Opinião

Funji de bagre

Arlindo dos Santos

1- Entrei em regime de perda de peso, seguindo indicação do doutor Sacy. “Um cambuta assim, não pode pesar noventa e três quilos!”.

A advertência obrigou-me a dar outra atenção à minha alimentação e a cuidar-me mais. Menos dez quilos em seis semanas, garantiram-me. Aguardo resultados, acredito nos homens. Curiosamente, é agora que a minha memória vai recuperando lentamente o sabor das coisas boas, uns restos de carne seca ou fios de bacalhau entre os dentes, muitos e deliciosos pitéus. Lembro-me, inclusive, de circunstâncias especiais em que apreciei petiscos, salgados e doces. Comida rara, da boa, com entrada, sobremesa e digestivo.
Posso gabar-me de a ter saboreado em época em que se fintavam perigos, numa conjuntura de guerra, em que gesto menos claro era suspeito. Tempos do kayáia, de não confiar. Refeições servidas à hora certa do anoitecer, em pratos de loiça, com talheres inox, toalhas e guardanapos imaculados. Material digno do farnel. Foram dias seguidos em que a comida surgia, como se de um toque de magia, com muito carinho, no interior de um carro enferrujado. Menú de cardápio rico, incrível numa cidade que passava fome. Belos jantares, noites inesquecíveis, quantas vezes sob o romantismo da lua! Faziam esquecer o período bárbaro do nosso baião de dois: arroz com peixe espada frito! Só conseguia isso quem merecia! Este detalhe esclarece que, de comida saborosa, estou à vontade para falar.
De um modo geral, sempre comi bem. Desde os tempos difíceis da nossa meninice, em que a mãe Lucília nos punha na mesa, todos os dias, o sabor especial, caseiro e abençoado da refeição calulense. Funji de peixe, de carne de vaca com osso de tutano, mais a dobrada companheira, feijão de banha ou óleo de palma, cozidos, caldeiradas e feijoadas com todos os matadores! O tempo passou, e a unanimidade do gosto da família virou-se para o funji de bagre fumado. Mãe Lucília, com o esmero habitual e com os seus temperos, transformava aquele peixe feio e esquisito do rio num prato delicioso, dos melhores que cozinhava. A minha irmã caçula, a Lili, que é também hábil na cozinha, diz que muito do que sabe aprendeu com a mãe Lucília. Muito nova ainda, não teve oportunidade de saborear, no devido tempo, os petiscos da nossa mãe Constância, mormente a cabidela de kabiri, genuína do Kwanza-Sul e, sobretudo, a famosa galinha de kutóia, só conhecida no Calulo mais profundo. Lembro-me ainda de como a velha fazia a prova do tempero, na palma da mão.
Não há tradição na família de homens bons na cozinha. Entre as mulheres, há propaganda feita à ginguinga de cabrito da tia Né, ao arroz de marisco e ao caril de gambas da Ana Muxima e à galinha ao xadrês, uma especialidade chinesa adaptada pela Utima; à caldeirada de cabrito da Gigi e à lasanha e ao bacalhau com natas da Elis Regina. Todo o nosso mundo familiar coloca nos píncaros da fama a versatilidade e boa mão da Edna, por virtude da variedade de pratos tradicionais que confecciona, entre funjis, ervas, molhos, caldos e refogados. Eu cá não deixo de respeitar a incrível criatividade da Lindita, que faz maravilhas a partir de uma simples lata de atum. Não podem faltar sobremesas, e lembro as que levam a marca da minha irmã Amélia, a tia Jó, que passa as receitas, sem direitos de autor, à comunidade. O pão-de-ló e a baba de camelo da Tchissola também merecem registo. Deixo propositadamente para o fim a fondue da minha Ana Paula, preparada sempre para momentos especiais, com uma variedade de carnes, bem escolhidas e melhor tratadas, com molhos que só ela sabe fazer. Que saudades tenho de ver o riso aberto da Kátia e das pessoas que ela reunia à volta daquela panela especial, com o óleo a dar estalidos durante a quentura, aqueles garfos compridos arrumadinhos, diferentes na cor do cabo, previamente escolhidos para evitar trocas na hora de cada um se agarrar ao seu pedaço. Demais, sem palavras, aquela carne exposta em estranha promiscuidade, pronta e disposta a ser picada e seguir direitinha para as bocas esfomeadas! São tempos que estão a ficar difíceis de serem repetidos.
