Opinião

Estupros sem graça

Sousa Jamba

Uma jovem cómica angolana gravou um videoclipe a circular nas redes sociais em que alguém meteu legendas em inglês e que está a ser partilhado no mundo anglófono. No videoclipe, a jovem diz que gostaria muito de ser violada pelo Neymar -- o jogador brasileiro que está a lidar com acusações de ter violado uma modelo em Paris. A cómica angolana diz que ela própria é que iria indicar ao Neymar qual é a melhor posição para a violação. A mesma insiste que se Neymar viesse a Angola para violar meninas, haveria uma longuíssima fila delas à espera no aeroporto. A cómica afirma que é sonho de toda a mulher ser violada por um Neymar.

Cá está um bom exemplo de como a ironia está muito ligada à cultura. Há sobre isso um ensaio clássico, intitulado “Uma Proposta Modesta”, da literatura inglesa, do grande escritor Jonathan Swift. Escrevendo no século dezoito, quando havia o dito "problema Irlandês", ele sugere que a melhor forma de acabar com o mesmo seria transformar os bebés irlandeses em comida que estaria à venda. Quem não perceber o contexto em que o padre escreveu, poderá pensar dele como um pervertido sem coração. Muitos estão a julgar a cómica angolana como sendo uma ingénua sem vergonha.
Uma vez, na Irlanda, eu estava a dar uma palestra a estudantes em Dublin quando disse que durante a minha infância houve uma guerra civil no meu país, Angola, e que tivemos que comer todos os lagartos que estavam no mato. Na Inglaterra, muitas crianças riam-se quando eu contava isso; na Irlanda, ninguém se riu. Uma madre que estava por perto disse-me que os irlandeses, em geral, não achavam nenhuma graça em piadas sobre a fome por causa da sua própria História. Entre 1845 e 1849, houve uma grande fome na Irlanda. Curiosamente, os comentários a refutar a cómica angolana vinham de países como a Serra Leoa e Libéria, regiões onde parte da guerra civil envolveu violência sexual.
Um estuprador, por mais atraente, famoso ou glamouroso que seja, não estaria minimamente interessado em meninas angolanas numa fila à espera de serem violadas. O estupro não tem nada a ver com o sexo; a violação de mulheres tem tudo a ver com o poder e agressão. Há momentos em que certos homens quando optam por uma agressão desenfreada, o seu pénis se transforma num instrumento para a afirmação do poder. Alguns anos atrás, quando estive no Sudão do Sul, ouvi várias histórias de milícias, ligadas ao então regime de Cartum, sodomizar os seus adversários - em certos casos em frente das suas famílias. Esta prática teve eventualmente que acabar, porque os homens que sobreviviam à humilhação do abuso sexual tornavam-se adversários temíveis. Os próximos destes homens também passavam a ser obcecados por um desejo de vingança. Infelizmente, a violação sexual de mulheres nunca foi levada a sério, porque, em geral, as mulheres têm pouco poder e em muitas sociedades são vistas da mesma forma como os negros eram vistos no tempo da escravidão - entidades vendíveis. Nas várias guerras do Leste do Congo, a violação de mulheres passou a ser parte da estratégia de fazer guerra.
O estupro é uma violação da integridade da mulher. Isto ficou muito bem claro para mim em Setembro de 1997. Na altura eu estava em Londres e alguns amigos congoleses convidaram-me para jantar. Tudo ia bem até que alguém decidiu meter um vídeo a mostrar membros de uma antiga família poderosa do regime de Mobutu a serem violados - a mãe e as filhas, etc. Aquilo foi horrível. Os violadores não eram militares vindos do Uganda e Rwanda que tinham derrubado o regime de Mobutu, mas jovens indisciplinados que queriam humilhar senhoras que eles viam como sendo superiores a eles. Entre os homens que estavam a ver aquele vídeo, havia uns que estavam a gostar e até quase a participar vitoriosamente. Mas lembro-me de muitos que insistiram que os violadores não iriam viver por muito tempo - que aquilo ia completamente contra a cultura dos ancestrais, em que as mulheres deveriam ser respeitadas. Um mais velho mandou parar a exibição daquele vídeo. Ver aquele vídeo forçou-me a ir à falecida Helen Bamber, a sobrevivente do Holocausto que tinha fundado uma organização para ajudar vítimas de torturas em várias partes do mundo. A senhora Helen Bamber, numa tarde de Verão em Londres, disse-me que a sua organização tinha que ajudar mulheres vindas da República Democrática do Congo que estavam emocionalmente em ruínas por causa de estupros e outros abusos sexuais. Nas redes sociais, há muitos clipes de mulheres congolesas a serem humilhadas sexualmente. Naturalmente, os que vêem as mães, irmãs, esposas, filhas, etc, tratadas daquela forma vão jurando fazer vingança um dia. Um amigo no Sul do Sudão contou-me que havia um artilheiro de uma arma antiaérea que gritava o nome da mãe quando estivesse a disparar. O militar em questão tinha visto a mãe a ser violada.
Há sociedades em que o estupro e outros abusos sexuais são tolerados sob a alegação de que a mulher estava vestida de uma forma sexualmente provocatória. Na África do Sul, país onde os níveis de estupro são elevadíssimos, há até o que é descrito como “estupro de correcção” - mulheres que aparentam ser muito masculinas ou mesmo lésbicas são violadas para serem transformadas em heterossexuais. Na África do Sul o que há é uma cultura em que muitos homens se sentem desvalorizados e insignificantes; este sentimento de não ser valorizado é superado com a violência contra os fracos - neste caso as mulheres. Há, também, muitos casos em que homens altamente poderosos violam mulheres porque sabem que nada lhes vai acontecer. Na República Democrática do Congo há mulheres escondidas, a tremer, cheias de medo, porque há homens que pretendem violá-las. O abuso sexual é mesmo uma coisa séria demais!

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