Opinião

Filhos dissolutos

Sousa Jamba

Há uma teoria que diz que a segunda geração nem sempre consegue manter fortunas, porque não tem a disciplina e determinação da primeira, que as criou. Há vezes que sinto que o mesmo é aplicável ao capital político.

Figuras que ascendem politicamente através de muita disciplina podem gerar filhos que preferem levar um estilo de vida libertino. O mundo está atento ao arresto dos bens do filho do Presidente da Guiné Equatorial, Teodorin Nguema. Uma revista americana descreveu a extravagância milionária do Teodorin Nguema: viaturas caríssimas, mansões gigantescas em locais nobres de Paris, luvas do Michael Jackson, jactos privados, iates, etc. A um certo momento, a acumulação de tantos brinquedos caríssimos sugere algum distúrbio psicológico.
Eu tinha 14 anos, em 1980, quando vi, na Zâmbia, na televisão, a preto e branco, do nosso vizinho, o casamento de Jean Claude Duvalier, filho do então presidente do Haiti François Duvalier, que substituiu o pai, com apenas 19 anos, em 1971. Na altura, lembro-me dos mais velhos lamentarem que o comportamento do “Baby Doc” — gastar milhões para um casamento num dos países mais pobres do mundo — era um reflexo da superficialidade do negro no poder. Em 1979, no Uganda, o ditador Idi Amin, com os seus espectáculos (dar a maior medalha de honra militar do país ao filho de seis anos), foi finalmente derrubado. Foi também em 1979 que Jean Beddel Bokassa, autoproclamado imperador centro africano, foi destituído. Ainda em 1979, Francisco Macias Nguema, tio-avô do Teodorin, foi derrubado e substituído pelo sobrinho Teodoro Obiang Nguema. Lembro-me da capa da revista “The New African” declarar que jamais haveria ditadores no continente africano. Francisco Macias Nguema desviou uma boa parte dos recursos da Guiné Equatorial; quarenta anos depois, os recursos daquele país passaram a ser desviados por entidades que não tinham ainda nascido naquela altura.
Claro que o comportamento de um Duvalier, Amin ou Nguema não é típico de negros. Na Roménia de Ceacescu, os filhos (Zoia e Valentin) levavam um estilo de vida tão mimado e lascivo que nem os filhos de líderes dos sistemas capitalistas que o regime denegria; eles tinham tudo e mais alguma coisa. Os filhos de Sadam Hussein, no Iraque, o Uday e Quasay, eram pequenos deuses na terra — o mundo vergava-se timidamente perante os seus caprichos.
A verdade é que muitos filhos do “poder” passam a viver numa bolha na qual surge a noção de que houve uma ordem divina para merecerem todos esses privilégios. Em Londres, nos anos 1980, estivemos num barco de jovens estudantes africanos, no rio Tamisa. Aquilo foi muito lindo; havia comida de várias partes do continente e também boa música. Tudo estava tão bem até que alguém irritou o filho de um Presidente; o jovem embriagado, com os seus guarda-costas, queria dar uma tareia num ganense, que parece ter atraído uma das suas namoradas. Felizmente, havia uma boa segurança no barco; o malfeitor foi detido, enquanto os seus guardas gritavam que tinha imunidade diplomática. Cá estava alguém que na vida nunca soube o limite das coisas. Na altura, o jovem em questão tinha apenas 20 anos, mas já possuía várias casas em Londres!
Há filhos do poder seriamente determinados a acumular imensas fortunas para si próprios. No Quénia, durante o reinado de Arap Moi, o filho, Gideon Moi, passou a ter interesses vastíssimos no sector bancário, imobiliário, industrial, etc. Usualmente, investidores que queriam entrar no Quénia operavam através de Gideon Moi. No Quénia, houve um tempo em que não se podia filmar lojas que vendiam equipamento electrónico em centros comerciais. Isso porque os preços eram absurdamente altos, já que havia uma rede de importadores ligada ao filho do Presidente Moi que fazia lucros astronómicos com as importações. Todos tinham medo do Gideon Moi; contrariar o filho do Presidente poderia marcar o fim não só de uma carreira, mas também da existência cá na terra.
Vivi brevemente no Quénia, em 2007, durante o consulado do Presidente Mwai Kibaki. Na altura, a grande história era dos irmãos arménios — dois empresários internacionais que, de repente, começaram a movimentar-se na elite governante. Um dos irmãos passou a namorar a filha do Presidente Kibaki, Winnie Wangui Mwai. Os quenianos já tinham tido a experiência de Gideon Moi; desta vez eles não iriam permitir que alguém que viesse de fora tivesse uma vantagem excessiva só por ter ligações com a filha do presidente da República.
Entretanto, os irmãos arménios, já que tinham ligações com a filha do Presidente, passaram a pensar que o Quénia era deles. Um deles achou im-pertinente quando um empregado das alfândegas lhe fez perguntas sobre o que estava a trazer para o país e deu-lhe uma bofetada. O queniano retaliou. O arménio tirou uma pistola. Grande confusão no aero-
porto internacional de Nairobi. A filha do Presidente mandou elementos da guarda presidencial salvarem o namorado. Só que a filha em questão era o resultado de um relacionamento fora do casamento e a Primeira-Dama, Lucy Kibaki, que não podia com a rival e a filha, insistiu que os arménios deveriam sair do Quénia imediatamente! Foi assim que os dois aventureiros foram deportados.
O grande escritor queniano Koigi Wamwere, das pessoas mais inteligentes que conheço no continente africano, escreveu, na altura, um ensaio bastante esclarecedor. Ele dizia que o grande problema com o poder no continente africano era que as pessoas não tinham uma noção exacta do que era uma democracia eficiente — a visão do poder, segundo ele, era baseada na corte do líder tradicional; nas redes de patrocínio que dependiam dele. Com o andar do tempo, com gerações mais instruídas e sofisticadas, dizia Wamwere, as cortes seriam eventualmente substituídas por instituições.

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