Opinião

Exercícios mentais e senilidade

Fragata de Morais

Da mesma maneira que se treina o corpo para um bem-estar físico dever-se-á treinar a mente para seu estímulo e desenvolvimento, sobretudo à medida que a idade vai avançando e paramos de prestar atenção sobretudo ao que fazemos mecanicamente.

 Hoje sabe-se que o cérebro mantém a sua aptidão de evoluir e também mudar os padrões de suas conexões ou seja, através de estímulos conceder-lhe uma maleabilidade que o fortalece e restaura.
Ao chegarmos à média idade, notamos que começamos a esquecer, temporariamente que seja, pequenas coisas, pequenos acontecimentos e situações e entramos em parafuso, preocupados com a nossa memória que já não mais responde aos comandos tradicionais como anteriormente.
É uma reacção primária e normal, todavia se pararmos para pensar um pouco, cedo chegaremos a uma conclusão óbvia; a de que a memória, tal como o corpo, sem exercício, não funciona de maneira adequada e começa a mirrar, a tornar-se esparsa e espaçada.
O tema de hoje ocorreu-me ao pensar nos 90 anos de minha mãe, já lá vai algum tempo, na altura pessoa activa e envolvida nas suas diversas lavras da vida e que era um prazer ver, desde que a memória não lhe fosse muito solicitada. Se não, o caso virava prazeroso para todos nós por ela não se dar por achada.
Li um programa, elaborado por uma americana, a senhora Kimberly McClain, que é uma espécie de guia prático, uma receita, para ajuda do refrescamento da memória, que consiste em exercícios práticos e simples, para que não passemos horas a indagar onde é que o raio da chave da casa ficou, para onde é que fugiu o telemóvel, se desligámos ou não o gás da cozinha, culparmo-nos por não termos recordado o aniversário da Maricota ou do Sebastião.
Esses exercícios são um pouco o que seria a aeróbica para o corpo e já que estou a falar de mais velhos, a ginástica sueca, ou os exercícios para musculação de Charles Atlas, lembram-se?
E não há, hoje, qualquer sombra de dúvida que para os que se mantêm permanente e mentalmente activos, a senilidade é uma praga ainda bem longe. Perguntem aos mais velhos(as) que passam a vida a fazer palavras cruzadas, passatempos, a jogar xadrez ou damas, quebra-cabeças, a escrever, a desenhar e ou a pintar, a dançar kuduro ou a tarrachinha, a inventar engenhocas com os restos das latas e artefactos velhos e usados, ou a atazanar a vida de colegas quer no Parlamento, quer no Governo com picuinhices que fazem muito bem à saúde mental.
É claro que numa sociedade como a norte-americana, crescentemente mais envelhecida e “engordecida”(a minha palavra preferida), com o mal de Alzheimer expandido, assim como com outros tipos de doenças mentais, esta preocupação com a memória, atirou a comunidade científica para pesquisas múltiplas, sobretudo no que refere ao scaning e mapeamento do cérebro, onde, com ajuda de alta tecnologia, já o esquadrinharam quase todo para aprenderem e entenderem o seu funcionamento, a fim de que o envelhecimento não signifique necessária e imediatamente uma questão de senilidade.
Aliando-se os exercícios mentais aos antioxidantes, como o selénio, a vitamina C e E, ou às ervas tradicionais, poder-se-á contribuir para um retardamento do processo da perda de memória e a proteger-se o cérebro. Já é evidente que os processos para evitar-se o “engordecimento”(que me perdoem o bisar do termo, mas trata-se de amor à primeira vista) que leva às paragens cardíacas, como alimentação correcta, manutenção de um colesterol e pressão arterial baixos, exercícios físicos regulares, são os mesmos que protegem o cérebro, daí procurar-se saber se as mesmas drogas para o colesterol serão eficazes para a nossa matéria pensante.
A receita para a memória, que a senhora McClain utiliza, numa possível relação causa-efeito, inclui, entre outras coisas, uma dieta alimentar saudável correndo paralela a exercícios físicos diários, técnicas de relaxamento e exercícios de memória diversos.
Mesmo sabendo que os mais velhos(as), por tendência natural, são avessos a tudo isto que referi, aqui deixo o recado. Toca de exercitar, de comer bem, não em quantidade mas em qualidade se possível, e fazer exercícios mentais, como memorizar o que o vosso guarda-roupa tem lá dentro, por exemplo, ou quando é que viram o vosso neto tomar banho pela última vez.

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