Opinião

Estados Unidos Vs República Islâmica do Irão

Eduardo Beny

Desde que os Estados Unidos da América se retiraram unilateralmente, em Maio, do acordo sobre o programa nuclear iraniano, assinado em 2015, a ofensiva contra a República Islâmica do Irão entrou numa nova fase e os iranianos parecem não estar muito preocupados com isso.

Os Estados Unidos da América acusam o Irão de ter deixado de cooperar com a comunidade internacional, a não esclarecer a natureza do seu programa nuclear, enquanto os iranianos se defendem dizendo que são os norte-americanos que jamais cumpriram com os compromissos assumidos.
No dia quatro de Novembro próximo, deve entrar, em vigor, as novas sanções económicas norte-americanas, visando asfixiar, economicamente, o Irão, mediante a proibição das exportações de petróleo e a privação do acesso ao dólar norte-americano.
Para os aliados europeus dos Estados Unidos, que reafirmaram a sua vontade de salvar o acordo de 2015 – Alemanha, França e Reino Unido – a nova estratégia adoptada por Washington tem consequências particularmente dramáticas, tanto políticas, como económicas.
Politicamente, o conjunto europeu revela a sua incapacidade de propor uma alternativa credível ao ultimato dos Estados Unidos que ameaçam de represálias os Governos e as empresas que continuem a ter relações com o Irão, depois do quatro de Novembro.
Economicamente, as tensões no mercado petrolífero,  a subida do preço do petróleo e as ameaças sobre as exportações de crude e de gás comprometem a frágil recuperação da economia da zona do euro.
Com efeito, Teerão não descarta a eventualidade de fechar o estreito de Ormuz – que faz ligação entre o Golfo Pérsico com o Oceano Índico – por onde transita um terço das exportações mundiais de hidrocarbonetos da Arábia Saudita, Bahrein, Iraque e Koweit. Em suma, trata-se do “principal ponto estratégico de passagem no mundo, em termos de quantidade e todos os petroleiros que carregam nos países do golfo têm de passar por este estreito rumo à Ásia, Europa e Estados Unidos da América”.
Se a Rússia e a China já condenaram a tentativa americana de asfixiar economicamente o Irão e garantem que não alinharão com o bloqueio, a União Europeia não foi capaz de oferecer garantias suficientes ao Presidente Hassan Rohani, durante as visitas que este efectuou às várias capitais europeias, no início de Julho, para que o Presidente do Irão não abandone o acordo e retome o seu programa nuclear.
 Enquanto o Banco Europeu de Investimentos ainda não obteve a “luz verde” das instituições europeias, para apoiar financeiramente as empresas europeias que desejam continuar a fazer negócios com o Irão, as grandes multinacionais obrigadas de escolher, entre os Estados Unidos e o Irão, já começaram a abandonar o país dos aiatolás. É o caso das empresas francesas Total, PSA e CMA-CGM, este número três do transporte marítimo, por contentores, assim como de vários bancos alemães. De recordar, entretanto, que o programa nuclear iraniano foi lançado, pelos Estados Unidos da América, como parte do Programa Átomos para a Paz. O Irão é signatário do TNP – Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares que “proíbe o desenvolvimento dessas armas” mas, em contra partida, garante ao Irão o direito de  “dominar a tecnologia nuclear para fins pacíficos.
O certo é que, mais tarde, precisamente depois da Revolução de 1979, o Governo iraniano abandonou o acordo, o que levou os Estados Unidos da América a colocá-lo na mira, depois da invasão do Iraque.
Este entendimento alcançado, em Julho de 2015, em Lausane, na Suíça, conhecido pela sigla P+5 foi considerado por Barack Obama, como “acordo histórico que deve afectar decididamente as relações, entre os países do Médio Oriente, como a Síria, Iraque, Iémen e o conflito, entre Israel e Palestina”.
Que solução?
Para Amos Yadlin, ex-chefe dos serviços secretos israelitas e actual Director do “Institue for National Security Studies”, nem o acordo de 2015, nem uma intervenção militar, resolveriam, de forma duradoura, os problemas que o Irão coloca aos Estados Unidos da América e aos seus aliados regionais, Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes. A única solução seria o derrube do regime vigente no Irão e o regresso à situação anterior a 1979. Esta, segundo alguns observadores atentos, parece, cada vez mais, ser a opção preferida pela Casa Branca, desde que o Pentagono convenceu os principais conselheiros de Donald Trump, John Bolton e Mike Pompeo da impossibilidade, no contexto actual, de reeditar as intervenções militares no Iraque e na Líbia, que conduziram á eliminação de Saddam Hussein e de Khadafi.
