Opinião

Esta é a nossa memória

Manuel Rui

Andava pelos grandes espaços como agora são chamadas as lojas que têm tudo até pessoal português, procurava, para oferecer, um livro meu de que já só tinha um exemplar e havia desaparecido num ápice após o lançamento, “A Acácia e os Pássaros” que mexe com direitos humanos fazendo apelo ao pensamento de Chomsky no que concerne a manipulações.

Quem sabe se o livro foi mandado queimar por algum demente. O que está mal! Mas não foi tempo perdido. O meu motorista era da Coligação, o meu amigo antigo que faz de mordomo limpa o quintal e me conta estórias foi guerrilheiro da UPA e votou na FNLA, admiro a sua convicção e se tivesse estudado o seu ministério preferido seria o das Finanças. Vamos no carro a ouvir uma estação de rádio que propala que a cidade está pejada de carros com soldados de um lado para o outro e como eu procurava um medicamento que raras vezes encontro, corremos por uma boa parte da cidade e afinal não encontrámos os tais soldados, riamo-nos os três, depois que João Lourenço falava pior que Beto Cangamba, era demais a raiva, não era protesto mas embaraçar as linhas de propósito. O que está mal. Depois a tal grande superfície, a farmácia, o livro nicles e a descoberta: um vídeo. INDEPENDÊNCIA – ESTA É A NOSSA MEMÓRIA. Verifiquei. Era da ASSOCIAÇÃO TCHIWEKA DE DOCUMENTAÇÃO, uma entidade que cresceu jovem e se transformou, em meu entender, na melhor organização social de Angola, que me perdoe a União de Escritores que já foi mas na história foi a primeira com íntima ligação à Dipanda. O que está bem.
Vi o vídeo a limpar lágrima e não vi logo uma segunda vez com medo de agredir o meu coração. O que mais me tangeu, para além da qualidade, foi a isenção que transborda para uma pedagogia necessária a toda a sociedade civil e aos partidos políticos para se reverem na gloriosa luta armada de libertação, contextualizando os erros que se repercutiram até aos nossos dias.
O nascimento do MPLA, da UPA-FNLA e da UNITA. Toda esta obra de arte tem uma espécie de refrão martelado, são páginas do diário de Deolinda, a guerrilheira escritora, páginas faladas em boa dicção que, só por si, engrandecem ainda mais aqueles que entregaram a juventude, alguns a própria vida para que Angola chegasse à independência.
Fica a perceber quem não sabia, que a pior doença foi não termos conseguido unir os três movimentos. Quem sabe, teríamos adiantado a independência uns vinte anos. São muitos os depoimentos de compatriotas que lutaram nas fileiras dos três movimentos. Agostinho Neto tentou a união mas não conseguiu. Era o tempo da guerra fria e tudo passava pelos dois blocos. Pior que a conferência de Berlim quando o ocidente repartiu África a régua e esquadro.
Agora, na guerra fria, os movimentos iam ser marcados e demarcados por razões endógenas e exógenas. Nas endógenas, o MPLA era caracterizado por um grupo de intelectuais de intenção marxista-leninista e multirracial. A UPA-FNLA por um movimento de absorção do ideário Fanoniano que vão marcar os primeiros ataques no norte de Angola que puseram Portugal em pânico e de ligação estreita ao Zaíre de Mobutu. A UNITA com figurino baseado na língua regional mais falada, o umbundo e, mais tarde, com um formato de guerrilha inspirado na longa marcha de Mao, na China. Quer a FNLA quer a UNITA tinham apoio do Ocidente mais por lutarem contra o “comunismo” do que contra Portugal.
Os três movimentos podiam não ter coabitado. Mas o maior erro foi tornarem-se inimigos. A FNLA marca-se por assassinatos como o das heroínas e a UNITA por outros tantos. Mais tarde, isto já não é do vídeo, a UNITA ultrapassava a aliança da FNLA com o ditador Mobutu para se encostar ao mais hediondo regime que a história do século passado conheceu, o apartheid.
Se a FNLA e a UNITA tivessem cumprido os acordos e ficassem em Luanda para as eleições (já tínhamos discutido a Constituição) o país teria sido outro. Mas mandaram-nos sair como Portugal também saiu. Porque sabiam que perdiam as eleições a favor do MPLA. E o MPLA ficando a governar só ganhou a força que os outros perderam... outro dia uma escritora angolana falava para a TPA-ÁFRICA e dizia da felicidade de ver a bandeira portuguesa descer e a nossa subir. O que está mal. Erro de palmatória. Aqui não desceu nenhuma bandeira, só subiu uma. A primeira, feita à pressa por costureiras está comigo. E esta!
Desfuturizando, os Movimentos de Libertação nunca se deviam ter transformado em partidos... para não continuarem como dantes. Os partidos deveriam ter sido constituídos aqui, depois do 25 de Abril português. Mas voltando ao vídeo, contém depoimentos de grande empatia, apoiados em bom trabalho de imagem, som e fotografia, fugindo à colagem de postais e introduzindo o sujeito espectador no imaginário de um sonho que se tornou realidade. O que está bem. Acaba com a proclamação da independência e tem entrevistas dadas no estrangeiro (naquele tempo) por Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade ou Holden Roberto que nos fazem voltar a um passado e a uma herança. Comprem... mesmo que continuem a ver a princesa Ginga numa coboiada... e como diz um cantor residente na Melói, penso, a princesa “boa como o milho”.
Este vídeo é do melhor que já se produziu em cinema aqui em Angola. Parabéns ao produtor Paulo Lara e toda a equipa jovem mais a valiosa prestação da historiadora São Neto. Era bom que agora fizessem um filme sobre depois da independência... que material não falta.

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