Opinião

Fintas à Garrincha

Arlindo dos Santos

Ele foi um dos maiores de sempre. Mesmo quando o mundo se perdeu de amores pelo Rei Pelé, classifiquei sempre como o maior, Mané Garrincha, o “anjo das pernas tortas”. Preciso de dizer aos leitores, o quanto vibro com o desporto-rei e como tive um precoce relacionamento com o futebol brasileiro.

 Fazendo contas, já passaram mais de 60 anos desde que, lá no meu Calulo, comecei a sentir um forte amor, caso de sentimento platónico pelo jogo, vivido à distância mas fundamentado na arte e beleza do futebol. A minha primeira paixão foi o América do Rio de Janeiro, do arqueiro Pompéia, do ponta Canário e do temível centro-avante Leónidas. Mais tarde, o perfeito amor virou-se para o Santos da Vila Belmiro e de Pelé. Apesar da minha admiração por Garrincha, nunca, ao longo dessa relação afectuosa com o futebol brasileiro, fui adepto do Botafogo, clube do coração de Garrincha, e pelo qual, o craque realizou sublimes exibições. Já nessa altura, me tinha apercebido, e não gostava, do modo pouco inclusivo como o homem do povo, o alegre e inocente Garrincha, era tratado pelos dirigentes do Botafogo, o clube elitista da estrela solitária.
Perguntar-me-ão como um garoto matuense de 15 anos que, a exemplo de muitos outros, sem perspectivas no horizonte, que vivia entrincheirado nos limites da pequena vila de Calulo, “capital quase desconhecida” do concelho do Libolo no então distrito do Cuanza-Sul, podia estar tão próximo de factos e nomes do futebol que encantava o mundo. Primeiro que tudo, tenho que explicar que Calulo esteve – e estará ainda – para os angolanos, tanto quanto o Entroncamento está – ou esteve – para os portugueses. Território fecundo de estranhas ocorrências, o Entroncamento ganhou, em meados do século passado, o estatuto de terra dos fenómenos. Enquanto que, com o andar dos tempos, a fama fenomenal daquela vila portuguesa começou a ter uma explicação científica, para os imensos casos de Calulo não surge, até hoje, qualquer ciência esclarecedora. Nem mesmo Golungo Alto consegue equiparação neste domínio! Não foi necessário o aparecimento em Calulo de um melro branco ou de uma melancia a pesar 60 quilos, para se constatar que a sede do Libolo, era terra de fenómenos. Os que conhecem Calulo, sabem que é tanto verdadeira a aura como é, sobretudo verdade, ser terra de gente muito especial.
Os relatores/comentadores desportivos Ari Barroso e Washington Rodrigues, entre outros, marcaram presença em Calulo ao levar, por via da rádio e através duma narração rápida, emotiva e inigualável, o som do futebol brasileiro para aquela paragem rochosa e verdejante, terra única em Angola. As suas vozes chegaram mais fortes a Calulo, na época em que a selecção canarinha brilhava, e Garrincha fazia com Pelé uma dupla terrível, sobretudo no Mundial de 1958, na Suécia, tempo em que, pela primeira vez, alinharam juntos pelo “escrete” e foram campeões. Foi por essa altura que eu tive o primeiro contacto com o nome de Garrincha e com os seus fantásticos dribles. Antes, já me tinham chegado ecos da tragédia brasileira na decisão do título mundial de 1950, em pleno Maracanã. O Libolo estava a ser, de um modo insinuante, influenciado pelo futebol, do mesmo modo que, de mansinho, já fora conquistado pela música popular brasileira. Raramente chegavam a Calulo imagens do futebol pelo cinema, mas, para espanto e inveja de gentes vizinhas, até das de praças fortes, começaram a chegar os jornais e revistas (Manchete Esportiva, Cruzeiro, etc.) e os adeptos passaram a conhecer mais de perto os ídolos brasileiros e as suas histórias.
