Opinião

Erros de ortografia

Osvaldo Gonçalves

O propósito desta crónica (que esperamos tenha alguma graça) é, antes de mais, convidar o leitor para uma reflexão sobre um tema que toca a todos: a escrita da Língua Portuguesa. Quando nos rimos porque alguém comete um erro grave de ortografia, somos tentados a culpar tudo e todos, em particular o sistema de ensino, sem nos darmos conta, muitas vezes, das falhas que cometemos ao fazer tais críticas.

As redes sociais são terreno fértil para o cometimento desse tipo de falhas e para as respectivas capicuas. A moça, posta uma fotografia em que está acompanhada da colega na festa de formatura do ensino superior com a seguinte legenda: “Mição comprida”. Foi mais dura a tarefa de percebermos o que a rapariga queria dizer. Porém, mais grave ainda foi lermos o comentário de um dos críticos de plantão: “So deus nó comando”.
Em tempos, noutra postagem, um rapaz congratulava-se por ter terminado o ensino médio e acrescentava: “Faculdade Agustinhu Netu mim aguarde”. Num dos comentários, um internauta escreveu: “Conheço bem o... Isso é feiki news”. Já lemos coisas bem piores, mas, como é óbvio, não vamos aqui reproduzi-las, afinal, este é um jornal para a família.
Discordamos por completo daqueles que dizem ter os erros de ortografia a ver com o facto de escreverem em português, o que se torna mais difícil por não ser a sua língua materna. O problema é que não podem fazê-lo de outro modo, simplesmente por não pescarem nada nalguma língua nacional. Nem falar, quanto mais escrever...
Reproduzir em texto o linguajar das pessoas não é tarefa fácil. Alfredina Nery, graduada em Letras, mestre em Psicologia da Educação e assessora pedagógica de duas prefeituras no Brasil, num artigo intitulado “Língua escrita e oral - Não se fala como se escreve” (https://educacao.uol.com.br), usa um comentário do escritor e humorista Jô Soares para a revista “Veja”, na introdução do tema, que diz assim:
“Pois é. U purtuguêis é muinto fáciu di aprender, purqui é uma língua qui a genti iscrevi ixatamenti cumu si fala. Num é cumu inglêis qui dá até vontadi di ri quandu a genti discobri cumu é qui si iscrevi algumas palavras. Im purtuguêis não. É só prestá tenção. U alemão purexemplu. Qué coisa mais doida? Num bate nada cum nada. Até nu espanhol qui é parecidu, si iscrevi muinto diferenti. Qui bom qui a minha língua é u purtuguêis. Quem soubé falá sabi iscrevê.”
A professora refere que “em todas as línguas, as pessoas falam de um jeito e escrevem de outro”. Longe de nós defendermos uma “ditadura da língua”, mas, partindo do princípio de que “A grafia é uma tecnologia de comunicação, historicamente criada e desenvolvida na sociedade humana, e basicamente consiste em registar marcas num suporte” (https://pt.wikipedia.org), julgamos ser de bom tom cada um cuidar-se ao máximo para não sair por aí a dar pontapés na gramática e na ortografia.
Notamos que muitas vezes, quando alguém se refere ao calão e à gíria angolanos, inclui expressões linguísticas que, a nosso ver, vão muito além de simples erros de português para expressarem sentimentos reais, profundos, tão reais e profundos que o domínio que se tem da língua não permite alcançar.
Colocar num mesmo pote termos como piteu, kikuaxi, tungo, kibua, ou mesmo formas mais complexas, como caular, gamar, galar e frases completas (e até complexas), como “se dar encontro” com alguém ou ter ido a casa deste e “lhe encontrar não estava lá” não nos perece curial.
O pensamento cresce com o domínio da língua, mas esta, sobretudo se nos for imposta, nem sempre é capaz de reflectir por palavras o pensamento na sua plenitude. “No dia dos acontecimentos, você viu o acusado?” – interroga o juiz. “Ver só, eu não lhe vi. Se dei mesmo encontro com ele!” – responde a testemunha. Num cenário hipotético, a expressão tanto pode servir à defesa, para confirmar que fulano estava noutro sítio que não o local do crime, como à acusação, que é mesmo essa a pessoa de quem se fala.
Entretanto, é-nos difícil aceitar que se atribuam as culpas da deficiente formação em Língua Portuguesa apenas aos estudantes. Quando um licenciado escreve com gritantes erros de ortografia, as pessoas deviam perguntar não apenas como conseguiram atingir esse patamar, mas quem permitiu que tal acontecesse.

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