Opinião

Em memória de Mamã Bia, mulher do “outro tempo”

Osvaldo Gonçalves

Mamã Bia, parteira antiga, um dia ficou doente. O neto-filho foi chamar o primo, este também neto dela, mas filho da filha, que estacionou o carro na porta e, depois de ver a velha, disse: “Vamos, então, no hospital”. Foi aí que ela rabujou: “Mas vucê não és dêtore? Me cura só, faxavor”. Ele disse que, afinal era só licenciado em Economia ou Direito, tanto faz. E tanto fez na hora, porque ela lhe olhou bem nos olhos e disse: “No outro tempo, os dêtores curavam as pêssoa”.

Este diálogo, um pouco recriado,apenas para ganhar espaço na crónica, reflecte bem o engano que tem gerado na população a chamada “doutormania” que grassa por aí. Mas a culpa não é apenas dos próprios; a comunicação social e as instituições públicas têm quota-parte nisso, já que, por exemplo, licenciados e pelo ISCED no Curso de Ensino da Filosofia são, amiúde, apresentados como “filósofos”, os de Ensino de Sociologia, “sociólogos”, os de Ensino de História, “historiadores”, e, como não podia deixar de ser, os de Ensino de Matemática, “matemáticos”. Só nos resta imaginar que títulos seriam dados àqueles que conseguem concluir o Mestrado naquela instiuição. E são cinco os cursos que dão acesso ao grau de mestre!
Mamã Bia morava na Ilha do Cabo. Trouxe para a luz da vida centenas de almas e até o colono a considerava. Desconhecia as causas do aquecimento global e o lixo eram apenas as folhas secas que caíam das árvores e as tripas do peixe, que costumava enterrar para estrumar as plantas, junto com as cascas dos ovos das cabiri que corriam livres no quintal. Quando fugiam para a rua, a velha chamava e elas voltavam.
Ela era, na verdade, avó de muitos netos. O reumatismo já não lhe deixava dançar no Carnaval e só rasgava estradinhas na areia quando a vinham chamar a casa, a qualquer hora do dia ou da noite, a dizer que fulana de tal estava com dores de parto, parece mesmo a hora estava a chegar. Doutra forma, era raro vê-la na rua.
Avó Bia tinha netos de todos os feitios e de todas as raças: uns magros, outros gordinhos; uns mais claros, outros mais escuros – até kilombos kya Hasa. “Cada um como cada qual, todos são filhos de Ngana Nzambi”. Fumava tabaco de kimbundu. Enrolava ela mesmo e punha a brasa para dentro da boca, mas quando a irmã, a Tia Minga, morreu de cancro no céu da boca disse: “Não fumo mais!” E nunca mais fumou.
Quando a Avó, Mamã, Tia Bia caiu no leito de morte, nós estávamos longe, perdidos por aí, na imensidão do Mundo ou de Angola – sabe-se lá. Não lhe sentimos na hora; sentimos só depois. Um sentimento muito aquém da sua grandeza, eivado de preconceitos estúpidos, como o de grandeza, esquecendo que, afinal, “no outro tempo, os dêtores curavam as pêssoa”. E nós nem doutores somos.
Mamã Bia, que o tempo levou e a memória teima em trazer-nos de volta a cada onda do mar que vem e volta, ao virar de cada página de qualquer livro, fica só bem...

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