Exploração de gás e petróleo de xisto mexe com o mercado
A queda no preço do petróleo leva alguns países exportadores a prepararem-se para uma significativa queda de receitas. Ao mesmo tempo, países importadores da commodity vão poder tirar benefícios, já que para os seus consumidores o preço tende a cair e assim o combustível fica a um custo mais acessível.
Os exemplos mostram quem sai a ganhar e quem perde com a actual redução no preço do petróleo, que até recentemente se mantinha estável, nos cerca de 110 dólares o barril. Uma fraca demanda, somada a mudanças significativas na produção energética dos Estados Unidos da América, está na origem da queda do preço do Brent (referência do mercado), na ordem dos 30 por cento desde Junho, fixando-se actualmente em 83 dólares/barril. Sexta-feira, o preço registou uma ligeira subida, mas não passou dos 86 dólares. Nesse cenário, quem beneficia mais e quem fica prejudicado? Venezuela: Inflação e escassez
A Venezuela é um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, mas enfrentava dificuldades antes mesmo da actual queda de preços. Críticos atribuem os problemas à má gestão dos recursos. Na semana passada, o chanceler do país, Rafael Ramírez, pediu uma reunião de emergência da OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo) para aumentar o preço acima dos 100 dólares/barril. Estima-se que a Venezuela precisaria de preços na ordem dos 120dólares/barril para continuar a financiar os elevados custos dos seus programas sociais. O país já vive uma inflação galopante (à volta de 50 por cento), estimulada pelo controlo cambial exercido pelo governo, o qual criou um forte mercado negro e provocou a escassez de diversos produtos nos supermercados. O presidente Nicolás Maduro insiste, porém, que a queda dos preços não vai prejudicar a economia venezuelana. “O preço vai voltar a subir de novo. A Venezuela vai manter os seus projectos sociais”, declarou. Rússia atenta ao mercado
Fortemente dependente da exportação de petróleo e gás, a Rússia perde cerca de 2 mil milhões de dólares em receitas por cada quebra de um dólar no preço do barril. A actual tendência de queda deve fazer com que os lucros com a venda da commodity cheguem ao nível mais baixo desde Dezembro de 2010, disse um conselheiro do Governo russo à Bloomberg. Nesta semana, o presidente Vladimir Putin disse que o país poderá ter que cortar gastos, acrescentando que o orçamento russo está “equilibrado e é totalmente realista”. No início do mês, o FMI reduziu a sua perspectiva de crescimento para a Rússia de 1 por cento para 0,5 por cento. O banco estatal Sberbank defende que o preço do petróleo precisa de estar acima dos 104 dólares para que haja equilíbrio orçamental. O rublo russo caiu fortemente neste ano, acompanhando a queda do preço do petróleo e estimulado pelo conflito com a Ucrânia e pelas sanções impostas pelo Ocidente à Rússia.
Riad domina mercado
A Arábia Saudita, maior exportador de petróleo do mundo e membro mais influente da OPEP, poderia promover a retomada dos preços se cortasse a sua própria produção - de forma a reduzir a oferta de petróleo disponível no mercado. Mas, até agora, o país não deu sinais de que fará isso. Por enquanto, o governo saudita indica que “está feliz em deixar os preços caírem um pouco mais”, avalia Jason Bordoff, do Centro de Políticas Energéticas Globais da Universidade Columbia. Pode haver duas razões para isso: tentar impor algum tipo de disciplina entre outros países da OPEP ou, talvez, pressionar a competitividade da crescente indústria americana de gás e de xisto. Apesar de um aumento de preços beneficiar a Arábia Saudita, o país tem uma reserva monetária estimada em 700 mil milhões de dólares - ou seja, consegue sustentar-se com preços menores por algum tempo. “Em termos de produção e fixação de preços do petróleo pelos produtores do Médio Oriente, eles começam a reconhecer o desafio representado pela produção americana”, diz Robin Mills, da consultora energética Manaar. “Eles têm de fixar correctamente o preço do seu petróleo e, às vezes, com descontos consideráveis para conseguir entrar no mercado americano.” Se a baixa no preço levar à falência de algumas produtoras, talvez a Arábia Saudita se veja forçada a defender a retomada do
mercado a longo prazo.
