Opinião

Floyd

Apusindo Nhari |*

Era um imenso homem de 1,93 m de altura e mais de 100 kg de peso e, por isso, os seus conhecidos tratavam-no por “gigante gentil”, fazendo jus às suas maneiras afáveis e não violentas... Tinha 46 anos e o tom da sua pele era um espelho por onde se reflectia a sua atitude cultural e a sua História.

Na cidade de Minneapolis onde vivia, na cidade de Houston onde cresceu, e por todos os lugares por onde passou desde 1973, quando nasceu em Fayetteville, na Carolina do Norte, nunca teve como escapar ao rótulo identitário que se lhe colava à pele: era um negro.
No entanto, era apenas, e era sobretudo, um homem.
Um homem que jurava pela bandeira do seu país. Um país que proclamou a sua Independência em 1776, por via uma Declaração que orgulhosamente instaurava a igualdade entre todos os cidadãos. Que levou mais 90 anos para abolir “formalmente” a escravatura exercida sobre os negros (1865) de quem Floyd descendia. E que apenas em 1964 proibia a segregação racial nas escolas e espaços públicos (Civil Rights Act), e garantia, um ano depois, o pleno direito de voto aos negros (Voting Rights Act).
Naquela fatídica manhã do dia 25 de Maio, quando foi confrontado pela polícia e viveu os últimos largos e revoltantes 8 minutos e 46 segundos da sua vida, deitado no alcatrão da estrada, de barriga para baixo, algemado pelas costas e submetido a uma repugnante violência exercida pelo joelho de um agente da polícia sobre o seu pescoço, que acabaria por matá-lo, George tinha parado o seu carro perto da esquina da East 38th Street com a Chicago avenue, bairro central da capital do Estado de Minnesota. Atravessada pelo rio Mississipi, vivem nela cerca de 430 mil habitantes, dos quais cerca de 20% (86 mil) são African-americans, tal como Malcolm X propôs que se auto-intitulassem os descendentes de escravos africanos, como forma de mais claramente se situarem no âmbito da sua interminável luta pela igualdade.
A polícia chegou ao local e interpelou-o porque tinha sido chamada pelos empregados da loja onde George entrara, algo bêbado, e tendo supostamente pago um maço de cigarros com uma falsa nota de 20 dólares. Constaria que o seu “cadastro” cidadão (George tinha ficado sem emprego por causa da crise sanitária da CoViD-19) registava também uso regular de droga.
Derek Chauvin, 44 anos, o agente que não teve frio-nos-olhos, nem vergonha, de exercer o gesto macabro com o seu joelho (por grave que tenha sido o “roubo” de George, e por bêbado que estivesse, não ofereceu resistência...), até conhecia a sua vítima. Trabalharam juntos como seguranças num clube nocturno da cidade, e ambos o faziam como segundo-emprego, para arredondar os fim de mês. Apesar do seu rótulo identitário ser “branco”, Derek é também apenas, e sobretudo, um homem.
Durante aqueles longos e dramáticos minutos, a cabeça e o coração de Chauvin foram atravessados por um duplo sentimento: de desumanidade individual, pois seria provavelmente capaz de praticar tal violência em qualquer outra situação que se lhe deparasse; e de abuso de poder, que exercia por achar legítima a violência que praticou, por esta estar inculcada na natureza mesma da instituição policial a que pertence. Um abuso de poder imoralmente construído ao longo de uma História de dominação e discriminação que fundamenta o seu país (o país “mais avançado” do mundo), e do qual ele, e boa parte da população, até se orgulham.
O racismo, “pretexto” que serve a Derek Chauvin, e a boa parte da instituição policial americana, para cometer actos inaceitáveis ao abrigo da defesa da sua pretensa “supremacia branca” e do “sonho americano”, é apenas uma das formas com que a injustiça se justifica nos EUA e no mundo.