Há quatro décadas que se coloca a questão: qual é o melhor caminho, para atingir um bom relacionamento, entre os Estados Unidos da América e o Irão, tendo em linha de conta que o actual “status-quo” divide os adversários do regime iraniano, incluindo a oposição interna? Pela segunda vez, a eleição do “reformista” Hassan Rohani, em 2013, pareceu dar razão aos defensores de uma abertura progressiva pró-ocidental, como acontecera com a de Ali Khamenei (1981-89) e o acordo de 2015 era uma tentativa de reforçar esta corrente “moderada” contra os “conservadores”  que tinham levado ao poder Mahmoud Ahmadinejade (2005-2013).
No comício anual da oposição, organizado, no início do ano, nos arredores de Paris, pela organização dos Mujahidins do Povo, Newt Gingrich e Rudolf Giuliani, eminentes personalidades politicas americanas, exortaram os iranianos a “escolher” o regime sob o qual pretendem viver, assegurando que o Presidente Trump estaria a favor da mudança, obrigando o Departamento de Estado a publicar um desmentido oficial. Mas, posteriormente, o próprio Trump comentou nas redes sociais as manifestações de descontentamento em curso no Irão, saudando a “coragem” dos grevistas e prometendo ajudá-los “no momento oportuno”.
A ideia é que as novas sanções, “as mais duras de sempre, hão de tornar a vida impossível aos iranianos para que o desespero os obrigue a se sublevar e a derrubar o regime no seu todo, sem distinção entre “moderados” como Rohani e “radicais” como os Guardiões da Revolução e o “Guia Supremo”, função agora desempenhada pelo outrora “moderado” Khamenei.
Como é evidente, as sanções, particularmente, no domínio económico produzem um efeito devastador. Por exemplo, o Irão, em 1974 produzia, no seu “nível mais elevado” 6 milhões de barris/dia. “Trinta anos mais tarde, a produção atinge menos de 4 milhões de barris/dia”, segundo o francês Philipp S. Lopez, que encontra razão para tal, não só devido ao declínio de determinados campos, mas também por falta de manutenção das infra-estruturas, em parte, por causa do embargo americano.
O Irão ocupa o 10º lugar, no “top ten” dos países reconhecidos com capacidade nuclear, atrás de Israel; pertence ao grupo dos países do Médio Oriente, onde estão concentrados cerca de 60 por cento das reservas petrolíferas mundiais: Arábia Saudita, Iraque, Koweit, Emirados Árabes Unidos. Por seu lado, os EUA “apesar dos 294 milhões de americanos não representarem  senão 4,5 por cento da humanidade absorvem cerca de 25 por cento do consumo mundial de petróleo e de gás.  Os hidrocarbonetos constituem, assim, um dos pilares do poder dos Estados Unidos, mas, também, uma das suas raras fraquezas”.
Como no caso da Líbia, o que aconteceria no Irão depois da queda do actual regime, ou o eventual aproveitamento político da actual situação pelos radicais não parece preocupar os estrategas da “linha dura” que garantem a Trump que a próxima revolução iraniana está ao virar da esquina e acontecerá dentro de semanas ou meses. Não lhes falta argumentos: a moeda iraniana já perdeu metade do seu valor, desde o início do ano e a carestia levou, em Junho, a uma inédita greve dos comerciantes dos mercados de Teerão e das principais cidades. Mas, alguns analistas, conhecedores da história recente do Irão, advertem que a revolução de 1979 foi também uma revolução popular e que o clero xiita conseguiu o controlo do poder mediante uma serie de medidas sociais (reforma agrária, subsídios, etc). Que beneficiaram a maioria da população.
 Os conservadores não se privam de argumentar que Rohani, com o seu programa de luta contra a corrupção e de liberalização da economia, levou o país a um impasse: nenhuma das expectativas criadas pelo acordo de 2015 se concretizou, as sanções não foram levantadas e os projectos de investimentos, que ficaram por realizar, estão agora mortos. Quarenta anos de embargo e um milhão de mortos na guerra contra o Iraque, incitam os iranianos á desconfiança. Não querem outra Revolução, apenas sobreviver e podem ser tentados de imitar a Coreia do Norte se a única alternativa que se lhes oferece é o regresso ao antigo regime e a entrega do petróleo às multinacionais estrangeiras.
É a guerra, por outros meios, com o petróleo, a permeio!


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