Fazendo jus à sua fenomenal notabilidade, Calulo, mais precisamente as massas destacadas que compunham o lado consistente do povo, as mais significativas no conjunto das pessoas da terra, contribuíam para que, ocorresse à vista desarmada, um processo de transculturação na sociedade libolense. Na verdade, uma parte considerável da população, onde cabia gente que foi designada por “crioula” por muitos autores, já havia adoptado no seu dia-a-dia, uma cultura diferente, muito mais próxima da comunidade étnica de origem do que da do colonizador. Por outro lado, passou a ser evidente que os padrões de vida até antes utilizados pela “crioulagem”, eram alterados a partir de elementos externos, simbolizados folcloricamente pelo samba e pelo baião e, claro, pelo futebol. Sendo certo que essa transmissão pelo contacto não abrangia a cultura do grupo dominante, admite-se hoje que as autoridades portuguesas se tivessem inquietado quando surgiu naquele micro-território, devidamente organizado, um campeonato de futebol, cujos clubes participantes escolheram, para os designar, nomes brasileiros. Eram o Palmeiras, o Botafogo, o Vasco da Gama e o Fortaleza, entre outros. A era sentimental do Benfica-Sporting, tinha ficado para trás! Durante o dia e aos fins de semana, a música que se ouvia nas lojas populares, nas cantinas e em locais de diversão como a “Casa Chic”, era a de Luís Gonzaga, Carmélia Alves ou Jackson do Pandeiro. Fenomenal! Angolanos a demarcarem-se nitidamente dos portugueses, ousando chamar a Calulo de “pequeno Brasil de Angola”. Explica-se a fúria assassina dos colonos que se abateu sobre os nativos, dolorosamente confirmada em 1961, levando no ódio, muitos dos jogadores do Libolo. Entretanto, o futebol local progrediu e surgiram, no meio dos de Isidro, Quintas, Queirós, Candolas, Zeca Santos e Ruy Aníbal, os de Didi, Sabará e Cabeção, tipicamente brasileiros. Também, e antes do morticínio acontecido após o 4 de Fevereiro, apareceu Lulu, que era a cara do Pelé. Imitou-lhe o estilo e o penteado, e até tinha jeito para o futebol mas preferia mesmo ser Lulu. E assim morreu, barbaramente assassinado pelos milicianos! Houve um que se atreveu a ser Garrincha, em detrimento do seu próprio nome de Chiquito. Não tinha as pernas tortas nem um milésimo da habilidade de seu Mané. Não era titular, mas jogava e virou Garrincha, talvez porque na sua corrida elegante parecia levar samba no pé. Vieram então para ficar na gíria popular, as “fintas à Garrincha”, que depois foram utilizadas na vida comum, como metáforas de truque, burla, engano, mentira, fingimento, aldrabice.
Passados todos esses anos que me têm permitido recordar a minha mocidade, entre coisas boas e menos agradáveis, vêm-me à lembrança, pedaços do relato feito na Emissora Nacional de Lisboa, por Artur Agostinho, do jogo Sporting de Portugal-Selecção do Brasil, realizado no verão de 1958, no Estádio José de Alvalade, pouco tempo depois da vitória do “escrete” no Mundial da Suécia e onde, na solidão do meu quarto frio, na isolada Cabuta, ouvi vezes sem conta o famoso locutor dizer, “Garrincha vai para dentro, sai para a direita, finge que entra e sai de novo pela direita, vai à linha e volta para trás, está disposto para mais um drible, deixa Hilário enganado e humilhado”. Provou-se naquele jogo ganho pelo “escrete” por 2-0, que o “pequeno pássaro”, como também era conhecido Garrincha, fintava sempre do mesmo jeito, fingia que entrava pelo meio mas saía sempre pela direita.
Entretanto, a vida não parou, nem pode parar, e na doce ilusão das muitas esperanças que já se tornaram idosas, o quotidiano angolano transformou-se num tremendo desafio. Disputa-se aqui um trumunu “incabável”, um jogo rijo, um “osso duro de roer” como se diz na gíria do futebol. Está recheado de “fintas à Garrincha”, para dentro e para fora, a sair sempre para a direita, com dribles que nos são aplicados a todo o instante, com menor ou maior habilidade, deixando-nos “caídos na área”, tal como caiu o Hilário, defesa-esquerdo do Sporting, completamente esgotado e atordoado.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia