Opinião

Elites do cimento sem classe para as artes

Belmiro Carlos |*

O período sabático de redescoberta e reinvenção para uma realpolitik pragmática do novo governo angolano, no domínio das artes, começa a esfumar-se.

Oremos !

Aqueles, cuja existência espiritual e sobrevivência material encontram na fruição das artes o músculo da sua sustentação, precisam orar para que da terceira República desabroche uma elite verdadeira e incondicionalmente comprometida com as artes no País, blindada dos desvarios da acumulação primitiva do vil metal , que os deixa geralmente míopes da grandeza da cultura para o bem estar dos seus concidadãos, fortalecimento do espírito patriótico e consolidação da unidade da Nação.
Todos os dias são azagaiadas flechas de esperança,  que enchem de libido os ressequidos pulmões de gente que, cada vez mais ávida de ver o País a devolver o sorriso e a confiança vilipendiados , dão de si o seu melhor para se reverter a actual situação.
Emprego, inclusão social, incentivos financeiros, revisão dos impostos aduaneiros e fiscais, fomento empresarial, protecção e segurança social, etc. etc. são as placas do tapete que empurram o novo governo para o sprint dos cem dias de mora.
A elite que nos governou até aqui mostrou-se demasiado propensa ao betão, e claramente desprezível quanto à faceta lúdica dos seus concidadãos. As centralidades são bem um exemplo disso.
Os mesmos erros parecem querer perseguir os novos timoneiros do Palácio da Cidade Alta. Ninguém vem  a terreiro falar, explicar-se , sobre a intenção do novo Governo em relação às leis especiais para o artista (como recomendado pelas organizações internacionais). Ninguém diz como normalizar o actual ambiente cultural no país, sobre os incentivos e fomento do empresariado cultural, a segurança e protecção social do artista, sobre o trabalho artístico estrangeiro no País, os direitos de autor dos artistas (pintores, dançarinos, músicos e respectivos conexos), etc.,etc.
O País até hoje não tem a Orquestra Sinfónica Nacional de Angola (coisa séria e não as brincadeirinhas que nos quiseram impingir), não tem  uma Companhia Nacional de Teatro de Angola, não tem uma Companhia Nacional de Dança na completa acepção da palavra.
Como um verdadeiro sinal de mudança de paradigma nesse sector, o Palácio dos Congressos deveria ser transformado em Palácio da Cultura, estruturado de modo a oferecer espectáculos de alto nível de produção,  a formar os referidos entes culturais acima citados, e disseminar pelo País adentro as Orquestras Musicais e Companhias de Dança e Teatro, municipais. Aliás, é aí no Palácio da Cultura onde se deveria constituir o Estado Maior dessas instituições culturais.
Neste entretanto dos cem dias, era bom que nos dissessem o que concretamente farão do Artista nos próximos cinco anos, para que esses elevem a sua auto estima, recuperem a dignidade da profissão através do trabalho permanente e duradouro e participem nos esforços para o melhoramento do bem estar dos seus concidadãos.
A cultura fortalece a Nação.
*Músico e compositor

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