Opinião

Escrever, segundo Aguiar dos Santos

Arlindo dos Santos

Principiei a escrever este texto na segunda-feira, dia 29 de Junho, dia do aniversário do meu irmão Quim. O Quim era o jornalista Aguiar dos Santos, que nos deixou há oito anos.

Não partiu em vão. Deixou para a sociedade a sua marca bem vincada no jornalismo angolano e, devo confessar, é com emoção e orgulho que nós, os membros da família, verificamos não serem poucos, entre correligionários, antigos colegas, amigos e simples leitores, os que o elogiam. Pugnou incansavelmente pela melhoria de qualidade da escrita jornalística na imprensa angolana, vontade que, não tenho dúvida nenhuma, resultava do seu apego à leitura. O Quim era um leitor nato, um viciado da leitura, lia tudo o que havia para ler, não conseguia adormecer sem ler o trecho de um livro, a página de um jornal ou revista, a mais vulgar publicação, por mais antiga que fosse. O Quim inventava formas e sítios mais incríveis para ler. Acreditem, não exagero. Apegava-se a uma verdade que é indesmentível e da qual muita gente faz eco. Há pessoas que afirmam, “quem não lê, não sabe escrever, não sabe pensar, não sabe fazer”. E é verdade, porque a leitura abre-nos portas mentais para o conhecimento. Assim pensando, eu julgo que o Quim nasceu já jornalista. Ele chegou ao jornalismo numa idade em que os jovens eram e são encorajados para se desviarem da precisão e da clareza da notícia. Em que alguns, infelizmente, para além de desvirtuarem a verdade, até se tornam mercenários das suas práticas discursivas. Mas ele nunca se desviou. Irreverente como poucos, intransigente nos seus princípios, jamais se deixou corromper, ganhou inimigos, alguns de grande estimação. Adorava a intriga que é intrínseca ao texto escrito e apanágio da actividade jornalística, gostava de ver gente importante a gaguejar, era um excelente entrevistador. Era muito chato nas suas proposições, nos seus questionamentos.
Não posso garantir que seja cem por cento verdadeiro, mas o que, de algum modo, me leva a assumir a autoria de uma crónica semanal no Jornal de Angola, e não é tarefa fácil, podem crer, não deixa de ser um tributo que faço ao Quim, um pouco ao meu irmão mais novo, mas em grande medida ao jornalista Aguiar dos Santos. E muitas vezes me vejo a pensar nele, a recordar e a vê-lo, nos trejeitos que eram só dele mesmo, a dizer resmungando como era seu timbre, que era uma pena não haver rigor na imprensa escrita angolana, que era vergonhoso escrever-se tão mal. E gabava mestres da caneta como Norberto de Castro, Moutinho Pereira e David Mestre, Siona Casimiro, Mena Abrantes e Graça Campos, entre outros poucos que escreviam bem como Gustavo Costa e João Melo. O que diria hoje o meu irmão perante a qualidade da imprensa dos nossos dias? Como reagiria perante textos incríveis na sua mediocridade de conteúdo e apresentação, como ficaria diante da gritante ausência de uma massa crítica no jornalismo, bastas vezes a raiar a fronteira do horrível?
Oito anos se foram sem a sua presença. O tempo tem passado com uma velocidade terrível. A mesma dos comboios de alta velocidade que ele e eu, e todos nós, sonhamos um dia poder gozar, que veríamos a cruzar território nacional livre, a encurtar distâncias, a carregar gente e mercadorias, a fazer Angola crescer. Vieram outros comboios de menor velocidade a andar em linhas diferentes da bitola existente do tempo colonial, o que, gorando as nossas expectativas, nos foi impossibilitando o usufruto desse meio na Angola sonhada. Ficou difícil, está a ser penoso afastarmo-nos daquela visão inferiorizante do homem negro em que crescemos.
Medito e pergunto muitas vezes, porquê? O que escreveria ele, se estivesse entre nós, por exemplo, sobre os parques de estacionamento de teatros e cinemas tomados brutalmente pela argamassa de edifícios que a ganância fez nascer? Sobre os Shopings idealizados, nitidamente para matar cidades e a sua cultura? Como reagiria o jornalista Aguiar dos Santos ao ver feita notícia de abertura na comunicação social estatal, a chegada de um avião, festejada com pompa e danças de carnaval? Provavelmente de uma forma como nunca eu fui capaz de fazer.
Não me surgem mais palavras, também não são precisas mais. Até sempre, meu irmão e camarada, até sempre, Aguiar dos Santos!

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