Opinião

Futebol e os ídolos de ontem

Luciano Rocha |

Angola foi sempre berço de futebolistas de enorme talento, muitos dos quais, ainda no tempo colonial, quando imperava o amadorismo, pontificaram em equipas portuguesas de nomeada e até espanholas, como foi o caso de Jorge Mendonça.

À guisa de recordação, referimos - e não são todos - nomes como os Fernando Peyroteu, José Águas,  ambos, em épocas diferentes, melhores marcadores do campeonato português, o primeiro ao serviço do Sporting e o outro, do Benfica.
À lista de predestinados podem acrescentar-se, entre tantos outros, Carlos Duarte, que brilhou no Futebol Clube do Porto, Santana, Malta da Silva, os dois no Benfica, tal como Iaúca, mas que em Portugal começou por jogar no Belenenses, Torres, Académica de Coimbra. Posteriormente Conceição, José Maria e Jacinto João,  que tem estátua em frente ao Estádio do Vitória de Setúbal, onde brilharam os três. Na fornada seguinte, Inguila, Dinis. Naturalmente, que nos limitamos aos que começaram a jogar em Angola, que aqui deram nas vistas e partiram para a fama.  O último nestas condições foi Mantorras.
Ao rol dos fadados para o futebol devem ser incorporados aqueles que não brilharam fora da terra por terem recusado convites de clubes profissionais e trocar o emprego certo pelo desconhecido. Também fazem parte deste “álbum de ouro”os que experimentaram as “luzes da ribalta”, mas depressa perceberam que elas, em muitos casos, tapavam um futuro de miséria. Que, por isso, mais valiam os aplausos dos Coqueiros, em Luanda, do São Filipe, em Benguela, de qualquer outro pelado angolano, do que parangonas em jornais lidos com as mãos geladas e peito a rebentar de saudades, as palmadas nas costas dadas por desconhecidos, que tanto aplaudiam, como insultavam.
Da minha meninice e adolescência guardo na memória equipas fabulosas como as do Clube Atlético de Luanda, com sede, uma cave, no Bairro dos Coqueiros, no Largo que tem agora, justamente, o seu nome. Naquele tempo, era conhecido como “o Escola”. E não era somente de futebol. Acima de tudo, de homens e mulheres.
No “quadro de honra” de ídolos do “Escola” retenho nomes, de épocas diferentes, como os de Piscas, transferido para o Lusitano de Évora e representou depois a Académica de Coimbra, Pugliese, Meno, Ménio, Vasconcelos, que  brilhou no F.C.Porto, Conceição, José Maria, Benje, o guarda-redes - marcou um golo, de grande penalidade, ao Sporting, que valeu um título - Rufino, Romão, Quinto, Santiago, esquerdino, português que chegou como sargento do Exército colonial e regressou à terra dele como Atlético. Lá dizia a máxima “Atlético Uma Vez, Atlético Toda Vida”.
Do Ferroviário de Angola, que teve a melhor equipa angolana que vi jogar, mantenho no meu álbum de recordações as figuras de Ramalhoso, Calabeto, Almeida, Garrido, Mamoeiro, Macongo, Frade, Alcibíades, Alcobia, Jorge Alexandre, Catete, André Santos.
No Sporting de Luanda foram estrelas de primeira grandeza, igualmente em temporadas diferentes, Carlos Alberto, Fernando Santos, Graça, Luciano (Bento da Fonseca), Perdigão, Carlos Silva, Serra Coelho, o Lhélhé que, em fim de carreira, jogou e treinou o Escola campeão, com o tal golo de Benje, o guarda-redes.
O  F.C.Luanda  e o Benfica, também da capital, outros históricos, também tinham craques. No primeiro caso, sobressaio Lara, Sanfins, Carlos Santos, Meira, Paulino. No segundo, Hasse, os irmãos Viana, vencedora da Taça Latina.
O ASA, que sempre fora uma equipa da segunda divisão, constituída à base de jogadores em fim de carreira provenientes do Ferroviário, a dada altura inverteu a situação e passou praticamente a ter a hegemonia do nosso futebol. Entre a constelação de estrelas contavam-se Cerqueira, Neves,  Justino Fernandes, Inguila, Cardona, Dinis.
Como o leitor já percebeu, cingimo-nos às equipas de Luanda, mas podíamos ter mencionado, principalmente os casos do Portugal de Benguela, do Catumbela, de Iaúca, e do Independente, de Porto Alexandre, nome do tempo colonial  do Tômbua.
O futebol angolano era, então, totalmente amador. Os clubes não tinham campos para treinar. O relvado dos Coqueiros, apareceu já nos anos 1960. Os atletas saíam dos empregos directamente para os jogos. Não havia estágios, nem alimentação especial.
A situação hoje é diferente, há relvados no país inteiro e os jogadores são profissionais. Então porquê este retrocesso? Claro que conquistámos um Africano de Juniores, que nos valeu a presença num Mundial da categoria e apurámo-nos para um Campeonato do Mundo em seniores. Mas, onde estão as novas estrelas, agora que há indubitavelmente melhores condições de trabalho e os atletas apenas fazem aquilo que querem e gostam? Que responda quem saiba. Eu e os da minha geração, contentamo-nos com os ídolos de ontem.

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