Opinião

FMI e Banco Mundial, lobos em pele de cordeiros

Rui Malaquias |*

A economia nacional está a atravessar um período complexo com um verdadeiro mix de emoções que derivam de factos muito concretos, sendo que alguns dependem ou são controlados pelos órgãos de governação económica, e outros são puramente conjunturais e vindos de outras geografias.

Temos plena consciência de que, no caso angolano, a altíssima taxa de juro, que condiciona o financiamento do Estado e da própria economia, está intimamente ligada à taxa de inflação num país cronicamente importador, depende da oscilação cambial.
A taxa de câmbio surge então como a variável a abater ou a controlar para manter o mais “rasteira” possível a taxa de inflação e por conseguinte reduzir a taxa de juro e inverter a tendência de inviabilidade dos projectos de investimento e tornar o serviço da dívida do Estado mais leve.
Na ausência de produção nacional, a importação é a única solução, daí a pressão brutal sobre a moeda estrangeira que deriva unicamente de uma fonte, das Reservas Internacionais Liquidas (RIL) geridas pelo  BNA. Tais  reservas são dependentes (quase) unicamente das vendas petrolíferas,. pois nada mais é significativamente produzido e exportado para as alimentar.
E como não controlamos o preço do barril nos mercados internacionais, estamos ao sabor das condicionantes geopolíticas internacionais e caprichos do senhor Trump. Resumindo, estamos a ser governados a partir do estrangeiro e pelo mercado internacional, que, de forma muito inteligente, abre caminho para os seus instrumentos de regulação e imposição económica conhecidos como Troika.
A verdade é que só nos resta abrir as portas do país para atrair investimento em capital financeiro e capital fixo. Precisamos que estrangeiros venham produzir cá dentro e precisamos de dinheiro para financiar os novos projectos e os negócios que já estão em funcionamento.
Precisamos de moeda estrangeira para potenciar os investimentos, mesmo aqueles produtivos e eminentemente fabris, porque é preciso importar para além do know how, desde o grão da semente até ao tractor mais pesado.
É neste momento em que aparece o mercado internacional sob forma de Troika, que é personificada pelo Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, que, sob o pretexto de serem os mais experientes e terem passado em muitos países, arrogam-se como  donos da cura para todas doenças económicas.
Claramente que a Troika não tem todas as soluções para os nossos problemas, mas uma coisa eles terão, que é um claque maior que a do Flamengo (entre estudiosos, jornalistas e politólogos nacionais e estrangeiros) e são suportados pelas entidades que detêm capital financeiro e o capital fixo.  
O FMI e o Banco Mundial são sim lobos com pele de cordeiro, porque não são, sequer, vistos a rondar as nações que estão bem financeiramente, pois todos temos a percepção de  que os abutres apenas atacam os animais moribundos, pois não têm coragem de atacar aqueles que têm força para se defender, daí entendemos profundamente aquela famosa canção gospel nacional que diz “o lobo vai te devorar”.
Angola está num impasse estrutural, pelo que , é verdade, precisa de se endividar, e tem como garantia uma commodity que é tão instável quanto as mudanças de humor de Donald Trump. O FMI e o Banco Mundial sabem disto e apresentam-se como a alternativa mais barata, estável e consensual do que empréstimos directos à China ou outros mecanismos de financiamento semelhantes. 
Estamos vergados a estas instituições, pois o alcance destas é mais político que outra coisa, eles influenciam o sucesso da nossa política e diplomacia externa, sendo que se adoptarmos as “recomendações” destas instituições estaremos bem na fotografia internacional e sairemos das listas negras e cinzentas em que somos colocados cada vez que pensamos pela nossa cabeça.
Mesmo até em termos conceptuais, vejamos que até nos introduziram pela goela adentro o termo “novo normal” que é nada mais, nada menos do que uma nova ordem ou nova cartilha, que Angola há de seguir, com a apoio e complacência dos nossos economistas e comentadores liberais.
A cartilha é um conjunto de medidas impopulares para os povos dos países alvo, baseadas em medidas teóricas, baseadas em cortes e imposições que deverão perfilar Angola num perfeito devedor e eternamente dependente dos mercados internacionais.
