Opinião

Entre tubarões e imbondeiros – esta chacina não!

Adebayo Vunge

Mais do que discutir ideologias, temos de salvar a Terra, porque não “há planeta B”. Dito de outro modo, independentemente do que possamos acreditar em termos ideológicos, a verdade é que estamos a viver um tempo que marca uma viragem histórica sobre os alicerces da humanidade.

O edifício construído em consequência da II Guerra Mundial começa a desmoronar-se.
Se os fundamentos da humanidade alteraram, também a natureza começa a dar sinais de desgaste, embora muitos de nós tardam em despertar para o problema. A natureza está a chorar e o ser humano começa a pôr-se a si mesmo em causa. Se nada for feito, já é visível o que poderá suceder, por exemplo, até ao final deste século.
Como dizia o director de um importante fundo de investimento, Larry Fink, citado pelo Financial Times, a despeito das emissões de gases de efeito estufa e as suas consequências sobre a alta-finança, vivemos uma década decisiva no sentido de evitarmos ou não a catástrofe.
Esta década que, como todos estamos a viver, fica marcada pelo surgimento de uma pandemia como há um século não se via. No fundo, da pneumónica aos nossos dias, há um conjunto de transformações que tornam emergente o debate sobre as alterações climáticas, cuja consequência mais evidente é o aquecimento da Terra.
Segundo Christiana Figueres, ex-secretária executiva da Convenção das Nações Unidas para as alterações climáticas, os custos da inação são alucinantes – 600 biliões de dólares até ao final do século.
Até aqui, apesar do subir de tom e do aumento do espaço sobre este debate, a verdade é que fizemos todos muito pouco para salvar o planeta, prejudicados por uma certa bipolaridade dos discursos que torna o tema alvo de peleja entre optimistas e pessimistas, esquerdistas verdes e neo-liberais de direita, no lugar de assumirmos globalmente um compromisso em favor da diminuição das emissões de gases com efeito de estufa em defesa das futuras gerações.
Curiosamente, isso é mais evidente entre os mais poluentes. Fruto das medidas de confinamento, assistimos – entre o sorriso e o espanto – ao regresso dos animais a lugares inesperados e outros nem tanto, como o regresso dos pinguins à Austrália. Assistimos – entre o sorriso e o espanto - ao céu límpido e azul em Los Angeles, sem o habitual véu cinzento de poluição, como se vê também em Paris, Pequim ou Luanda… por momentos, a Terra voltou a respirar melhorar.
Um dos sinais deste fenómeno é a degradação dos solos em vários países, agravados com os episódios recorrentes de seca, o degelo das zonas polares, para além, do que é a outra face da moeda, a industrialização excessiva da agricultura, com consequências nefastas sobre o aquecimento e a perda da biodiversidade – o que muitos cientistas associam ao aparecimento do vírus - e o seu despesismo em termos de recursos financeiros contra a sua capacidade de produção e de satisfação das necessidades alimentares. É a agricultura familiar que alimenta 70% da população mundial e tem apenas 25% dos recursos empregues globalmente para a agricultura.
O que a pandemia tornou igualmente evidente é a necessidade de avançarmos também para a transição energética, substituindo-se assim as energias fósseis por energias renováveis. Um dos temas de fundo subjacente a este debate, como referimos no nosso artigo da semana passada, prende-se com a necessidade de abandono do petróleo, gás e carvão como as principais fontes de energia. No seu lugar, as energias verdes (eólica, solar, hidroeléctrica, etc.) são alternativas cada vez mais viáveis. Daí, fazer todo o sentido, e como sucede também como os grandes players da indústria petrolífera, que a Sonangol possa preparar-se para o futuro apostando urgente e massivamente em energias renováveis - que por agora é cara, mas é incontornável num prisma futuro de recuperação económica pós-Covid. Outro factor curioso é que os ambientalistas acreditam que “o petróleo barato é um atentado ao ambiente”.
Mas se os efeitos da acção humana são por demais evidentes, o que não é sensato é a sensação de inação ou o silêncio conivente. E no nosso país tem vindo também a suceder-se um conjunto de sinais que devem fazer soar o alerta. Em primeiro lugar da denúncia, mas fundamentalmente no sentido de fazermos alguma coisa para reverter o rumo pois a natureza “não ataca” de forma selectiva.
Se a seca é por demais conhecida, e essa é uma catástrofe cíclica com que temos de lidar, o que não faz sentido é acrescentar ao que já é mau elementos de quase barbárie como é o caso das imagens que recentemente circularam nas redes sociais denunciando uma chacina de tubarões em algumas praias de Angola, mormente em Cacuaco e Baía Farta. Os pescadores, alerta o vídeo, fazem-no apenas com o propósito de cortar as barbatanas. E não ficamos por aqui, é com profundo incómodo e indignação que olhamos para a primeira página do Jornal de Angola deste domingo, dia 27 de Setembro, e temos em título “Adeus, imbondeiros” com toda a perplexidade do mundo, árvores milenares, símbolos da nossa identidade, com raízes profundas na nossa cultura, sofrem “um abate sem precedentes”, numa área equivalente a 33 campos de futebol na zona do Sequele, em Luanda para darem lugar a casebres. Reparem não é lá longe, na Amazónia ou noutro lugar do mundo – o que mereceria sempre a nossa consternação – não, é aqui, na nossa terra, perante o nosso olhar e a nossa indiferença. Não pode ser... não pode acontecer!
Por junto e atacado, foi com expectativa e esperança que assistimos à criação de um superministério, à frente do qual foi colocado um promissor quadro angolano, no qual depositamos confiança até sob o prisma da renovação geracional do poder. No lugar do dinamismo em prol destas causas e de políticas, vemos desgarrado, mudo e insolente. Ver cair estes imbondeiros, confesso, é também para mim ver cair essa esperança.

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