Desigualdades na OPEP
Alguns países produtores do Golfo Pérsico, como Emirados Árabes Unidos e Koweit, também acumularam reservas consideráveis de moeda estrangeira que lhes dão fôlego em momentos de queda de preço. Mas outros, como Irão, Iraque e Nigéria, com grandes demandas orçamentais domésticas – devido à sua grande população relativamente ao tamanho das suas reservas -, têm margem de manobra menor. Na Síria e no Iraque, combatentes do grupo autodenominado “Estado Islâmico” tomaram o controlo de poços de petróleo. Mas, segundo a Agência Internacional de Energia, os ataques aéreos contra o grupo reduziram a produção de petróleo nessas localidades.
Estados Unidos avançam com produção de xisto
Os Estados Unidos têm vindo a conhecer uma forte produção energética, impulsionada pelo crescimento da polémica exploração de gás e petróleo de xisto - e isso tem forçado a baixa dos preços no mercado mundial. Além disso, o petróleo de xisto é mais barato, ou seja, a guerra de preços tende a ser vencida pelos EUA a longo prazo. “O xisto basicamente alterou a ligação entre as turbulências geopolíticas no Médio Oriente e os preços do petróleo”, explica Seth Kleinman, chefe de estratégia energética no banco Citi.
Impactos económicos na Europa e Ásia
Com crescimento e inflação baixos em vários países europeus, além de temores de inflação, a queda nos preços é bem-vinda para vários países da Europa e da Ásia. Algumas estimativas indicam que uma queda de 10 por cento no preço do petróleo levaria a 0,1 por cento de aumento na produção económica. Mas os mercados financeiros têm acusado os efeitos da queda dos preços das acções de empresas energéticas. A China, que deve tornar-se o maior importador de petróleo, tende a tirar benefícios dos preços mais baixos. Mas isso não deve ser o bastante para compensar os efeitos da desaceleração económica do país. O Japão importa praticamente todo o petróleo que consome. Mas preços mais baixos têm prós e contras: um aumento traria mais inflação, algo crucial no plano do governo para conter a deflação em curso actualmente.
Petrobras perde e ganha
Ainda não está claro qual será o impacto total da mudança no patamar de preços do petróleo no mercado internacional para a Petrobras (companhia petrolífera brasileira pertencente ao Estado). Por um lado, a queda beneficia a empresa uma vez que assim pode zerar o subsídio implícito na importação e venda de combustível no mercado interno, fazendo com que deixe de ter prejuízo nessa operação. Segundo um estudo do Credit Suisse, por exemplo, a gasolina vendida pela companhia estatal no mercado doméstico já estaria 1 por cento mais cara que a média dos preços no mercado externo. Em Setembro, era quase 25 por cento mais barata. “Havia um desfasamento e agora isso não acontece. Agora é em benefício da Petrobras. O preço da gasolina está mais alto (no mercado interno), então a Petrobras está a ganhar com isso”, disse recentemente o ministro da Fazenda Guido Mantega, acrescentando que isso não significa que a companhia não aumente os preços do combustível para o mercado doméstico. “Isso é uma decisão da empresa”, disse. Por outro lado, a mudança pode prejudicar tanto a receita como as exportações da Petrobras quanto aos planos de investimento da mesma no pré-sal. Isso porque os custos para se extrair petróleo das reservas do pré-sal são mais altos do que os de reservas tradicionais. Se os preços do produto final caírem demais, pode não valer a pena explorar alguns poços. Pelo Plano de Negócios da Petrobras para os próximos quatro anos a cotação prevista para o petróleo tipo Brent é de 105 dólares o barril para este ano e 100 dólares até 2017. Hoje a cotação está na faixa dos 86 dólares o barril.