Opinião

Educação conscientizadora como caminho para a mudança

Filipe Zau |*

No início da década de 90, já havia cerca de 250 mil crianças em todo o mundo que pereciam por falta de alimentos, enquanto milhões delas vegetavam em situação de desnutrição, em países em desenvolvimento, nomeadamente, em África, mas, não só.

À época, o jornal português, Diário de Notícias, de 16 de Maio de 1992, informa-nos que o número de crianças da Europa Central e de Leste a viverem no seio de famílias pobres havia aumentado drasticamente. Na Polónia, por exemplo, a pobreza afectava 40 por cento da população e “nos EUA existiam 12 milhões de crianças pobres, brancas, negras, asiáticas e hispânicas.” Lamentavelmente, não há ainda informações oficiais credíveis, que indiquem melhorias a nível planetário. Há catástrofes humanitárias e/ou situações de pobreza em quase todos os continentes.
À época, “o custo de metade do equipamento militar destruído durante a guerra do Golfo teria permitido atingir todos os objectivos (…) no domínio da protecção da infância de 1990 até ao ano 2000. (…) a educação básica para todas as crianças (…) os 18,4 milhões de dólares que custa uma avião de combate F-16 teriam permitido comprar manuais escolares para 180 milhões de crianças e jovens!”. Os grandes conflitos armados, movidos por fortes interesses económicos e comprometidos com o comércio de armas, de drogas e de órgãos humanos, provocam injustiças sociais, que têm repercussões em pais, educadores e crianças, tal como reporta o mesmo diário informativo, a 11 de Maio de 1992, sobre a criação de um abrigo para filhos dependentes da droga: “São crianças (…) num estado físico e psicológico lamentável, que reflecte a vivência dos pais, dependentes do álcool, da droga, na sua maioria, ou então fruto de casos de prostituição ou de uma vida de miséria e pobreza”.
De acordo com o livro “Stop a Destruição do Mundo”, que, em diferentes áreas, compila um conjunto de teses apresentadas num fórum que decorreu em Lisboa, entre 27 e 30 de Maio de 1993, o grupo de trabalho que se debruçou sobre a educação concluiu, que é “o poder económico que prepara o sistema para que isso aconteça: através da média, filmes, filosofias alienantes, educação errónea.” A trave-mestra da educação está nos objectivos e na adequação dos métodos de ensino o que nos leva a inferir que há uma diferença substancial entre educar uma pessoa e formar apenas um técnico. Os métodos também diferem.
Como ponto de partida, todo o processo educacional girará em torno de uma filosofia conceptual, para que se possa, efectivamente, atingir resultados satisfatórios ou resultados desastrosos. A educação certa ou errada não ocorre apenas nas escolas e nas casas de cada aluno, mas em toda a sociedade. “É transmitida por instituições, empresas, meios de comunicação, estrutura legal e económica. Portanto, a organização social também tem de ser corrigida para haver a educação correcta”. Existindo uma correlação directa na relação de dependência entre a educação e a sociedade, há que se trabalhar simultaneamente em dois sentidos: na melhoria da educação que irá aperfeiçoar a sociedade; e na correcção da sociedade que irá melhorar a educação. A educação, por si só não muda a sociedade. A educação muda as pessoas e as pessoas, com o apoio das instituições do Estado e da Sociedade Civil, mudam a sociedade.
A história da Educação mostra-nos que, em todos os tempos, o verdadeiro processo educacional conscientizador foi, muitas vezes, encarado como um perigo de destabilização pelos círculos do poder, razão pelo qual os grandes educadores – a exemplo de Sócrates, Jesus Cristo e Jean-Jacques Rousseau – foram perseguidos. Mesmo, nos dias de hoje, há divergência de propósitos entre os verdadeiros educadores e os detentores do poder económico: os primeiros tentam consciencializar os cidadãos; e os segundos fazem de tudo o que podem para conservá-lo na ignorância ou na ilusão do conhecimento. Em contexto de teologia do mercado, a maior preocupação dos regimes neoliberais é o de criar na mentalidade dos cidadãos hábitos desenfreados de consumo e não o de preparar os cidadãos para as mudanças que se operam de forma acelerada para a autonomia de pensamento e de acção, para o sentido altruísta da solidariedade e para a democracia representativa e participativa; i.e.; para o exercício pleno da cidadania.
Um outro exemplo paradigmático foi antes e continua a ser hoje (mesmo depois de falecido) a perseguição ao nome e às ideias de Paulo Freire. Este mundialmente conhecido educador brasileiro criou um método de alfabetização de adultos, que tinha como alvo, não apenas, ensinar a ler e a escrever, mas, também e sobretudo, desenvolver nos aprendentes consciência política e social. No método Paulo Freire, que via a educação como meio de libertação de homens e mulheres, o professor aprende primeiro com os seus alunos quais os hábitos, costumes, palavras mais usadas, preocupações, dificuldades, motivações e aspirações da comunidade. Só a partir desse “universo temático” iniciava a alfabetização literal, que, face ao interesse despertado, se efectuava de forma muito rápida. Na primeira aplicação deste método em Angico, Brasil, 300 trabalhadores foram alfabetizados em 45 dias.
Também, a discussão em grupo dos problemas comuns era encorajada, sendo os temas sempre escolhidos e dirigidos pelos próprios educandos, tornando, assim, o processo de alfabetização cada vez mais funcional. A sua obra “Educação como prática da liberdade” é uma referência à necessidade de se promoverem mudanças qualitativas nas comunidades pobres, através de uma educação conscientizadora, caso a vontade política dos Estados assim o desejar.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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