Opinião

Falhas no sistema

Osvaldo Gonçalves

Querida Mafalda, queríamos fazer-te chegar esta carta por um portador, mas não temos a quem confiá-la, pois as coisas por cá são mais do mesmo, ou seja, ninguém gosta de se sentir velho, mas morrer é mesmo o que nenhuma pessoa quer.

Temo-nos comunicado por e-mail, mas estamos sem Internet. Não se trata, por enquanto, de qualquer crise financeira. O problema é que na representante da prestadora de serviços nessa área dizem estar “sem sistema”.
Até agora, eram só os bancos. Os balcões sem dinheiro atiravam as culpas para as máquinas e alegavam estar sem sistema. Muita gente – a maioria das pessoas, julgamos – ignoram o que isso é. Já houve quem tivesse acusado o “sistema” de ser um “granda kazukuteiro”, um “Zito Mabanga”, “contra-revolucionário”, “inimigo do povo”, etc. e tal, e houve mesmo quem chegasse a ameaçar que, caso o encontrasse, ia lhe “tomar as medidas”.
A maka é que a falta de sistema tornou-se transversal e agora são os próprios servidores de Internet a deitarem mão ao mesmo argumento. Ainda bem que somos um pouco à moda antiga. Nascemos muito depois do Marcony e do Bell e conhecíamos bem o slogan “não vá, telefone”. Mas sempre procurámos manter alguma prudência.
Nos últimos tempos, tornámo-nos fãs da Internet. Sem esse sistema de comunicações com os computadores todos em rede quase não somos ninguém. Mas, é como te dizemos, vão-se os anéis, ficam os dedos, ou melhor, vai-se a Internet, ficam as car-tas ao portador. Só que isso não é fácil porque tu já morres-te e ninguém quer ir para essa dimensão.
Há algum tempo, ouvimos alguém dizer que não queria morrer porque caixão faz calor. Era um indivíduo com algum sarcasmo nas palavras, até agora não conhecemos ninguém que tenha voltado do céu ou do inferno com essa desculpa. Os colocados na segunda fila, a do inferno, decerto teriam pouco do que reclamar até porque já os vemos a levarem consigo os ar-condicionados que carregam pela rua fora.
Esses são os primeiros a reclamar de tudo, até da cerveja quando está bem fresca, para já não falarmos de quando está ao natural. Mas, não te aflijas porque jamais faremos deles portadores de qualquer missiva a ti dirigida. Como escrevemos na carta anterior, pedimos imensas desculpas por usar-te para desabafar, mas, se outros há que quando não têm cão caçam com gato, nós por cá, quando não temos com quem falar, escrevemos às galinhas, ainda que já falecidas, escudando-nos no pressuposto de que, mesmo que não saibam ler, ao menos entendem o que nos vai na alma.
Pois, Mafalda, estamos sem Internet e os funcionários de lá dizem não ter sistema para conectar a geringonça. Escrevemos tudo no computador – pusemos até em caligrafia bonita, a imitar escrita à mão, mas não achamos portador à altura. É que, mesmo sendo uma carta aberta, tememos que a fossem ler e isso é muito perigoso.
Quem lê um conto, aumenta um ponto – já diziam os mais-velhos. Mas não é isso o que mais nos preocupa. O que nos apoquenta é que embarcassem num navio qualquer sem rumo certo e que, no momento de reclamarmos por causa do rumo que tomavam, alegassem alguma falta de sistema no GPS.
Pois é, querida Mafalda, a prosa já vai demasiado longa e tememos cansar-te na leitura, mas, como temos muito a contar-te a respeito do que por cá se passa e porque ainda por cima não encontrámos portador, deixamo-nos ir um pouco demais no discurso. Quem muito fala, pouco acerta, já sabemos. Mas, quem se cala, os seus males jamais espanta.
Esperando que essa falha no sistema seja breve, remetemo-nos atenciosamente, não sem antes desejarmos longo descanso. Sem sistema, mas com alma e coração, como boa pessoa que sempre foste.

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