Opinião

Félix Tshisekedi em 2023

Sousa Jamba

Felizmente, os prognósticos  negativos sobre as eleições no Congo Democrático não estão a surgir. O mundo está a dar um grande suspiro de alívio. É verdade que há muitas especulações e alegações de arranjos entre o vencedor Félix Tchisekedi e o Presidente Joseph Kabila.

Será que Tshisekedi passou, também, a ser um peão do que se diz ser uma máquina gigantesca económico-militar de Joseph Kabila? O tempo dirá. Seja o que for, a verdade é que o candidato que tinha sido escolhido pelo Presidente cessante ,  Emmanuel Ramazani Shadary,  não passou.  Isto é raro no continente Africano.
Dentro de quatro anos, em 2023, Félix Tshisekedi vai se apresentar mais uma vez aos eleitores do Congo Democrático. Não resisti a fazer um pouco de futurologia. Se tudo correr como previsto, em 2023,  o candidato Félix Tshisekedi terá cinquenta e nove anos - um homem bem maduro, e poderá ter estado no poder por quatro anos. Há muita possibilidade de um dos seus rivais poder ser o Presidente Joseph Kabila que na altura terá cinquenta e um anos. Espero que surgirão vários outros candidatos - e que a exclusão que vimos nas últimas eleições vai ser algo do passado.
Nos próximos dias, Félix Tshisekedi vai estar rodeado por todo tipo de pessoas (de dentro e fora do país)  a quererem  influenciá-lo. Na sua maioria estes vão ser oportunistas que vão querer usufruir das imensas riquezas da RDC que são calculadas a cerca de vinte e um triliões de dólares. Para Tshisekedi poder apresentar-se em 2023 com empreendimentos notáveis, ele vai ter que ser firme, flexível, ter uma visão bem clara e identificar entidades com capacidade de realização.  Félix Tshisekedi vai ter que evitar a pompa de cerimónias, conferências, viagens oficiais, e concentrar-se em transformar o seu país.
Espero que até 2023 Félix Tshisekedi tenha instalado no país um sentimento profundo de pertença. É curioso que um vastíssimo país, maior que a Europa Ocidental e com uma população de quase oitenta milhões pessoas, tenha órgãos centrais dominados por gente vinda das mesmas famílias há décadas - os Mobutus, Kabilas, Tshisekedis são famílias que vão tendo papéis no palco congolês desde a sua independência. Os protagonistas da cena política congolesa foram sempre a mesma gente.
A RDC precisa de uma descentralização genuína.  Patrice Lumumba, Primeiro- Ministro quando o Congo se tornou independente, defendia um estado centralizado - um princípio que não era partilhado por entidades como  Moisés Tshombé no Katanga e outras figuras. O Marechal Mobutu acreditava num Estado  centralizado, com ele bem no centro. O resultado disto é que eventualmente houve partes deste grande país que praticamente se tornaram autónomas ou passaram a ser mais próximas de países vizinhos. As províncias dos Kivus, por exemplo, são mais próximas do Uganda e Ruanda; há uma geração do Katanga que se sente mais próxima de Lusaka, a capital zambiana, do que de Kinshasa. Tshisekedi vai ter que reverter este quadro não usando meios coercivos (polícias secretas, milícias, exércitos, cadeias, etc), mas através do diálogo, transparência e uma cultura de eficiência.
Como é que o nosso Félix Tshisekedi vai poder unir as várias regiões? O poder vai ter que ser devolvido e os órgãos locais vão ter que ser tratados com muito respeito - em vez de, como sempre, haver batalhões de figuras vindas de ONGs internacionais com os seus projectos e elites locais que beneficiam dos mesmos. Tshisekedi vai ter que encorajar as estruturas no terreno ( as autoridades tradicionais, os académicos, líderes religiosos etc) a participarem seriamente na elaboração e implementação de estratégias duráveis e sustentáveis para melhorar as vidas. Em regiões ricas com minerais, por exemplo, a cultura de contratos secretos, ou de arranjos em que as multinacionais não pagam qualquer imposto, porque têm as elites que decidem nos seus bolsos, vai ter que acabar.
 Félix Tshisekedi vai precisar de operadores bem sérios que vão poder criar um grande movimento no famoso rio Congo. Ele vai precisar de caminhos de ferro e estradas de qualidade para manter a ligação das várias províncias. Estes projectos não vão depender dos bajuladores de sempre ou de burocratas que só pensam em como tirar vantagens de todas as iniciativas.
Tshisekedi vai ter que acabar com a grande contradição do país tão rico com populações muito pobres. No Leste do país, Tshisekedi vai ter que trabalhar com gente com imaginação para poder incorporar as várias figuras que operam nas minas artesanais para benefício de todos. O povo vai ter que ver de imediato que o pagamento de impostos resulta em boas escolas, hospitais, estradas e que os recursos minerais não estão lá para beneficiar as elites com conexões e operadores do Ocidente. Naturalmente que Tshisekedi vai enfrentar muitas barreiras; há muitos interesses que beneficiam bastante do presente caos do Congo. Se Tshisekedi não colidir com estes interesses e apresentar uma outra visão do país aos seus compatriotas a história vai ser a mesma e ele será mais um ditador entre outros.

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