Não houve uma experiência bem sucedida do FMI e Banco Mundial no mundo, mesmo em países desenvolvidos ou em vias, pois a cartilha falhou por erros técnicos ou por pressão social, pois a medidas que ela (a cartilha) apresenta são impopulares e nunca retiraram país algum da crise.
Certamente, que em Angola a cartilha não irá funcionar, ou se calhar, ela não foi feita para os fins que ela própria se propõe, porque ela advoga o crescimento económico apoiado num relançamento da produção interna, num germinar das exportações e redução das importações para níveis mínimos e assim numa completa auto- suficiência e autonomia nacional.
Mas todas cartilhas são assim, feitas para falhar. Se o FMI e o Banco Mundial tivessem sido bem sucedidos nas suas muitas intervenções, hoje estariam sem trabalho, pois o mundo seria um mar de rosas, as economias seriam resilientes e dinâmicas e as taxas de crescimento seriam uma constante.
Não, isto não funciona assim, as cartilhas não são feitas para acertar, porque se Angola e outros países subdesenvolvidos deixarem de importar do Ocidente (porque se produz internamente) as fábricas europeias e americanas deixariam de vender e teriam de fechar colocar pessoas no desemprego.
São exactamente os donos das fábricas europeias e americanas, suportados pelos seus governos que vivem dos seus impostos, que financiam o Banco Mundial e FMI, pois este dinheiro é investido para manter abertos os mercados subdesenvolvidos, daí haver um acordo tácito sobre quem lidera estas duas instituições (Banco Mundial e FMI), sendo que será sempre um cidadão europeu e um cidadão americano.
O FMI e o Banco Mundial não vieram para salvar nada nem ninguém, mas sim para perpetuar esta ordem económica, em que uns serão eternos produtores (vendedores) e outros eternos compradores, trazem mecanismos para sanear as economias de forma a que possam endividar-se mais e de forma constante, preparando-as apenas para o serviço da dívida externa.
Olhemos para o perfil das medidas que o FMI sugere para Angola. Elas se baseiam em cortes cegos (em nome da eficiência) canalizando os subsídios que ainda existem na nossa economia para pagar a dívida externa através dos cofres do Estado, nunca os canalizando para o investimento público.
Havendo uma orientação clara e expressa de que investimentos públicos devem provir do endividamento externo, com taxas sempre mais altas do que em outras paragens, pois o risco país de Angola é alto, de acordo com a classificação das agências de rating, que também têm uma agenda convergente com a da Troika.
As medidas da Troika deixam de lado os investimentos que nós angolanos entendemos como essenciais para acabarmos com a dependência sobre as importações, no que respeita à agricultura, pecuária, pescas e sector primário e secundário da economia, sim é aqui que precisamos da experiência do FMI e do Banco Mundial, mas claro que nos irão dizer que não é importante tratar disso neste momento.
Mas na verdade, eles sabem melhor do que nós, que é justamente aqui que é possível criar os empregos que precisamos, é aqui que é possível criar os verdadeiros latifundiários e industriais nacionais que iriam ser competitivos reduzindo fortemente as importações e diversificar as exportações.
Vamos pedir ao FMI e ao Banco Mundial medidas concretas para a economia real, apoios concretos para os angolanos que querem produzir e deixar de importar. Claro que o FMI vai nos dizer que o mais importante é desvalorizar o kwanza (para que a nossa produção inexistente seja mais barata) reduzindo assim a capacidade de importarmos as matérias-primas que precisamos.
O FMI prefere ter certeza de que os subsídios aos combustíveis, água e energia eléctrica estejam terminados, para que o Estado não invista na economia real, nas infraestruturas, na modernização das nossas faculdades e centros de investigação e se torne num “rapaz obediente” para que sempre que precise de alguma coisa vá ter com o grande FMI.
O repto é que não fiquemos de cócoras para ninguém e muito menos para o FMI e Banco Mundial. Vamos cooperar com eles até onde o nosso interesse nos permitir e não até o interesse deles impuser. Precisamos sim de mudar o paradigma da governação económica e política, mas sem cartilhas e sem guiões de filmes de terror.
Devemos primeiramente ser por Angola e pelos angolanos. Se o FMI for por Angola e pelos angolanos então estaremos ao lado do FMI, porque pensarmos primeiro no FMI antes de pensarmos Angola, estaremos a esquecer o que já sofremos e ir contra tudo que desejamos construir.

  *Economista

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