Os trágicos momentos que desencadearam a agitação social que vivem os Estados Unidos desde esse dia, e que extravasou para outras latitudes e longitudes do mundo, acabou por não ser apenas mais um “incidente racial”. Tiveram efeitos que “não estavam previstos no calendário” de 2020, e que nem mesmo a emergência sanitária mundial pôde travar: - mobilização massiva da população, sobretudo jovens, de todas as demais componentes étnicas valorizando o movimento Black Lives Matter; - derrubes de estátuas, nos EUA e em países europeus, dos que foram colonizadores e fomentadores da escravatura imposta aos africanos; - murros dados na mesa em instituições americanas onde os African-americans têm um protagonismo de que essas instituições necessitam (indústria cinematográfica e de séries de televisão, ligas de basebol e NBA,...); e até levaram a que o Rei Philippe da Bélgica acordasse um dia a sentir que já não conseguia dormir bem, sem pedir perdão aos congolenses, em nome do seu avô Leopoldo.
Alertas como a morte de Floyd fazem-nos recordar o que - por instinto de sobrevivência, por “acomodação universal” e por impotência colectiva - toleramos e aceitamos como uma fatídica realidade: a injustiça e a desigualdade que subsistem nas sociedades do mundo actual.
Até onde um sentimento, partilhado por uma parte (maioritária ou não) da população de um determinado país, ou de um grupo populacional transversal a fronteiras nacionais - como, neste caso, a parte da população do mundo a que se chama “os negros” - repousa sobre uma causa justa, humanamente falando?
A cada minuto que passa, e em todos os lugares, em todos os países - incluindo o nosso - ocorrem insuportáveis situações de injustiça: mulheres e crianças são violadas, por brancos, amarelos e negros; mulheres e crianças são agredidas, ou mortas, em actos de violência doméstica. Todos os dias a opressão política e étnica é exercida sobre milhares de cidadãos impotentes, em todos os continentes... E percebemos que o mundo em que vivemos tem algo de profundamente inaceitável, mas agimos como se não houvesse alternativa e aceitamos a realidade.
E se em Angola não parece termos uma sociedade formatada na base do racismo sistémico e “institucional” que vemos noutras sociedades, os vários casos de violência policial que vêm sendo denunciados, e os preconceitos que influenciam as nossas “forças da ordem” quando lidam com a sociedade, devem preocupar-nos. Um país melhor faz-se com o respeito pelo cidadão. Sem qualquer tipo de discriminação
A “repentina” avalanche de actos e manifestações que por todo o mundo suscitaram os tristes acontecimentos daquela manhã em Minneapolis, faz-nos sentir, no fundo de nós mesmos, algo persistentemente ambíguo e desconcertante... Por um lado, avoluma-se dentro de cada um, a motivação de não deixar passar a “ocasião” para defender e fazer valer a causa “adormecida” da luta contra o racismo e contra todos os racismos. Por outro lado, persiste - e magoa-nos, bem dentro de nós - a consciência de que o “momento” vai passar e que muito em breve, tudo voltará ao “normal”.
A necessidade de paz e harmonia (dá-nos jeito pensar que estão garantidas, enquanto não vêm à luz situações dramáticas que se filmem), deveria levar-nos a perceber que um mundo sem actos gratuitos de violência (ou de guerra) só existirá realmente se conseguirmos erradicar as razões que estão na sua origem. Quão decididos, e quão capazes, estarão os governos, as populações e as sociedades, a construir esse mundo com as verdadeiras paz e harmonia que precisamos?
A frustração pelo que aconteceu a George Floyd, e a todas as vítimas de tão cruéis injustiças que diariamente acontecem (não há câmaras vídeo que cheguem), e o desânimo causado pela ineficiência das políticas nacionais e internacionais para evitar que situações similares ocorram, devem motivar-nos a encontrar soluções. Spike Lee, compatriota de Floyd, que nasceu em Atlanta em 1957, habituado a questionar-nos nos seus filmes sobre as desigualdades e injustiças que sufocam os African-americans, sugere-nos, desde Nova York onde hoje vive: o mundo inteiro precisa de apertar no botão REINICIAR.

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