2 –Não. Não foi o funji de bagre que me inspirou para o que pode parecer uma homenagem às mulheres da minha família. Parece, mas não é. Qual a necessidade, se as homenageio todos os dias com o amor e o carinho que lhes dedico? Esse sentimento de respeito vai estar presente nas palavras que seguem. Palavras que são, sim, uma homenagem a todas as mulheres angolanas. Especialmente àquelas que não podem comer, como gostariam, um bom funji de bagre, nem se atrevem a regimes de perda de peso. Mas são pessoas que se envolvem diariamente com questões ligadas à alimentação: carência de panquê, preço da comida, imensas dificuldades enfrentadas para alimentar a família, onde muitas vezes é chefe. Questões que têm inclusivamente o funji de bagre, que grande parte delas não consegue comer, por não ser prato barato, no centro das suas atenções. Estas vidas não podem ser ignoradas. São vidas sofridas de mulheres que, confrontadas com tarefas diárias complexas, ainda descobrem espaço na cozinha, um recanto sagrado da casa, de onde germina a alegria, a felicidade que só um rosto de criança bem alimentada consegue transmitir. A comida e a fome, quanto mais e maior, mais incontroladas, são assuntos difíceis de tratar. Assuntos que são nossos, de todos nós. A sociedade angolana, nas suas mais diversas formas de organização, tem que se transformar num todo, numa grande força de pressão sobre o governo – deve entender-se bem o alcance da expressão –, contribuindo com acções concrectas, para que a mesa das famílias mais necessitadas, do subúrbio e do interior, das classes que vivem arrasquex, como as classificaria mestre Gabriel Leitão, venha a não ser comparada às dos fartos banquetes servidos nos hotéis e restaurantes de luxo, por razões óbvias, mas substancialmente melhorada. Para conseguirmos isso, precisamos apenas de nos interrogarmos sobre quem realmente somos todos nós, e o que queremos deste país.
3– O que não é visto não é lembrado, é comum dizer-se. Eu gostaria de ver o funji de bagre incluído no cardápio turístico nacional. Sonhar é fácil. Deixem-me então sonhar com o turismo indígena, mesmo que não tenha grande noção do que seja realmente. Esparsas comunicações inconsistentes, algumas entrevistas e uns números estatísticos, vão-me surpreendendo. Temos turismo na banda. Será o comboio milionário que atravessou Angola, serão os paquetes que volta e meia atracam no porto de Luanda? Um de ano a ano? Turismo interno? Feito de excursões, quase sempre pelas mesmas pessoas? Bastarão boas vontades, uma certa teimosia na promoção da coisa? Isto é quase nada para a imensidão das nossas ambições. Esqueçamos a crise, e sonhemos. As tarifas das viagens aéreas, os vistos de turismo, a segurança pública das nossas cidades, a força do cancioneiro e dos artistas angolanos, a maravilha do que nos proporciona o nosso cacimbo, e a extraordinária beleza do mar angolano, do nosso sol sem rival, faça vento ou haja chuva. Tudo isso está longe, sabemo-lo bem, mas é possível e vamos equacionar no nosso sonho. Avaliar o potencial da floresta e da montanha angolanas e compatibilizá-lo com o turismo de descoberta da natureza, de aventura, é necessário. E vamos sonhar com restaurantes de cozinha típica nacional, tendo músicos e shows diários para os turistas. E à mesa, para o turista ver e provar, um bagre à maneira, igual ao que a mãe Lucília fazia.

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