que podem produzir conflitos interpessoais e de outros tipos e estes podem conduzir ao cometimento de crimes. Os “sem vergonha” são pessoas frequentemente sem escrúpulos nem prudência, excessivamente orgulhosas, indiferentes às normas morais e cívicas, pelo que não se preocupam com a afectação ou não da sua boa reputação. Parece um paradoxo que muitas pessoas exijam respeito à sua honra e dignidade, mas adoptam uma conduta vergonhosa.
Algures na Bíblia Sagrada, podemos ler: “Melhor é o homem que esconde a sua loucura, do que o homem que esconde a sua sabedoria.” Assim sendo, aconselha-se esconder as “nossas vergonhas” e loucuras e ajudar a melhorar a sociedade com boas ideias e acções.

 

⃰  Licenciado em Ciências Sociais e em Gestão de Empresas


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