Opinião

Formação Docente e Desenvolvimento Comunitário

Filipe Zau |*

Para superar a difícil situação da Educação em Angola e para se levar por diante um projecto abrangente de Educação para Todos, para além da participação dedicada de responsáveis da Educação, do corpo docente e discente EM instituições de ensino, tornava-se urgente e necessária uma maior participação de organizações da sociedade civil: famílias, comunicação social, sindicatos, associações, igrejas e promotores do ensino privado.

Num país marcado por uma elevada taxa de analfabetismo, infra-estruturas destruídas ou degradadas, devido a um longo período de guerra e fracos recursos (humanos, materiais e financeiros), impõe-se, obviamente, para a implementação de uma estratégia de desenvolvimento comunitário, através da educação e da saúde, a aplicação do princípio da complementaridade de esforços e de meios.

De considerar que, no caso específico de Angola, professores e enfermeiros de qualidade podem dar início a projectos-pilotos de intervenção social, que visem um sustentado desenvolvimento comunitário. Porém, não devemos tão pouco ignorar, que a fatia do OGE re-servada à educação não tem sido particularmente generosa e que uma política abrangente de formação e colocação de professores deverá situar-se na primeira linha de qualquer política direccionada para a qualidade das aprendizagens e esbatimento das assimetrias de desenvolvimento.
Recorrendo à classificação de ciências sociais e humanas de Jean Piaget, a epistemologia das ciências da educação de Gaston Mialaret e ao lugar e estatuto da pedagogia no seio das ciências da educação de Quintana Cabanas, torna-se possível desenhar um plano de estudos para a formação específica e profissional de professores, ao nível de licenciatura. Poderíamos hipoteticamente considerar, para uma primeira fase, todas as disciplinas como semestrais e com igual número de créditos.
Para a formação geral de candidatos à docência esse curso teria obrigatoriamente de promover a competência (escrita e oral) na língua oficial e de escolaridade – a Língua Portuguesa. Os candidatos a professores do ensino obrigatório, para além da competência (escrita e oral) na língua oficial e de escolaridade, teriam de adquirir, complementarmente, competência comunicacional em, pelo menos, uma língua africana, que fosse falada na região de intervenção social, visando estratégias futuras de desenvolvimento comunitário.
Tendo como suporte a Educação Intercultural, a promoção do bilinguismo seria um alvo importante a atingir, para permitir uma maior cooperação entre as Línguas Africanas (enquanto línguas de contexto) e a Língua Portuguesa (enquanto língua oficial e de escolaridade). Ainda no que concerne à aprendizagem das línguas, devemos acrescentar que, a metodologia para o Ensino da Língua Portuguesa deveria considerar a necessidade da utilização de uma metodologia de ensino do Português, como L2 e como L1.
No contexto actual da globalização e pela necessidade de acesso às NTIC’s a aprendizagem de uma língua estrangeira (preferencialmente, o inglês) deveria ser obrigatória e nunca optativa, abrindo assim caminho para a metodologia do ensino a distância, de que os candidatos à docência também poderiam beneficiar como estudantes e, mais tarde, como tutores. Daí que o ensino da informática teria de necessariamente integrar também a formação geral dos candidatos a professores do ensino obrigatório, em Angola.
Os Estudos Sociais, a História e a Geografia terão de proporcionar um adequado conhecimento da origem, diversidade, localização e composição étnica das populações angolanas em toda a sua diversidade. Deste modo, um maior conhecimento de nós próprios irá contribuir para um maior espírito de compreensão e aceitação do Outro e será suporte para a promoção de uma cultura de paz, de espírito de angolanidade e de respeito à diferença (incluindo a de opinião, de género, de etnia…).
A Biologia deveria ser a trave-mestra para a educação ambiental e a educação para a saúde, sem descurar questões ligadas à prevenção contra a malária e o HIV-SIDA, a prática da Higiene Comunitária e a utilização dos Primeiros Socorros. Conhecimentos indispensáveis para quem, no futuro, irá trabalhar directamente com crianças e como adultos em projectos de intervenção social.
A Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem deveria estar voltada tanto para aspectos pedagógicos (ensino de crianças e adolescentes), como andragógicos (ensino dos adultos), sem perder de vista as dinâmicas de trabalho em grupo.
Para além da formação de professores urge, através da educação, iniciar todo um processo de correcção de enormes assimetrias de desenvolvimento existentes entre litoral e interior, e entre cidade e campo. Nesta ordem de ideias, haveria necessidade de se organizar um sistema municipal e comunal, que acautelasse “moradias de função” condignas para docentes e formadores, a serem colocados ou transferidos temporariamente para locais afastados das suas residências habituais. A implantação de um sistema de comissões de serviço, com períodos previamente acordados e estímulos suplementares a serem estudados, poderia ajudar a desconcentrar periodicamente bons docentes e formadores de professores para locais com baixos índices de escolaridade, o que ajudaria também a fixar mais as populações rurais nos seus locais de origem.
* PhD em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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