Opinião

Estátuas a serem derrubadas

Manuel Rui

A crueldade das mentiras oficiais a que chamaram história, foi ela própria que corroeu o verdete com a podridão sórdida da glória testemunhada pelos esqueletos no fundo dos mares.

Os homens eram obrigados a sair da lavoura para irem para o mar onde aprendiam a ser marinheiros até se organizar uma escola naval por conta do concessionário irmão do rei. Começaram a organizar as primeiras invasões. Tiveram revezes no norte de África onde perderam um rei em combate e criaram o mito de que regressaria numa manhã de nevoeiro.
Depois, chamaram de achamentos, mais tarde descobrimentos àquilo que na verdade foram invasões. Vinham de alto mar para costa, atacavam, matavam, roubavam gado, faziam a aguada, algumas vezes pacificamente mas levavam alguns habitantes dali que conheciam outro lugar para fazerem o mesmo e assim foram navegando guiados pelos africanos e por terem visto gente com cor negra, decidiram chamarem-se brancos que não são, por isso os índios no Brasil os designavam não por brancos mas caras pálidas e na minha terra, no Huambo, eram ovindele e não os brancos. Inventaram a descoberta do caminho marítimo para a Índia quando foi um armador monhé de Moçambique que viajava em negócios para a Índia que levou até lá os portugueses, sem mostrengos nem boa esperança que a cidade chama-se cidade do Cabo e o cabo já existia com pescadores muito antes. Como as cataratas de Vitória…foi só mudar o nome.
Desculparam-se com o facto de que a escravatura já existia. É verdade que depois das guerras os derrotados ficavam escravos dos vencedores mas não saíam de suas terras, não perdiam a língua nem mudavam de continente. O problema de fundo não era a escravatura mas o esclavagismo, um sistema com as suas estruturas. A estrutura de construção naval que evoluiu para a caravela de estética inegável ainda hoje e navegabilidade evoluída. Havia a estrutura económica que era o trabalho escravo. A estrutura ideológica era a inquisição dominada pela ordem dos jesuítas. Esta organização, em si, como a coragem de caminhar para o desconhecido confundindo a Índia com a América não deixa de ser espantosa.
Com este sistema deslocaram-se milhões de angolanos de um continente para outro, algemados, com grilhetas e para sempre afastados de suas terras e suas culturas. Foi aquilo a que agora os antropólogos e sociólogos chamam de epistimicídio, o genocídio da parte existencial do ser. Foi a maior movimentação demográfica forçada que o mundo conheceu, violenta e desumana.
Se na escola nos tivessem ensinado a história verdadeira, hoje ninguém andaria a derrubar estátuas.
Se nos tivessem ensinado que o Padre António Vieira foi um esclavagista que ia ao reino representar os fazendeiros para se obterem mais escravos para as plantações de tabaco, cana ou trabalho duro nas minas, que inventou um sermão para convencer os negros a aceitarem a escravatura para depois da morte serem recompensados com a ida para o céu e que não defendia nada os índios…os índios é que nunca aceitaram trabalhar, se nos tivessem ensinado isso, agora não andavam a deitar estátuas abaixo. E não vale a pena esconder hoje que todos os monumentos dedicados aos chamados descobrimentos têm por base o esclavagismo, a mentira sobre a falsa viagem de Magalhães que ia às ilhas Molucas buscar especiarias para Espanha…traindo o tratado de Tordesilhas em que essas ilhas, no mapa da terra plana eram de Portugal. Magalhães, corsário, morreu em combate e o seu sucessor, já a maior parte dos barcos naufragados voltou a fugir, quis vir pelo mesmo rumo e enganou-se…deu a volta.
Se nos tivessem contado isto nas escolas, hoje não andavam a deitar estátuas abaixo.
E nunca pediram perdão como fizeram os invasores e genocídas da Austrália.
Acho que nunca é tarde para a verdade e a organização dos países de língua oficial portuguesa, organizações regionais africanas e a Unesco deveria, com urgência, deitar mão na matéria e colocar a história para limpar as mentiras oficiais.
Pessoalmente, o que importa é a verdade da história e sou contra o derrube de estátuas quando elas fazem parte da história, demonstram a forma como o ocidente encarou o outro, abaixo da linha abissal de que fala Boaventura de Sousa Santos e a necessidade de uma ecologia dos saberes.
No caso de Angola retirámos as estátuas com respeito e fez-se um museu em Luanda. No Huambo é mais bonito: as estátuas coloniais estão à frente da Casa da Cultura no edifício colonial que antigamente era a câmara municipal. As estátuas estão sobre a relva e eu passando, perguntei a um grupo de estudantes quem era aquele…sabia que era Norton de Matos o fundador de Nova-Lisboa e do caminho de ferro de Benguela a mando do inglês Robert Williams. Acrescentou outro estudante que o inglês, porque as populações se recusavam a trabalhar na abertura da linha, mandou Norton de Matos que chamasse a tropa matar todos os reis do Bailundo e assim, as populações sem chefias teriam de se render ao trabalho da linha férrea.
Fiquei contente. Lembro-me que quando se retiraram as estátuas alguém nas reuniões que antecederam a decisão, falou que Maria da Fonte havia sido uma mulher de valor histórico. Logo alguém perguntou se havia estátua de Joana d?Arc em Portugal…
Sou contra o derrube das estátuas porque correspondem a uma ideologia da época e os que as mandaram erguer estavam convencidos de suas razões.
Não derrubem as estátuas. Multipliquem os valores que podem salvar a verdade, a paz e o amor.

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