Opinião

Esperando a época das pitaias

Adriano Mixinge

Desde que eles vivem em Luanda esperam, ansiosamente, a temporada das pitaias: gostam da fruta e desfrutam comendo-a. Tão cara é esta fruta na Europa, que o normal é comprá-la em pouca quantidade e por encomenda: vê-las aos montes nas ruas, nos mercados e nos supermercados da cidade é um pequeno detalhe, que sempre se agradece.

Na tarde de domingo passado, eles aperceberam-se que a pitaia é o fruto de uma variedade de cactus. Elas são tão escamosas que, também, chamam-lhes de fruta-dragão: podem ser vermelhas por dentro, mas com pele rosa, brancas com a pele amarela ou brancas com a pele rosa. As podemos comer cruas, têm quantidades significativas de antioxidantes, fibras e minerais, principalmente o zinco e o ferro, informações estas que, agora, para eles são pouco significativas.
Se eles hoje esperam ansiosamente a época das pitaias, é porque, - e isso é o relevante-, quando eles foram viver juntos, pela primeira vez, ele descobriu que ela gostava de plantas e de flores, muito mais do que ele alguma vez se apercebera ou imaginara. Sem necessidade de formalismos, numa espécie de pacto mudo, eles passaram a frequentar viveiros e jardins: ela passou a comprar sementes, estrume, areia preparada e insecticidas, com a mesma frequência com que faziam as compras correntes da semana, para casa.
Desde que a conhecia, todas as casas em que ela viveu tiveram sempre um pequeno balcão, quintal ou uma varanda em que ela, em pequenos vasos de plástico, plantava as flores que mais gostava. Algumas vezes, atreveu-se a plantar tomates cherry, - aqueles que têm o tamanho das cerejas - ou, também, a plantar morangos e, todas as fases, do florescimento à aparição do fruto, ela as acompanhou com o empenho de uma parteira.
Quando ele a visitasse, havia sempre um tempo morto, entre uma leitura, um filme ou um simples gesto de carinho que, depois, numa harmonia secreta, ela terminava transferindo-o com a mesma delicadeza às folhas de um arbusto, a uma planta a florescer ou aos troncos de uma trepadeira: o hábito foi-se desenvolvendo e enrolando-se à vida deles com parte de uma ordem que se tornou perene.
Quando fossem visitar borboletários, jardins, parques naturais ou ilhas famosas pela exuberância das suas espécies florais e pelas peculiaridades da sua fauna, naqueles instantes, nos olhos dela surgia sempre um brilho tão peculiar como indescrítivel. O tempo que durasse a visita, ela passava esboçando sorrisos ou a expressar a sua satisfação, enquanto respirava, ao ritmo de cada passo.
Num dia qualquer, desajeitado que ele sempre foi mais para agradá-la do que por uma vontade espontânea dele, com as compras de casa que fez sozinho, decidiu trazer um cactus a casa, pensando que ela agradeceria: ela até o fez, mas, ficou surpreendida, quase em choque, por essa escolha anódina e nada acertada. Recebeu a planta a contragosto pensando, no fundo, que a planta não sobreviveria, ignorando que os cactus, normalmente, são muitos resistentes.
Aquele cactus passou quinze anos na casa e na vida deles. Durante anos, quando ela quisesse gozar com ele recordava-lhe aquele gesto considerado, na altura, desafortunado: que homem é esse que, em vez de oferecer a flor preferida à mulher – a gerbera, uma planta ornamental da família das margaridas e dos girassóis-, oferece uma planta cheia de espinhos, que ela nem poderia tocar, própria de zonas áridas e com uma cor fria como é a cor verde?
Na vida, há evidências que, por razões inexplicáveis, passam todo o tempo como se estivessem camufladas e tardamos muito tempo em vê-las, em reconhecê-las e inclusive nem sempre chegamos a compreendê-las realmente: umas são agradáveis e outras nem tanto. No entanto, elas aí estão como cada linha na palma das nossas mãos.
Para eles esperar a época das pitaias, - frutas de uma variedade de cactus -, é tão prazeroso como frequentar viveiros, parques naturais ou jardins botânicos: por vezes nem nos apercebemos, estes são pequenos detalhes que nos fazem falta, na imensa agitação da vida, em Luanda.

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